Eterno casamento

 

Como todos, ou a maioria dos rapazes de periferia,

Celso sempre desempregado, até o pai montar o bar.

Poderia agora estudar, e trabalhar com o pai.

 

Assim foi caminhando a vida,

Celso no bar a trabalhar.

E as coisas estavam indo de vento em popa.

Ainda mais porque o rapaz

Tinha muito conhecimento nas redondezas.

Isso era bom por um lado, mas se tornou perigoso por outro lado.

Pois Celso foi adquirindo bens.

Tênis, roupas de marca, celular 4G. E um carro.

 

Como tinha vários colegas, alguns da malandragem,

Não poderia agora, só porque conquistara uma posição,

Deles se afastar ou se desfazer.

Mas os colegas queriam se aproveitar da situação.

Então pediam o carro emprestado.

Celso recusava, mas dava carona para eles.

 

Caronas não eram para levar a algum lugar de passeio.

E sim para fazer algumas fitas, como se diz nas periferias.

Celso levou seus colegas algumas vezes e se comprometeu.

E chegou o momento que teve de emprestar o carro.

 

Celso sabia que não podia continuar.

Tinha de arrumar um jeito de se desligar daquelas amizades.

Estava noivo, resolveu se casar.

Anunciou para os colegas que tinha de se distanciar.

Estava preocupado com o casamento.

Tinha de dar atenção à noiva.

Precisaria do carro sempre.

E deu até algumas outras explicações.

 

Sentia em seu coração que o casamento é para sempre.

Ao passo que os amigos, bons ou ruins, vêm e vão.

Por algum tempo os colegas não pediram mais seu carro.

 

Dias antes do casamento.

Celso e a noiva saindo de uma loja de traje a rigor.

Deparou-se com um colega apavorado querendo o carro.

Celso recusou, o rapaz o empurrou, a noiva ao lado gritou.

Confusão armada, o rapaz sacou uma arma e obrigou o casal.

 

Entraram no carro, com Celso ao volante, e pegaram a avenida.

Logo depois uma viatura começou a perseguir o carro.

Os noivos pediam para o colega se entregar.

O rapaz não deu ouvido, e atirou nos policiais.

E foi revidado, tiro pra todo quanto é lado.

 

Vestido de noiva no chão.

Paletó e gravata na mão.

Dia triste, dia parado.

Amigos ao lado.

Celso e a noiva, enterrados lado a lado.

 

 

*Germano Gonçalves é escritor, autor, entre outros livros, de “O Ex-excluído – poema e prosa”. Confira mais no blog da editora SOMADI, clicando aqui.

3 comentários para “Eterno casamento”

  1. ITALO SALDANHA

    MUITO BOM TEXTO. REALIDADE AMARGA. TEXTO PEDRADA.

  2. Donizete Rivera

    Um exemplo da realidade vivida nas periferias do país… parabéns pelo texto!!

  3. Paulo Paterniani

    belo e tragico
    Belo e tragico !! Aprecio , com a convicção de que estamos juntos na luta pra mudar as coisas !! Abraço, grande mano Germano !!

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