Entre ladeiras: um fim possível

As ladeiras do morro, cheias de alegria, as mesmas que antes descia sem sentir, são as subidas cansadas que Maria, já quase à noitinha, precisa subir.

O dia não termina, a noite ainda tímida ensaia chegar e Maria, a neta de Maria, lembra da avó, das fotografias, dos objetos que dão vida à memória da família: será, ainda insistia, a mesma história? Maria se perguntava: teria sua família a sina de servir, cansar, subir, descer? Teriam os filhos o mesmo caminho?

João esqueceu o nome, o trabalho, mas talvez não esquecesse os filhos. Os meninos precisam do pai. João não voltou, não volta mais. Não enlouqueceu, Maria pensava. Talvez agora seja o mesmo menino que vagava descalço no morro atrás do pai que, também descalço, carregava embriagado areia, cimento e cascalho. Maria sentia a falta do marido sumido. No entanto, era ela e os meninos. O cão permanecia sempre quieto, rangendo enquanto dormia, próximo agora à mão de Maria.

O cão talvez sentisse a falta do homem. João o alimentava, o levava para a rua e o deixava perto da cama. O cão, repetia sempre com ar de contentamento, é para nossa proteção, Maria. A mulher não via o animal assim, apesar de vez ou outra o cão irritar-se e ameaçar uma mordida. João também esqueceu o animal, que agora elegia Maria como espaço de afago e proximidade. A mão que pendia, e que o cão olhava e se aproximava, era a de Maria.

O sonho da Maria avó era ver a neta ser um dia a doutora da família. Mas as Marias, ambas sabiam as imprudências de sonhar. Maria agora pensava nos filhos. Era assunto que João sempre tentou evitar. Muito mais por temor e incômodo, do que por não se importar. Maria torcia pelos meninos, por João, que esquecido tomou o mundo. Imaginava que a alegria de ver os filhos crescidos e com trabalho animariam as lembranças da avó e da mãe, também do marido.

Maria já não se lembrava das horas que trabalhava na cozinha. Em casa, o trabalho se prolongava, pois, mesmo cansada, precisava cozinhar para os filhos. Antes também tinha o marido que quando chegava corria às panelas.

Depois que o esquecido perdeu-se no mundo, tinha menos pressa. Há alguns anos, Maria estaria aflita. Mulher sozinha e com filhos é puta. Mulher separada! Pensava em quantas mulheres não permaneceram infelizes e casadas por esta sentença. Os anos com João não foram ruins, também não foram mais que bons. Foram anos juntos, mornos, no ritmo de uma vida simples. Precisava de mais?

O fim do casamento trouxe algumas surpresas e mudanças. Percebia-se forte. Como foi sua avó, sua mãe. Como foi Dandara e tantas outras. Era forte, percebia-se assim. Essa sensação inundava o coração e quase tudo se tornava possível. Não era mais a Maria desesperada que meses atrás chorava e falava em voz alta “ele tem que voltar”. Não voltou, não voltará.

Agora, a tensão era denunciada pelo rangido do cão. Era o destino, a sina, que testava a fortaleza de uma mulher que insistia em tornar possível a vida. Era a ideia de que a vida pode ser mais que lavar e limpar em contraposição a uma vida que é formatada para lavar e limpar. Que será isso, Maria?

A sua casa de alvenaria dava-lhe maior proteção. Até quando ouvia os estampidos dos tiros nas ruas de baixo. Os meninos, filhos da rua, despencando pelas ribanceiras ou se atirando no rio, preocupavam-na. Isso não é vida de menino. Meninos e meninas precisam brincar. Agora, sem João, Maria pensava que seria o pai e a mãe. Um corpo só com duas funções. Homem, Maria pensava, não quero, não.

Nunca tinha ouvido falar de Carolina Maria, mais uma. Outro dia leu em uma de suas horas vagas uma frase da mulher: “Vesti as crianças e eles foram para a escola. Eu fui catar papel”. Maria também vestia os meninos e eles iam para a escola, enquanto ela ia para uma casa qualquer. Passar, lavar, cozinhar. Tarefas diárias de uma Maria que também tem casa e crianças para sustentar. É a vida de todo mundo. Todo mundo precisa trabalhar.

Não que isso, o trabalho excessivo, as horas maldormidas e na madrugada os latidos e o rangido do cão e da polícia não fossem a figura de mal-estar. Ouvia falar sobre depressão, e continuava sem tomar o remédio que o médico do posto, sem a olhar, receitou. Tudo isso vai passar, ele disse. Maria, desconfiada, perguntava se seria uma doutora assim. E se o cansaço, a pobreza, os meninos da rua despencando a ribanceira passariam com o remédio. Como tratar de um povo que se desconhece? Não é daqui! Nada sabe sobre mim, afirmava: mulher, sozinha, trabalhadora, mãe, filha de outra Maria e de um pai João.

O que seria de João, o marido? O que seria dos meninos? O que seria de Maria? O que percebia, ao olhar para os lados, eram homens e mulheres que trabalhavam incansáveis e persistentes, cheios de vontade e inteligência e que, com algumas exceções, dedicam-se à vigilância, à limpeza, à casa de família, ao trabalho no porto e ao depósito do mercado. Existem algumas variações. E Maria continuava a pensar que, como pai-mãe, esperava para os filhos destino outro que serem João. Pensava que se um dia se tivesse neta, estas não seriam Marias. Chega desta sina.

Dandara, Carolina, Emma, Elza, Nina, Frida… mas não Maria.

 

Foto: Carolina Maria de Jesus (1914-1977), autora do livro “Quarto de despejo” (1960), em que narra, como num diário, o dia a dia de quem vive numa favela.

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