Estranhezas e normalidades

 

Hoje estou aqui para falar um pouquinho de mim. O seu cafezinho. Conheço muitos de vocês. Muitos de meus amigos e frequentadores. Confesso que não gosto de todos. Alguns apenas aturo. Outros me incomodam profundamente. Resolvi abrir para vocês de que gosto eu gosto.

 

Não gosto de pessoas vinte e quatro horas felizes. Aquelas para as quais, independentemente do dia, do tempo, da crise no mundo, do excesso de trabalho, estão sempre felizes. Estampam um sorriso radiante no rosto, com energia capaz de iluminar vinte campos de futebol ao mesmo tempo (característica essa que em época de Copa do Mundo pode até ser muito útil). Este tipo me irrita. Vamos esquecer os conceitos cultivados pela nossa sociedade. Há uma busca pela felicidade eterna. A qualquer custo, a qualquer preço. No entanto, há inconsistência nesse comportamento. Soa falso, e o é.

 

Pessoas devem ter qualquer coisa de triste. Qualquer coisa de escondido. Um mau humor ao acordar. Um sono na hora do almoço. Gosto de pessoas com algo que indique um problema passado. Questões familiares a ser resolvidas. Gosto de quem briga com o marido. Com os filhos. Uma ponta de arrogância e antipatia. Pessoas precisam manter um segredo. Precisam cultivar um certo mistério. Uma mancha na roupa. Uma camisa mal passada. Uma olheira vez por outra.

 

Gosto daqueles que de vez em quando erram na roupa. Saem de casa sem pentear o cabelo. Dão um fora ou outro. E que, de repente, quando menos se espera, dizem: “Não estou bem hoje. Não fala comigo”. Pessoas que, vez por outra, derrapam e descontam em seus amigos uma raivinha que nada tem a ver com eles. Gente que cai na rua e ri de si mesma. Gente que quebra um salto na hora do almoço. Gente que é grossa de vez em quando. Gente que derruba o café e faz sujeira. Que quebra um copo. Que erra nomes. Que sai de casa sem maquiagem. Que assume seus óculos e suas manias. Gosto de pessoas que vão mais às livrarias do que às butiques. Que são fúteis às vezes. Que erram. Que puxam assuntos inadequados.

 

Ações impensadas. Gestos sem propósito. Devem acontecer. Já se disse que beleza é fundamental. Pode ser. Mas, para mim, para que se torne bonito, é preciso que tenha um nariz grande. Uma ruga marcada. Talvez uma barba por fazer. Gosto de quem não lê sempre sobre política ou assuntos-cabeça. Gosto de quem se arrisca em filminho romântico de vez em quando. Gosto de quem se permite chorar no meio da rua. Faz escândalo. Aquele tipo de gente que tem ataque de riso e corre pro banheiro. Enfim. Gente que tem qualquer coisa de diferente. Que erra e acerta. Gosto dos interessantes e dos interessados.

 

 

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Um comentário para “Estranhezas e normalidades”

  1. Soraya Câmara

    Gostei muito do texto! É bom estar perto de gente que tem qualquer coisa de diferente.

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