Especial Carandiru: Usucapião

 

O governador não atendeu à sua carta. Por isso estava revoltado. Os companheiros tentavam apaziguar a histeria do velho, mas Vovô Néco gritava com voz inflamada:

— Como assim, meus camaradas, estou aqui há duas décadas e meia, e muitos de vocês já passaram de dez anos de reclusão, somente aqui nessa casa. Então, é de direito. Não se acomodem!

Apesar dos argumentos verdadeiros, todos os que ouviam Vovô Néco sabiam que aquilo era impossível. No mínimo, mais uma loucura havia passado pela cabeça do ancião.

Vovô Néco estava com 43 anos quando foi condenado a 40 anos de prisão. Já cumpriu 29. Desses, 25 anos foram só na Casa de Detenção do Carandiru.

Como o alvo do seu crime foi sua mulher e seus dois filhos, acabou ficando sem ninguém para visitá-lo. Com o passar dos anos, Vovô Néco se apoderou da cadeia, tal como se fosse o seu lar, doce lar. Não era perigoso nem tinha fama de líder. Mas é que precisava se sentir alguém. Odiava vegetar, vivendo feito um bicho doméstico, aguardando a ração diária sem ter obrigação ou mesmo função alguma.

Ali viu entrarem, morrerem e saírem detentos, entrarem e saírem chefes, delegados e carcereiros. E ele, sempre ficando por lá, como um morador que não arreda o pé.

Um dia se levantou disposto a tomar todas as responsabilidades de homem da casa.

Os outros presos nem ligaram para as atitudes do velho, que eram inofensivas e até traziam benfeitorias para o local. Tipo uma pintura de paredes, a demarcação da quadra, a limpeza diária, o empréstimo dos livros e revistas, entre outros.

E Vovô Néco voltou a viver.

Só que, agora, depois da virada do século, muita profecia andou se cumprindo. E corre pelos corredores de todos os pavilhões a notícia de que finalmente o governo vai implodir toda a Casa de Detenção para a construção de um parque e de uma biblioteca.

— Que nada! Eles pensam que me enganam. Vão é vender o terreno aos megaempresários para a construções de apartamentos. Imaginem a fortuna que não vale isso aqui? Pertinho do metrô e do centro da cidade. Imaginem, camaradas!

Então escreveu uma carta, como tantas outras que escreveu com pedidos de tintas, livros, vasos, plantas e utensílios de que toda casa necessita. Só que essa carta era endereçada ao Palácio dos Bandeirantes, em nome do Excelentíssimo Governador do Estado de São Paulo.

O pedido era de reintegração de posse ao contrário, mesmo que os moradores ainda não tivessem sido expulsos. Em certo momento a carta dizia: “Reintegração de posse, sim, meu caro Governador, que aqui ninguém é bobo. Esse lugar nos pertence de direito. Conhecemos a lei e ela está do nosso lado, pois já somos donos por usucapião…”.

E seguia o recado, cheio de argumentos que deixaram os assessores do Governador perplexos, ao mesmo tempo em que gargalhavam à custa do desespero de Vovô Néco.

Nos últimos dias ele assistiu à transferência de vários companheiros do seu pavilhão, o que confirmava a disposição do poder público de cumprir com o objetivo. Depois uma angústia cortou-lhe de tal forma, que mais parecia um golpe de cabo de enxada na cabeça. É que ele descobriu que o seu pavilhão era o único ainda ocupado, todos os outros já tinham sido esvaziados. Consigo restavam mais 73 internos. Esses nem estavam tão preocupados com as transferências. Queriam saber se ficariam mais próximos de suas esposas, mães e irmãs, que sempre trazem um conforto, além de cigarros, roupas, produtos de higiene e uns docinhos de vez em quando. Até achavam legal sair daquela imundície que se tornou a Casa de Detenção, inclusive com gritos horrendos durante a madrugada que ninguém sabia de onde vinham. Há quem acredite que são pedidos de socorro das almas que perderam seus corpos no dia do famoso massacre de outubro de 1992. Quantas missas, cultos evangélicos e giras de umbanda Vovô Néco não encomendou, com o objetivo de libertar essas almas da prisão?

Mas nunca diminuiu esse filme de terror. Muitos se acostumaram a dormir nesse escarcéu, já outros perderam várias vezes o sono, com o coração acelerado e a boca seca do medo de morrer ali e se tornar uma dessas almas penadas.

Mesmo com tudo isso, esse lugar era o lar de Vovô Néco. Não abria mão. Só sairia dali morto. Foi o que prometeu aos companheiros de cela. Tanto que, na noite anterior, à última transferência de presos, resolveu bolar a sua estratégia. Enquanto os carcereiros viriam na sede para jogá-lo no caminhão de transferência, chamando-o de velho gagá, ele daria um olé e subiria no último andar com destino à laje. Lá ameaçaria se jogar, caso insistissem em tirá-lo da casa. Não presenciou corpos e cabeças sendo atirados lá do alto?

Então, agora seria a vez dele. Dessa forma chamaria a atenção do mundo todo, para mostrar um novo massacre, só que de um homem só, do qual massacravam a sua dignidade. Aí, quando toda a atenção da imprensa e da sociedade estivesse voltada para ele naquele presídio, daria o seu recado e se lançaria ao ar, como um pássaro encarcerado que sempre foi impedido de voar, desde que nasceu.

Morreria em sua casa. Quem sabe sua alma não ficaria por ali, a vagar com as outras, e ficar circulando entre os moradores dos apartamentos que seriam construídos naquele local?

E Vovô Néco dormiu muito bem. Até se espantou quando, pela manhã, abriu os olhos e viu aquela claridão.

— Meu Deus, como eu dormi. Mas que horas são?

Eram oito horas. Aos poucos seus ouvidos foram entendendo o falatório dos presos que falavam entre as celas. Eles lembravam histórias passadas ali, como numa despedida do lugar. Vez ou outra um gritava:

— Adeus, Carandiru. Dessa vez a minha promessa de nunca mais voltar pra cá vai se cumprir.

O velho sentiu uma dor no estômago. Pois é, o dia chegara. O pão murcho com manteiga não desceu. Só mesmo o café, que caiu como um remédio.

Por volta das onze começou a movimentação para a última transferência. O barulho dos motores dos caminhões entrando na triagem era como uma faca a penetrar no ouvido de Vovô Néco. Agora precisava pôr o plano em prática.

Foi então que, ao abrirem o portão da sua ala, ele ouviu o diretor dizendo aos outros funcionários:

— Tem que ser rápido, se a imprensa souber dessa nossa festinha, tá todo mundo fodido.

Vovô Néco tremeu. Não bastasse o despejo, os safados ainda vinham bater dando coronhadas e pontapés. Isso era demais.

Qual não foi a sua surpresa quando viu entrar na ala um bolo, uns pratos de salgados, uns refrigerantes e três garrafas de vinho?

O diretor viu o velho na metade da escada e chamou:

— Ô, Seu Néco, sei das diferenças de nossas posições, mas não dá pra ignorar a convivência de tantos anos. Vem cá, seu lelé da cuca.

E houve uma pequena festa de despedida, entre cinco funcionários e alguns presos.

Vovô Néco até esqueceu do seu plano, de tão emocionado que ficou. Seu coração, que já tinha virado pedra, voltou a amolecer. Chorou tanto que parecia uma criança.

As lágrimas do velho foram tão verdadeiras e cheias de calor humano, que deram a verdadeira redenção para as almas do lugar. Nesse último dia foi sentido um vento carregado de coisas estranhas a redemoinhar no meio daquelas pessoas presentes na festinha.

Agora, sim, a Casa de Detenção do Carandiru podia ser demolida.

*Sacolinha é escritor. Publicou Graduado em Marginalidade (romance), 85 Letras e um Disparo (contos), Estação Terminal (romance), Peripécias de Minha Infância (romance infantojuvenil) e Manteiga de Cacau (contos). Participa do projeto “Uma janela para o mundo – Leitura nas Prisões”, da Unesco e do Ministério da Justiça, nas penitenciárias de segurança máxima. Leia mais do autor em www.sacolagraduado.blogspot.com.

Veja também:
Especial Carandiru: Recordação da casa dos vivos (e dos mortos), um ensaio fotográfico de Biga Pessoa.


Especial Carandiru: Vida e morte de um presídio, uma retrospectiva da Casa de Detenção.

 

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