Foi Ariano quem fez os caracóis chorarem

 

Agora, sim!

É hora de largar números e clientes no banco e se dedicar ao instrumento, viver dele, batucando a vida para tirar lascas do passado.

Ariano toca atabaque desde os 12; hoje com 32, coleciona 20 anos de mãos em contato com o couro de boi, veado e bode.

Único conhecido no Brasil como exímio tocador. O primeiro a sair em escola de samba com o instrumento sagrado à frente da bateria. Foi a revelação do Carnaval naquele ano. A partir daí era chamado para sair em várias escolas, como destaque, em cima do carro alegórico e por vezes no abre-alas.

Só parou de participar dos desfiles porque, nos últimos anos, quem ganhava prestígio e dinheiro eram as vedetes da TV. Nem tanto por ele, mas pela comunidade que trabalhava o ano inteiro e na hora H não tinha valor. Além do mais, todo mundo queria o seu trabalho, mas ninguém queria pagar por ele.

Começou a pedir cachê pra tudo quanto era convite e abriu uma escola de arte onde dava aulas de atabaque. Só aí lhe deram valor.

Anualmente é o convidado de honra do “Congresso Africano de Tocadores de Atabaque e outros instrumentos sagrados”. É requisitado em diversos países na mesma proporção em que Mia Couto e Pepetela são chamados para participar das centenas de feiras de livro pelo mundo.

Conheceu países em que nunca sonhara existir: Suécia, Lituânia, Rússia quando ainda era a União Soviética, Tchetchênia, Turquia, Azerbaijão, entre outros. No continente africano, passou por todos os países.

A igreja católica não pensa em outro nome quando o assunto é missa afro:

— Chama o Ariano.

Onde anda, o instrumento vai junto, ele sem o atabaque não é ele, e vice-versa.

Então resolveu largar a função de gerente de banco para finalmente fazer apenas o que gosta: exprimir a vida nas batidas do atabaque.

Mas não foi fácil pra chegar ao patamar de decidir ser dono de sua vida. Hoje sabe o preço que pagou pra ser quem é.

Lembra sempre que a fome que passou foi sua professora no ensino da rebeldia de vida. Era difícil aprender a lição de português com as cabeças de serpentes dando picadas na parede de seu estômago. Nesses tempos comia pedaços de borracha para apagar a fome que sentia.

Depois veio a faculdade, onde se inseriu através de cotas, e viveu o pior momento de sua vida. Lá sofria os horrores do preconceito racial. Seu apelido era Nariz na vidraça, por causa do nariz achatado. Era perseguido pelos alunos e professores. Foi então que adquiriu o vício da bebida, hábito de seu finado pai, que ingeria cachaça pra se esquecer dos problemas oriundos do racismo.

Fugia constantemente das aulas e muitas vezes evitava responder a chamada para os colegas de classe não lembrarem de sua existência. Quase perdeu a vaga. Só não aconteceu porque teve um dia em que bebeu demais e foi pra aula bêbado. Na saída foi surrado por uns universitários que achavam que negros não tinham o direito de estudar de graça, principalmente porque seus pais davam um duro danado nas multinacionais e nos cargos políticos para pagarem suas mensalidades. Dormiu na rua debaixo de chuva.

No dia seguinte lembrava de tudo, e com um gosto de ódio e vingança, misturado à pasta de sangue na boca, resolveu encarar a realidade.

A partir daí andava de cabeça erguida, não levava desaforo pra casa, nem usava da violência. Procurava seus direitos. Estava se impondo.

Nessa época já era um bom tocador, fazia aula havia oito anos com Mestre Bina, de quem herdou instrumentos e técnicas. Aprendeu também a manusear a conga, a tumbadora e o xequerê, além de outros talentos infinitos.

Tocar era sua fuga, a válvula de escape de quem procurava sua parte na sociedade e só recebia insultos.

Tinha algo que não se via em ser humano algum. Talento? Não! Era mais que isso. Talvez os orixás ou o axé enviado pelos ancestrais, ou tudo isso de uma vez. Algo que nem Mestre Bina entendia. Tudo que ensinava, rapidinho o discípulo aprendia. Via-se em seus olhos a fúria que não atrapalhava no contato com o couro. Manuseava tudo com leveza. Diferentemente de muitos mestres que diziam que pra aprender a tocar tem que sangrar as mãos, calejá-las, pendurar em cada braço dois quilos de qualquer coisa, pra dar liga e sustento quando estiver sem o peso.

O Mestre de Ariano mostrou que não precisava daquilo, que de sofrimento já bastava o passado dos antepassados. Tocar tem que ser um ato prazeroso. E pra ele era mesmo seu momento de distração, uma esquiva daquilo que enfrentava dia a dia, na faculdade ou no emprego.

Só depois de vários estágios e cinco anos atuando no caixa bancário, foi promovido a gerente. Mesmo nessa posição o preconceito existia, enraizado e “ingênuo”.

Isso também fez com que corresse atrás de conhecimento, muito conhecimento, e quanto mais conhecia, mais humilde ficava, a ponto de adquirir a virtude de não mostrar o que sabia se não fosse requisitado. Por se portar assim é que as pessoas não lhe davam valor num primeiro momento. Ouviu diversas vezes:

— Ariano, antes de te conhecer, pra mim você não valia um real.

Um desses momentos aconteceu na Suíça, e foi a mais bela expressão contra o racismo de que se tem notícia.

Estava numa conferência econômica representando o banco em que trabalhava. Na festa que ocorreu no terraço do hotel, assim que Ariano foi visto, logo pediram mostrando os instrumentos:

— Ê, negão, toca um samba aê!

Não deixou aquele estigma passar em branco. Pegou o instrumento de cordas, e soltou a voz ao microfone ladeado pelos grossos lábios. Cantou e tocou Bossa Nova e MPB. E pra deixar todo mundo pasmo mandou, em inglês, Bob Dylan, Marvin Gaye e Ray Charles.

 

*Sacolinha é escritor, autor do livro de contos 85 Letras e um Disparo e dos romances Graduado em Marginalidade, Estação Terminal e Peripécias de Minha Infância.

 

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