Esse homem

Tínhamos 9 ou 10 anos quando ele veio pela primeira vez. Foi em alguma rua movimentada, ou uma loja qualquer, não lembro direito, mas nossa mãe estava distraída contando dinheiro. Apareceu como um bom homem, disse que era nosso pai e que sentia muita a nossa falta. Quando nossa mãe percebeu, o enxotou aos berros, chamando por socorro e o ameaçando acertá-lo com a bolsa enquanto as moedas escorriam com o balanço da bolsa de zíper aberto.

Nunca o conhecemos, o assunto sempre foi um tabu. Quando perguntávamos, mamãe respondia que nunca tivemos pai, nascemos de uma bênção divina. Então quem era aquele homem? Nunca esqueci o rosto dele, ou seu modo estranho de se vestir, tão estranho que eu não consigo descrever. Só o vi se distanciando com um esboço de sorriso no rosto, os berros da mãe nem pareciam assustá-lo, nem parecia estar ao menos ouvindo.

Eu e meu irmão ficamos com aquela cena na cabeça por muito tempo, alguma coisa tinha marcado. Ele acabou esquecendo, ou adotou o voto de silêncio da casa, mas dando um voto de menos importância a história contando de forma mais humorada e corriqueira para quem quisesse escutar. Eu achava, de certa forma, desrespeitoso, porque, pra mim, aquilo foi algo único! E vê-lo satirizando o que ocorreu em churrascos de família, ou coisa assim, doía.

Nunca contei para ninguém antes, mas sonhei com esse homem diversas vezes, cheguei a adoecer tentando buscar alguma resposta. A religião da nossa mãe a impedia de dar respostas mais concisas além de “Vocês são filhos santos e puros!”, “São o milagre em carne e osso!”, sempre que perguntávamos de um pai em nossa vida, ou ela se fazia de surda e dissimulada, ou falava que era Deus Todo Poderoso! “Mas, e aquele homem?”, “Não acredite em falsos profetas!”, respondia com raiva e um bofete no meio da minha nuca.

Fiquei mais velho, os sonhos persistiram com certa frequência e toda vez que ele aparecia era sempre de forma distante e sorria para mim, mas sempre acordava melancólico quando acontecia. Então, fui atrás de respostas, me consultei com psicólogos e eles disseram que posso estar querendo acreditar em uma realidade que não condiz exatamente com o que é real, ou seja, a falta de um pai me fez apegar na primeira e mais concreta possível figura paterna. Mas esse homem aparece em meus sonhos, do mesmo jeito, com as mesmas roupas. Tinha que significar algo! Meu irmão disse que nunca sonhou, ou não lembrava de sonhar com ele. “Sonhos são coisas sem sentido. Para com isso, que isso só vai te atrasar a vida”.

Uma noite, sonhei que ele me fala em cinco números bons, parecia sussurrar ao longe e fazia muito esforço observando os lábios dele se moverem. Não pude resistir em ouvir o “falso profeta” e acordei anotando-os antes que se fossem da minha memória para sempre. Corri até a lotérica e fiz uma fezinha na hora de folga do meu serviço, óbvio! Ganhei cem reais! não havia acertado todos, mas os que errei eram de alguma forma parecidos com os que tinha apostado, em vez de 6 era 5, era 8 e não 3 e por aí vai. Não foi nem o prêmio de cem reais que me animou, alguma coisa aconteceu além de minha compreensão. Com certeza, esse homem entrou em contato comigo e me falou os números certos, mas não tive capacidade de anotá-los corretamente. Sendo assim, eu tenho um pai! Concluí.

Saí do trabalho e corri para o meu irmão, que novamente veio frustrante contra minha visão me fazendo cair na real, era o meu irmão mais velho e tinha de ouvi-lo. Regras da casa.

Me sentindo um imbecil de 42 anos, não podia crer que toda aquela experiência e confesso que um tanto de esperança também, tenha sido em vão. Tenho certeza que alguma coisa aconteceu. Minha esposa não compreende, mas se resume a um “Hum… que estranho!”, me abraça e beija na bochecha. Ela é adorável por evitar de falar que acha que estou pirando.

Poderia ir até minha mãe e prensá-la contra a parede até me falar o que houve, sinto vontade disso. É meu direito saber da verdade, ao menos confirmar que é verdade! Mas, não posso maltratá-la dessa forma, foi uma boa mãe e hoje é uma senhora de 76 anos que precisa de cuidados. Não poderia ser cruel a esse ponto.

Agora estou sentado, aqui do lado de fora de casa, torcendo para que esse homem apareça. Para que ele revele minha identidade, mas nenhum sinal de vida. Só algumas crianças brincando na rua. Minha mulher me mandou entrar, já está anoitecendo e esfriando. Caridosa e amável como sempre, me preparou uma sopa quente, disse que estava com uma cara horrível e culpou a friagem que havia tomado na rua de graça.

Pouco antes de me deitar eu pude sentir sua  presença, não era preciso olhar pela janela, mesmo se olhasse, provavelmente ele estaria escondido em algum lugar me observando. Podia sentir…

Abracei minha esposa bem apertado, a beijei com todo meu amor, pois sabia que meu pai estava lá fora, e adormeci.

— Filho… Oi meu filho! Faz um bom tempo, não? — disse o homem em meus sonhos sorridente e caminhando lentamente em minha direção, como se o tempo não existisse.

— Pai! — corri feito uma criança e o abracei com força.

— Calma… Estou aqui agora. Sei de tudo o que você passou, acompanhei de longe, mas agora poderemos ficar juntos. Me desculpe não ter aparecido antes…

— Tudo bem! desde que fiquemos juntos, eu sempre soube que você era o meu pai. Sempre! O mano, vem conosco também?

— Ele não está pronto, como você está. — se afastou um pouco e me olhou nos olhos — É isso mesmo que você quer?

— Sim! — respondi sem pensar duas vezes.

Senti um aperto no peito, pensei que fosse tristeza pelo meu irmão, mas o aperto foi ficando cada vez mais incômodo, botei a mão sobre para tentar aliviar a dor, mas já estava caindo. Estava agachado quando o ouvi sussurrar “Calma que já vai passar”, assim que ouvi, passou! Me levantei, vi meu pai do lado, e segui caminho com ele.

 

Imagem: nayannaamaral.files.wordpress.com

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