gênese

no começo era o nada, e satan bafejou o seu fogo e criou o sol do seu hálito de enxofre. depois criou alguns planetas para girarem em torno dele, mas pensou: a coisa toda tinha de ficar mais divertida, isso está parecendo um carrossel, então moldou o barro e fez a mulher. copulou com ela e nasceu o primeiro homem. não, deus nunca existiu, ou a ordem das coisas seria bem diferente – não haveria desigualdade. satan povoou o que chamou a “terra” – em homenagem à argila de que fez a primeira mulher – do que chamou seres humanos, e, como era um poeta maldito, mas de sensibilidade, criou também todas as belezas da natureza, já insuflando no homem e na mulher um comichão para estragar tudo; e assim se fez, e assim é: a fome na áfrica não é por acaso e as etnias foram criadas para que nascesse o preconceito e a guerra. satan pensa em tudo, é um danado! de vez em quando, manda pestilências para aniquilar os povos que mais o entediam, porque sua vida é feita de tédio e, para fugir ao tédio, ele inflama os homens com ódio e misantropia. ele ri gostosamente quando um médico nega um atendimento e um doente morre no corredor de um hospital, mas o que mais o diverte é a destruição irrestrita dos bens não-renováveis. depois do petróleo, foi natural a disputa geopolítica – ele adora essa palavra – pela água, e por fim não sobrou nem homem, nem mulher, nem água. só quando o planeta ficou completamente dizimado, depois de milhões de anos, ele sentiu-se pleno, e aí sim pode descansar, mas não por muito tempo. que ele não é vagabundo para descansar no sétimo dia.

 

2 comentários para “gênese”

  1. Vivian de Moraes

    Vivian de Moraes

    Obrigada, Daniel!

  2. Daniel Brazil

    Muito bom!

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