Entre cigarros e lágrimas

 

Senti o gosto melancólico das lágrimas escorrendo em ritmo ensaiado até os meus lábios, quando encostei aquela porção de tabaco prensada num papel fino pela terceira vez. Não sentia o sabor do trago úmido porque mesclava a tristeza com a sombra que me tirava para uma dança lenta. As mãos falavam sozinhas, e o ato de escondê-las nos bolsos da calça apenas aumentava os pedidos de ar puro. Joguei o último morteiro na sarjeta, que, com piruetas, espalhou-se no chão e silenciou.

 

Passei a mão esquerda pelo cabelo, feito máquina dos homens do progresso que invade uma floresta. A porta do hospital se abriu. Cruzei a recepção com a cabeça baixa. Chamei o elevador e cruzei os braços até a porta se abrir. Não me olhei no espelho. Forçava os olhos e tossia muito.

 

— Terceiro andar – disse a voz sem emoção.

 

Foi então que entrei num gélido corredor frívolo, sem cor, sem graça, sem fulgor. Coloquei as mãos nos bolsos e caminhei lentamente até a sala de cirurgia. Doutor Peixoto abriu a porta. Seus olhos de lamento caíram sobre mim. O gesto com os lábios anunciava o fim.

 

— Posso entrar, doutor? – questionei.

 

Respondeu sim com a cabeça. Ao me dar espaço para entrar, Doutor Peixoto colocou a mão esquerda no meu ombro. Passei por uma sala com vidro que dava para o centro cirúrgico.

 

Ao colocar a mão numa porta, parei. Dei um passo para trás, desci a cabeça mais uma vez. Será bom vê-lo assim? Sem vida? Não pensei em mais nada. De supetão entrei.

 

Meu coração acelerou. Dos meus ombros senti descer um calafrio. Puxei uma cadeira e sentei, ao lado. Bem devagar. Ao mesmo tempo, entretanto, fazia ruídos bruscos na esperança de acordá-lo. Mas não.

 

Ele estava com o focinho em cima da pata direita. Passei a mão em seu pelo marrom. E comecei a lembrar do meu companheiro de todas as horas, que foi correr e latir num jardim encantado, sentir a pureza, o vento, o sol…

 

Um projetor de manivela surgiu ao meu lado direito. Aquele barulhinho da contagem regressiva me fez recordar os momentos que passamos juntos. Levanto a cabeça e vejo o filme naquela parede branca que ganhara vida.

 

Minhas pernas subiam degrau por degrau depois de um dia cansativo. Abria a porta da sala e sentava no sofá. Logo ouvia suas patas, via suas orelhas caídas vindo em minha direção. Pulava em minhas pernas e tentava escalá-las até meu rosto para lambê-lo. Girava em volta do rabo querendo brincar. Eu sorria.

 

Como se um novo episódio começasse, noites que esquecera você para fora, no relento, e, mesmo assim, seguia-me com olhos brilhantes, que traduziam a tristeza quando voltava para casa bêbado, endiabrado.

 

Apartei com força seu focinho na tentativa de despertá-lo. De nada adiantou. Chorei com robustez. Firmei a perna esquerda e levantei. Corri até uma janela batendo em portas porque era o momento da cisão. Olhei para cima. O céu estava estrelado. Não vai chover, pois minhas lágrimas chateadas de dois dias conseguiram preencher um lago. Adeus, amigo.

 

 

*Heitor Mazzoco é jornalista. Contato: [email protected]

3 comentários para “Entre cigarros e lágrimas”

  1. cicera

    Um projetor de manivela surgiu ao meu lado direito. Aquele barulhinho da contagem regressiva me fez recordar os momentos que passamos juntos. Levanto a cabeça e vejo o filme naquela parede branca que ganhara vida.

  2. cicera

    Minhas pernas subiam degrau por degrau depois de um dia cansativo. Abria a porta da sala e sentava no sofá. Logo ouvia suas patas,tm via suas orelhas caídas vindo em minha direção. Pulava em minhas pernas e tentava escalá-las até meu rosto para lambê-lo. Girava em volta do rabo querendo brincar. Eu sorria.

  3. cicera

    amor sem medida
    Perfeito….. Lindo….. chorei

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