Entre cortes

Misturam-se as sensações. Na madrugada repleta de futuras tensões, elas ganham cores. Sabores. O cão bravo, ao lado, resmunga e mantém sua prontidão. O sono se afasta como o ladrão que vê a impossibilidade de realizar seu intento. De mãos vazias, Maria observa João. O cão, ainda resmungando, abaixa as orelhas. De mãos vazias, Maria vai até a janela. O dia não se anuncia. Lá fora, a luz do poste vacila e cede lugar à escuridão. É escuro, e a mulher pensa que a noite é como a vida. Na cozinha, tudo em ordem. Um gole de água ajuda a voltar para a cama.

Ainda que se esforçasse em acreditar que seria outro dia, uma sombra de dúvida lhe cobrava o sossego. Ao mesmo tempo, a dúvida também cedia frente à certeza fria que determina, dia a dia, o início, o meio e o fim da história. Uma tragédia de Certeza: chegará a manhã e com ela o sol ardido, a paisagem trêmula e ainda umedecida pelo sereno. Os pardais se arriscarão em seus voos, o que intimidará as outras aves. Aqui, não cantarão rouxinóis. O cão, ao lado da cama, agora repousava e Maria aos poucos também adormecia. Sentia o corpo render-se ao sono e pensou no cão ao seu lado: sentia frio?

Maria levantará como de costume, verificará o uniforme do marido, a comida e acordará os meninos. Aqui os tempos não se anunciam. Aqui os tempos duram. A certeza é a de que em todos os dias encontram-se, com algumas variações, as mesmas cenas, os mesmos voos e a mesma paisagem trêmula e mais ou menos umedecida. Não se trata de uma crença qualquer. João também levantará, e sem demorar partirá para o trabalho. Os meninos, após o café, irão para a escola. O cão manterá a prontidão como um tipo guardião, um caçador que vigia e espreita a caça. Durante o dia, enquanto todos permanecem longe, rondará a casa e com olhos atentos vigiará quem passa.

Maria acostumou-se com sua presença. Relutou em aceitá-lo e agora o cão ao seu lado parece acolhê-la. Recebe de bom grado o afago repetitivo, silencioso e rápido. Tudo parece conformar-se, o cão, o trabalho e as sensações. Poderia adaptar-se a qualquer coisa? Não se trata de uma escolha comum.

Nas horas vagas a mulher cantava. Canções que aprendera em outros tempos, com a avó que também cedo saía de casa. Lembrava dos sambas. Das canções de roda. Lembrava das músicas que ainda menina cantava na frente do espelho e pulando pela sala. O pai, aos domingos, tomava a cerveja enquanto a mãe preparava o almoço. No fim do dia, já à noitinha, ia à missa. Lembrava das canções da igreja. Lembrava dos pedidos e de cada gesto do culto. Lembrava de falar com Deus. Apesar da vontade, pouco canta: não tem tempo para nada. Maria, quase adormecida, contém sua emoção. Já não pensava no cão. Pensava no pai, nos filhos e em João adormecido.

Enquanto trabalhava na cozinha da casa de família. Maria assistia outra Maria. A Braga falava sobre a importância do otimismo, da alegria e da vontade de viver. Maria se perguntava a razão por que não sentia isso: onde estava a alegria? Sem motivo, lembrou do cão e dos rouxinóis. Mas nunca vira um rouxinol! Sentia-se culpada. Vai ver o cão, aquela presença sorrateira, lhe tirava o sossego e a calma. Aquele olhar que espreita a gente, que transpassa o corpo. Pode ser que o cão, de alguma maneira, tire a beleza do gesto certo. A distância para a felicidade é de um gesto.

Deveria aprender! Sobretudo, deveria aprender a olhar para o mundo com o amor que a Braga, sorrindo e bebericando, falava ser possível. Na tevê também havia um cão. Não era resmungão e bravo. Era branco, com ar de cordialidade e ternura. Maria pensava se aquele cão em sua casa também se inquietava. Entre escolher o feijão e a louça lavada, Maria sentia-se estranha. Talvez fosse sua saúde. Na semana que vem vou no postinho, pensou a mulher, vou marcar a consulta no médico sem falta. Não entendia como sem aviso chegara um mal-estar que agora insistia em não abandoná-la.

Maria conseguiu a consulta. Houve certa demora e precisou acordar ainda mais cedo para conseguir a senha que possibilitava agendá-la. Na recepção, com pressa, a atendente perguntou seu nome, data de nascimento e outras informações que Maria um pouco nervosa respondeu. Não estava acostumada a tantas perguntas. A consulta não demoraria. O que fez Maria pensar no quanto foi recompensado seu esforço. Chegaria atrasada ao trabalho, mas a senhora da família já sabia e tinha concedido a Maria chegar atrasada, desde que compensasse as horas não trabalhadas.

Entrou na sala. A porta permaneceu aberta. Uma voz baixa disse para se sentar e, sem pausa, perguntou o que aconteceu. Maria lembrou do cão. Deveria trazê-lo, o homem poderia ver se tem algo errado com ele, com aqueles olhos. A voz insistiu, agora com um pouco mais de potência: o que aconteceu? Maria não sabia dizer. Por onde começar? Poderia falar sobre o programa e sobre a felicidade, ou então do mal-estar. Conseguiu apenas dizer que se sentia estranha. Assim, sem precisão, descrição ou história. A voz, já demonstrando impaciência, perguntou-lhe como estava e Maria, educadamente, disse que estava bem. Não sentia nada. A voz calou-se. Maria ouvia o som do atrito entre a caneta e o papel. No fim, um estampido e um pouco mais de atrito. Levantou-se. Maria agora só pensava nas horas que deveria compensar. Não entendeu a letra no papel. Mas sabia que algo deveria tomar. Decidiria depois se tomaria ou não. Desconfiava de quem não olhava nos olhos enquanto falava.

João acordou os meninos, deu-lhes café e todos saíram juntos. João pensava sobre como estava Maria. Preocupava-se. Mas agora, após deixar os meninos na porta da escola, só pensava em chegar ao trabalho, não se atrasar. João trabalhava de segunda a sexta-feira. Entrava no trabalho às sete e chegava em casa por volta das dezoito. Fazia uma hora de almoço. Tempo suficiente para pagar algumas contas, cuidar da saúde, ler o jornal, conversar ao telefone, entre outras coisas cotidianas.

 

Imagem: Ultradownloads

2 comentários para “Entre cortes”

  1. Isabel Cristina Lourençoni Nobile

    Parabéns, querido! Surpresa agradável deparar com um texto que fala da vida simples, do cotidiano, de nós de uma forma tão delicada, afetuosa.
    Abraço

  2. Fernanda

    Muito bom!!!! Ja pode ser escritor.!!!

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