Entre gravatas vermelhas e uma opinião

 

 

 

Mais um dia começa. E o meu pessoal começa a chegar. Limpa. Cozinha. Arruma. Na cozinha o radinho de pilha está sempre ligado em alguma estação AM. Ouço notícias. Desgraças. Histórias. Previsão do tempo.

 

Logo chegam meus primeiros clientes. Dois amigos. Dignamente arrumados. Terno preto. Gravata vermelha. Cabelo engomado. Sapato envernizado. Suspeito que seja algum tipo de uniforme.

 

Todos os dias, às 8 horas em ponto, eles se sentam junto de uma mesa quadrada. Sempre a mesma. Como num balé, colocam as pastas brilhantes na cadeira vazia. Abrem as pastas. Retiram os celulares. Checam notícias. E-mails. Redes sociais. E, finalmente, colocam os aparelhos sobre a mesa. Já disse em outras oportunidades que não gosto destes aparelhinhos. Me incomodam. Vibram. São chatos.

 

O rapaz mais magro estende a mão para o alto. Estala os dedos e o garçom já sabe o que eles desejam. Um café, um suco de laranja e dois pães com manteiga na chapa. Enquanto me arrumo na bandeja, ainda sonolento e preguiçoso, os dois iniciam uma tímida conversa. Insossa e sem graça. O chamado papo de elevador.

 

Invariavelmente, o primeiro tema abordado é o tempo. Por incrível que pareça, o rapaz mais rechonchudo sempre reclama: “Nossa, hoje tá muito quente” ou “Credo, que frio é esse?” ou ainda “Esse tempo ameno? Não se sabe se está frio ou calor, não gosto”.

 

O magrinho apenas ouve. Concorda com tudo. O próximo assunto é o café. Sim, eu mesmo. Tem gente muito cara de pau. E o gordinho é um desses, sempre reclamando de mim: “Está me queimando de tão quente”, “Mas o que é isso? Veio gelado”, “Pouco leite”, “Muito leite”. E por aí vai.

 

— O pão está bom? — pergunta o nosso esguio e calado amigo.

— Sim. Podia ter mais manteiga. Está um pouco seco. Mas dá pra comer.

— Hum… Que bom — responde o outro virando um pouco os olhos e soltando um discretíssimo suspiro.

 

Por último há sempre uma piada sem graça. Da qual o magrinho ri muito e faz o gorduchinho acreditar que é bom em anedotas. Nesse dia o mais silencioso dos dois resolve falar:

 

— Nossa, Renato, estou tão cansado, hoje. Acho que dormi mal. Sabe quando você já acorda cansado? Vai ser um dia daqueles, nem começou e eu já quero que termine.

— Credo, Álvaro! Vai procurar um psicólogo, cara! Você reclama demais! Não dá pra apenas agradecer o trabalho que tem? Eu, hem?

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