Envelhecer (a arte de ser mais um)

Envelhecer é descobrir-se.

Envelhecer é olhar as mesmas coisas sob outras perspectivas.

Envelhecer não é amadurecer. Jovens que sequer possuem pelos pubianos podem ser mais maduros do que tipos grisalhos e vividos. Envelhecer é entender seus defeitos e não transformá-los em muletas para o resto da caminhada. É descobrir que as suas qualidades não te fazem tão “fodão” quanto você pensava ser, tempos atrás.

Envelhecer é aceitar que os seus sonhos de criança não deram certo, e que, para que se tenha motivações saudáveis para continuar a caminhar, você precisará rever seus próprios conceitos.

Envelhecer é observar a vida de outra forma.
É desacelerar, mesmo inerte.
Pensar antes de falar.

Envelhecer é descobrir que ser executivo de contas é bem mais fácil do que ser astronauta. Que ter filhos é mais complicado do que viajar o mundo com uma mochila nas costas. Que encontrar o amor é tão difícil quanto achar o pote de ouro no final dos arco-íris. Que dinheiro é importante, sim. Que você não vai amar a mulher da sua vida todo dia. E que, às vezes, você vai ser apenas uma peça no quebra-cabeça da vida de outra pessoa.

Envelhecer é aprender a bancar suas escolhas, independente se elas preencham seu coração. Envelhecer é pegar a fila errada e ir até o final, para não incomodar ninguém. Envelhecer é endurecer. É rir da geração de “wannabes” atuais, todos preocupados em ser algo, que sofrerão de feridas narcísicas profundas e tentarão, de todas as formas, frear os próprios envelhecimentos.

Envelhecer é perceber que aquele filme experimental que você descobriu e achava legal pode ser realmente uma chatice. Que aquela banda criativa que você comprou todos os discos pode ser apenas barulho. Envelhecer é entender que ninguém vai gostar das suas coisas. Nem mesmo você, depois de um tempo. É descobrir-se menos onipotente do que realmente se achava e adorar isso. Envelhecer é ter prazer com as pequenas coisas reais, não aquelas que tentaram te vender como sendo pequenas.

Envelhecer é entender que viajar é perda de tempo, mas que, de vez em quando, precisará pegar um avião e sumir pelo mundo. Envelhecer é descobrir-se contraditório e não ligar para as incongruências. É poder ser qualquer coisa sem precisar classificar-se em modismos e disputas polarizadas. É observar certas preocupações contemporâneas e tirar sarro do vazio delas e das pessoas que se angustiam por elas.

Envelhecer é se apaixonar por uma pessoa que possui todas as qualidades que você procura e todos os estereótipos que você odeia. É reduzir as exigências e exercitar sua própria tolerância perante o mundo. Envelhecer é aceitar que a perfeição é impossível e que seus sonhos coloridos são, na verdade, confeitos de açúcar envernizados com corantes para esconder os calmos tons de cinza de sua realidade.

Envelhecer é desaprender a discutir pelo que não vale a pena. É conseguir escolher quais angustias você quer sentir. É entender que se desesperar por aquilo que não se pode controlar é de uma inutilidade sem tamanho. É descobrir porque os pobres são mais felizes que os ricos e porque a tal da classe média é tão complexada e vítima de suas próprias aspirações. É falar muito, mas não precisar falar tudo.

Envelhecer é criar casca.

Envelhecer é contemplar a vida em sua mais pura essência. É aceitar que certas coisas não deram certo (nem nunca dariam) mesmo e seguir em frente. É reposicionar sua noção de felicidade, e aceitar que dias bons são tão normais quanto dias ruins. É não dramatizar mais as coisas ruins, porque, às vezes, ruim é a melhor opção. Envelhecer é entender, na prática, que as coisas poderiam ter sido muito piores.

Envelhecer é melancolicamente maravilhoso.

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