Enquanto o mundo fede – capítulo 16

Já era de manhã quando chegamos na casa de Carolina. Ficava numa vila fechada onde todos os moradores eram como ela, uma espécie de comunidade de descolados. O artista plástico, a DJ lésbica, uns dois publicitários, uma estilista incompreendida e uma velhinha com dezenas de tatuagens. Estavam todos reunidos na frente da casa de um deles, não lembro de qual, e bebiam vinho. A lésbica rolava o som e cada um tinha levado algo de sua casa para decorar o ambiente. Enfim, uma festinha escrota e sem graça. Apenas dei um cumprimento a todos, num aceno geral.

Cansado, perguntei onde era a casa de Carolina e fui pra lá esticar o corpo num sofá de plástico, moderno, mas não muito prático. Fazia muito barulho quando me mexia e o plástico grudava na pele. Deitei no chão e tentava pregar o olho quando o celular tocou.

– Alô?

– O senhor é Carlos Tonetti?

– Sim, quem fala?

– Aqui é da polícia e encontramos seu carro.

– É mesmo? Mas ele não tinha sido roubado.

– É que ela estava estacionado em frente a uma garagem e o dono do local nos chamou para resolver o problema. E estou informando o senhor que ele está sendo guinchado.

– Merda!

– Está me desacatando, senhor?

– Não, apenas me expressei pelo fato do meu carro estar apreendido.

– Se o senhor quiser recuperar seu carro, dirija-se a nona delegacia. Ok?

– Ok!

– Bom dia!

Desliguei e tentei voltar a dormir. O telefone tocou novamente. Era o Flipper.

– Alô?

– Fala, Flipper!

– Está de mau humor?

– Sim. Diga!

– Porra, cara, o que aconteceu ontem a noite na festa? De repente você sumiu.

– De repente tinha um cara atrás de mim querendo me matar.

– Sério?

– Não, gosto de inventar essas coisas para ver se você se importa comigo.

– Nossa, mas o que rolou?

– Rolou que eu não quero mais essa reportagem.

– Por que? Vai ser nosso furo.

– Não sei se nosso, mas o meu está garantido se eu continuar investigando o universo da moda.

– Não desiste.

– Vou pensar, ok?

– Ah só mais uma coisa. Lembra daquelas pessoas nas gaiolas? Você chegou a ver aquilo?

– Sim, muito escroto.

– Cara, colocaram fogo naquelas pessoas, foi horrível. As pessoas se contorcendo até fritar por inteiro, e o Yves rindo dizia “Queimem, conto com suas roupas feias, queimem esse senso horrível de estética, queimem, mazelas, queimem”.

– Jesus Cristo, broder. O cara é o próprio demo.

– Parece que sim, nem dormi depois de ver aquilo. Bom, vou nessa, abraço.

– Abraço!

Fechei os olhos novamente, Carolina ainda estava na festinha, então podia recuperar um pouco do que sobrou de mim e o chão estava convidativo. O celular tocou novamente. Era a síndica, aquela senhora controladora do meu condomínio.

– Alô? Carlos?

– Sim!

– Aqui é a Dona Elvira, a síndica do Pathernon.

– Hum… fala.

– É o seguinte, fizemos uma reunião de urgência com os outros condôminos e resolvemos que o senhor e aquela turma que vive no seu apartamento não podem mais ficar aqui.

– Que turma?

– Pelo barulho devem morar umas dez pessoas lá fora o senhor, né.

– E o que devo fazer? Não tenho para onde ir, Dona Elvira.

– Vamos te dar um mês. Apenas um mês, ouviu?

– Sim, eu vou encontrar algo.

– Ah, e tem mais. Tem uma moça loira aqui, ela deve medir dois metros e está grávida. Ela só fala “Guga, Guga” e me mostra uma carta. Bem, na carta está o seu endereço mas o nome do remetente é um tal de Yuri, mas como o senhor está fora eu não a deixei subir.

– Ana, provavelmente o nome dela é Ana. Deixa ela subir para o meu apartamento, o irmão dela está lá e o futuro marido também.

– Sim, senhor Carlos, mas você tem só esse mês para se mudar daqui. Ok?

– Ok!

– E outra. Estou de olho no senhor.

– Ok! Tchau.

Dona Elvira desligou. Fechei os olhos e voltei a cochilar quando Carolina se atirou em cima de mim:

– Acorda, nenê dorminhoco, a sua Carolzinha aqui quer um pouco de amor.

Quem pode dar amor para uma pessoa se o amor está desfalecido em algum canto do coração?

Peguei minhas coisas, o resto de vida que eu tinha e fui embora, precisava achar um canto para me esticar. Dois, três dias, nem sei mais quando foi a última vez que dormi. Saí perambulando pelas ruas até encontrar um hotel condizente com meu bolso. Comecei a dormir, mas o barulho das prostitutas gemendo quando fodiam me acordou. Deviam ser onze da manhã, e elas estavam trabalhando. Porra, porra, porra. Dormi mesmo assim.

PS – A família aumentou. Faz dias que não vejo um pombo. Talvez eles saibam quem sou, mas apenas eles. porque eu nem sei mais.

Leia o capítulo 15.

Ilustração: Carolina Antunes

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