Entre o sim e o não!

 

Passara a noite em claro. Não sabia se tinha feito a coisa certa.

Há um mês seu cunhado tinha lançado a proposta. Aquilo poderia mudar sua vida.

Dez por cento do dinheiro roubado seria dele, para isso só precisava passar a rotina do banco e na hora certa dar uma de vacilão, como se não soubesse de nada.

Pensou bastante. Havia ponto negativo? Sim, claro, se desse errado, haveria ponto negativo pro resto da vida. Mas, dando certo, o ponto positivo seria mais que positivo. Sairia daquele quartinho em que vivia de favor há sete anos, com sua esposa e seus três filhos. Ela e as crianças dormem na cama e ele mal dorme numa rede pendurada acima de sua família. Os móveis, quase todos ganhos ou comprados na loja de usados, mal cabem naquele cômodo com cheiro de mofo. Barata ali já faz parte da mobília. O menino mais novo nem se incomoda com elas. Usa-as como brinquedo.

Luciano tem muitos amigos e parentes que querem visitá-lo, mas ele sempre adia o convite: “Qualquer hora eu levo vocês para um almoço lá em casa”. E esse dia nunca chega.

Agora poderia chegar. Se o assalto der certo, aí vai convidar o pessoal para um churrasco na casa nova.

Ele ainda não sabe, mas o roubo pode render até trezentos mil reais.

Aceitou entrar no esquema.

Trabalha numa agência do maior banco existente no país. Ali, é segurança há mais de três anos. Por isso conhece tudo e todos.

Passou duas semanas seguidas preparando o croqui da rotina da agência. Era metódico no que fazia e fazia benfeito. Tanto que, quando a quadrilha de seu cunhado pegou as informações, ficou toda em polvorosa. Aumentou de dez para quinze por cento a parte de Luciano. Pois ali constava o que precisavam e mais um pouco. Até a hora exata de cada funcionário almoçar e os nomes dos clientes mais ricos da agência estavam naquelas folhas.

Tudo estava acertado e sob controle. Mas ele não conseguiu nem sequer cochilar na noite que antecedeu a execução do plano. Sentiu coisas estranhas, uma ansiedade seguida de frio na barriga. A orelha ficou quente o tempo todo. Parece que teve alguns instantes de alucinação e chegou a ouvir na madrugada gritos e cachorros latindo. O pior de tudo é que o silêncio após os latidos foi ensurdecedor. Não ouvia nada, nem mesmo a respiração da sua família amontoada naquela cama sustentada por blocos.

O coração só acalmou lá pelas seis da manhã, quando sua esposa levantou. Ela trabalha numa pequena garagem com mais quatro amigas, costurando roupas para uma senhora que atende encomendas de algumas marcas.

Após se trocar e tomar um café sem pão, ela sai deixando as duas crianças mais velhas na escola do bairro.

Luciano levanta e prepara o menino mais novo para levá-lo à pré-escola. Na porta da escolinha respira fundo, depois de deixar seu filho para mais um dia de recreação infantil. Promete para si mesmo que, se tudo correr bem, fará das pessoas da sua família as mais felizes do mundo.

Antes de iniciar a caminhada de cinquenta minutos, que faz todos os dias para chegar ao trabalho, decide passar na porta de uma igreja e pedir para que tudo dê certo. O desespero era tanto que, em cada igreja que passava, renovava o pedido. Apesar de ser católico, não importava se a igreja era ou não do seu credo. Se passasse em frente a um terreiro, também faria o pedido. O importante era que o assalto desse certo, não importava de onde viesse a ajuda.

Dizia consigo que aquilo não era pecado, e que se fosse, Deus o perdoaria, pois todos esses anos em que fora funcionário daquele banco nunca ganhara uma promoção, nem sequer um elogio, eram só ordens daqui e dali. Todos, com exceção da faxineira, davam ordens a ele. Inclusive teve que escoltar até o carro alguns clientes que tinham contas recheadas naquele banco. E mal recebia um obrigado. Então, mais do que justo aquilo em que estava metido. Era uma espécie de indenização.

Não queria passar o resto da vida protegendo o dinheiro alheio e ganhando uma mixaria para isso. Ah, claro, ainda tinha a cesta básica e o vale-transporte, que ele vendia no terminal de ônibus para comprar a mistura da marmita.

Trabalhava sem colete, sempre trabalhou. Seus superiores diziam que este instrumento não fazia parte do seu dia a dia; num possível assalto, que Luciano tentasse impedir de alguma maneira, mas sem reagir.

Todos esses pensamentos passavam em sua cabeça enquanto caminhava rumo ao trabalho. E, quando passou em frente ao presídio da Teotônio Cardoso, sentiu um frio na espinha que até doeu. Parou e fez um breve alongamento.

Algo fora do planejado iria acontecer nesse assalto, ele só não sabia o quê.

Chegou à agência e fez o de sempre: trocou de roupa e tomou café com o segurança noturno. Após dispensá-lo, correu para a sala de filmagem e jogou água no sistema das câmeras, que logo começou a falhar.

Foi para o seu posto de trabalho, na porta, para controlar a entrada dos funcionários que às nove começavam a chegar, e entre esses, chegavam outros seguranças.

Às dez da manhã, depois de todos os caixas estarem funcionando normalmente, a agência abriu suas portas.

O gerente, que naquele dia chegou mais cedo, chamou um dos seguranças na sala de filmagens para verificar o que havia de errado com as câmeras.

Luciano tentava manter a calma, mas mesmo em meio ao ar-condicionado, estava suando discretamente.

O assalto estava marcado para as onze. Pensou em ligar e avisar a quadrilha que algo tinha dado errado e que cancelasse a ação, mas reconheceu dois integrantes, que já estavam na fila para entrar.

Queria tomar um copo d’água, seu coração batia aceleradamente, num ritmo de “ou tudo ou nada, ou tudo ou nada”.

Estava com a resposta no bolso da calça, um aparelho pequeno, com um botão ao centro, que podia travar ou destravar a porta.

Quando o primeiro foi passar, a porta travou. Enquanto o assaltante abria a mochila numa interpretação, Luciano tinha as axilas pingando suor. Toda a sua situação econômica passou pela cabeça rapidamente.

Vale a pena trocar o certo pelo duvidoso?

O certo seria continuar naquela vida miserável, com sua sogra olhando para ele e vendo um mero inquilino que não paga aluguel, um impotente que só serve para fazer filho. O mais certo ainda era continuar dependendo de vereadores com suas promessas eleitoreiras e suas falas de “volta outro dia”. Ou de ficar participando dos mutirões da casa própria e nunca ser o sorteado.

O duvidoso seria o assalto ter um fim feliz ou triste. Se desse certo, ele iria comprar sua casa simples, de quatro cômodos, e dar uma vida melhor para os seus.

Dando errado, ele poderia ser descoberto e perder o emprego, ir preso ou até morrer.

Vale a pena, Luciano Mello da Silva?

“Vale.” Disse consigo mesmo, liberando a porta para o assaltante, que já estava impaciente.

Depois dele, todos os clientes foram entrando sem problemas, inclusive os outros integrantes da quadrilha.

A agência tinha dois andares e, enquanto três assaltantes dominavam clientes e seguranças do andar de cima, outro ficou na escada controlando a passagem.

Na parte superior tudo correu bem. O assalto estava conforme o combinado, não fosse o cunhado de Luciano, a ação passaria sem nenhum disparo. É que na saída o desgraçado atirou no segurança que guardava a porta. Luciano caiu com um grito que ecoou por toda a agência.

Clientes e funcionários que estavam na parte de baixo se apavoraram. O carro usado para a fuga da quadrilha se afastava do local em alta velocidade. Só quando estavam fora do perigo de serem perseguidos é que comemoraram o sucesso da empreita. O chefe da quadrilha era elogiado pelo tiro certeiro. Haviam acordado entre eles que um disparo no segurança cortaria qualquer suspeita contra sua pessoa.

Luciano passou dois dias no hospital. Lá ficou sabendo, através de uma ligação, o objetivo do disparo. Depois disso se acalmou, pois como não haviam combinado nada com ele, achara que o tiro fora para matá-lo e deixá-lo fora da partilha.

Para ter de volta os movimentos do braço, teve de se submeter a três meses de fisioterapia e tomar muito antibiótico. Mas isso não foi nada perto do que conseguiu, pois, além de ganhar sua porcentagem, adquiriu sem muito esforço uma aposentadoria equivalente a três vezes o valor de seu salário, por conta do acidente ocorrido no ambiente de trabalho.

Enquanto muitos migram do Nordeste para São Paulo, ele fez diferente. Comprou uma casa e mais um lote de terra em Ibirataia, interior da Bahia, e fugiu da capital paulistana.

Agora trabalha em sua terra plantando, colhendo e criando galinha, levando as crianças para a escola e cuidando bem de sua esposa. Agradece a Deus todos os dias e vive convidando seus amigos e parentes para comer em sua casa ou, quem sabe, passar umas férias por lá.

Leia mais de Sacolinha no blog do escritor: www.sacolagraduado.blogspot.com

 

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