Eta mulher danada!

O trem da vida passa, apita e avisa, mas não é do passado que me lembro e sim de uma mulher de cabelos completamente brancos que, por volta da década de 1980, foi professora de educação artística em uma escola localizada na periferia da cidade de São Paulo.
Lembro-me de sua voz sempre conciliadora, branda e incapaz de um grito para chamar a atenção de seus alunos ou de qualquer outra pessoa. A imagem que ficou foi a de uma senhora sorridente, que usava óculos e sempre vestia roupas pretas; assim – além de talentosa professora – foi também uma espécie de avó de todos nós.
Dizem que a cor branca transmite paz. Porém, por um feliz paradoxo, a cor preta era sinal de calmaria, de mão na terra, de música, de canto e poesia.
Suas aulas eram da pá virada e os pés descalços pisavam a terra onde seus alunos plantavam mudas de árvores, até o sol deixar seu rastro em forma de arrebol. Havia um sentido de eternidade em seus gestos, em suas palavras e em todo o seu ser.
Na sala de aula, as vozes dos seus alunos formavam um coral e a escola inteira ouvia os versos de uma canção composta por ela:
Brasil tem brasa no nome/ E trabalha sem cessar/ É luz que não se consome/ É chama sempre a brilhar […] O Brasil não tem fronteiras, pois somos todos irmãos/ As divisas que o recortam/ São linhas de nossas mãos […]”
Certa vez juntou alguns alunos, fretou um ônibus e rumou para o estádio Paulo Machado de Carvalho (o Pacaembu) e por lá pôs todo mundo para voar, ao som do Menino Passarinho, de Luiz Vieira. Eta mulher danada!
Em outra oportunidade, juntou todos os alunos do período da tarde no pátio, para homenagear uma professora que trabalhava na direção da escola e estava de partida.
Os alunos, enfileirados; e ela, sozinha, sem microfone, sobre uma cadeira. De repente abriu os braços como uma maestrina e regeu um coral muito simples, formado por alunos do ensino fundamental de uma escola pública, em uma tarde perdida na memória do tempo.
Sem instrumentos musicais, a introdução foi feita em uníssono por todos os cantores, sem nenhum movimento dos lábios. O som de centenas de vozes ecoou pátio afora, até ser interrompido por duas mãos que se fecharam.
A professora homenageada não se conteve e disse palavras lacrimosas, como qualquer pessoa indefesa ao amor faria. A maestrina sorriu um sorriso orgulhoso e simbolicamente abraçou todos os seus alunos.
Certa vez juntou o pessoal da 7ª série e, em um ônibus de linha, foi visitar o Liceu de Artes e Ofícios, que fica próximo à estação da Luz, no centro de São Paulo.
Após a visita, foram ao Jardim da Luz (parque histórico). E foi ali que a professora sentou-se em um dos bancos e, por alguns minutos, foi tomada por alguma lembrança que a transportou para outra época.
Mergulhada em seu transe, não notou uma pequena confusão (entre dois homens) que se formou ao seu redor e só despertou quando uma de suas alunas tocou o seu ombro. Antes mesmo de entender o acontecido, reuniu seus alunos e deixou o local.
Não sei que bons ventos levaram uma pessoa aposentada, que tocava dois instrumentos musicais, educadora por excelência, ao convívio com crianças da periferia. Talvez os ares da generosidade.
De vez em quando também sento em algum canto e fico em transe, ao constatar que o trem da vida passa, apita e avisa – e a cada dia lembro menos do passado e mais de você, Leonisa.

Um comentário para “Eta mulher danada!”

  1. rai e luiz duarte

    uma boa história para se ouvir
    Professor Silvio, seu talente é incontestável, suas rimas e seu modo de ser faz a gente voar ao passado e quando conta essa história é como se essa professora se encarnace em voce.

    Professor o teu talento
    é comparado a um talento de um autor,mas se for pra falar do teu talento não cabeiria nesse comentário, mas eu só vou falar de um talento seu, que é o poema, um talento incomparavel.

    obrigado professor

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