Há luz dentro do caos, há bonança no meio do apocalipse

Ziggy é um jornalista ordinário, no sentido literal da palavra. Uma pessoa comum como muitos de nós, que trabalha com o que gosta, mas, depois de um tempo, anseia por novos ares, sofre crises pessoais. Quer buscar a felicidade, por que não? E se reinventar.

Nessa busca, decide abandonar o jornalismo cultural e se aventurar como repórter de uma revista científica. Ao cobrir uma conferência da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre clima e meio ambiente, percebe que, apesar de todo o caos apocalíptico, é possível modificar nosso olhar cotidiano e encontrar soluções mais humanistas e menos tecnicistas para uma existência mais equilibrada.

Mesmo com o crescimento vertiginoso dos problemas ambientais, que pode nos deprimir e abater, há caminhos possíveis – não de disseminação do caos, mas de convivência. É sobre esse ponto, de um olhar mais intimista no contato com o cotidiano, que o escritor carioca Rodrigo Lacerda joga luz em seu novo livro, “Todo Dia É Dia de Apocalipse” (FTD Educação, 2016, 80 páginas, romance), que será lançado a partir das 15h do próximo dia 26 de novembro, na Livraria da Vila da alameda Lorena, 1.731, nos Jardins, em São Paulo.

“O que nos dá a sensação de um apocalipse cotidiano é a vertiginosa velocidade da nossa rotina, que contribui para uma ilusão de autossuficiência tecnicista. Mas o tecnicismo e a especialização exacerbada do conhecimento são, a meu ver, viciantes. Podem ser necessários, mas não podem ser tudo. O ser humano precisa também educar seus sentimentos, caso contrário ele empobrece drasticamente”, acredita Lacerda.

Fã de Elvis, vencedor de dois prêmios Jabuti, pelos livros “O Fazedor de Velhos” e “Hamlet ou Amleto”, e otimista – não nato, mas por esforço –, Rodrigo Lacerda imprime nesta obra uma mensagem de esperança que está longe de ser piegas. “Tão importante quanto olharmos para a natureza e suas formas de preservação é termos cuidado com o ambiente que nos rodeia. Precisamos adoçar o cotidiano tão duro que vivemos. E para isso só conheço um caminho: amar. Esposas, maridos, filhos, pais, amigos e ser gentil com os seus semelhantes, sejam eles quem forem. Acredito muito na delicadeza”, diz ele.

Na entrevista a seguir, ele esmiúça suas inspirações e inquietações, além de sua relação com seus leitores – jovens ou não.

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Esse é o seu primeiro livro sobre o tema ambiente. O que te inspirou a escrever sobre o tema?

Acho que o esgotamento dos recursos ecológicos e o aquecimento global são tão presentes e disseminados nas nossas vidas que fica até difícil apontar um fator específico que tenha me levado a escrever o livro. Talvez a causa não tenha sido outra além do medo de morrer em algum desastre natural. Quando o furacão Katrina destruiu Nova Orleans, lembro que a população desabrigada da cidade foi levada para um estádio de futebol e, lá, sem luz, com pouca comida, sem água, sem poder lavar as roupas ou tomar banho, houve casos de uma verdadeira regressão à selvageria. Fiquei muito impressionado e passei a ler tudo que me caía às mãos sobre esses dois assuntos primordiais na nossa agenda do século XXI. Como eu digo no livro, temos respostas ainda industriais para perguntas pós-industriais. E o tempo está correndo.

Por que escolher um jornalista para ser o protagonista do livro? Em que medida o jornalismo contribui para mudanças sociais ou para repensar caminhos?

Acho que o jornalismo é crucial para promover a conscientização das pessoas ao redor do planeta em relação à gravidade dos problemas ambientais. Ele é que traz ao conhecimento de todos as descobertas feitas nos laboratórios e consegue fazer circular pesquisas globalmente. Mas, no caso específico do livro, o fato de o protagonista ser jornalista, e um jornalista que sai da área cultural, ou seja, que não é especializado em assuntos científicos, vinha a calhar. Através dele, ao discorrer sobre os problemas ambientais e científicos, o narrador podia ter uma voz muito próxima à de um leigo, como eu, e como quase todo mundo. Isso aproxima o leitor, constrói uma identificação imediata dele com a personagem.

Conviver com um apocalipse diário é uma premissa do mundo moderno. Para a personagem principal, o jeito de lidarmos com a problemática ambiental deve ser menos técnica e mais humanista. Você acredita que esse é um caminho que devemos tomar em outras situações que nos afligem cotidianamente?

Sim, acredito. O que nos dá a sensação de um apocalipse cotidiano é a vertiginosa velocidade da nossa rotina cotidiana, que contribui para uma ilusão de autossuficiência tecnicista. Não temos tempo a perder, então queremos ser precisos, diretos, eficientes, práticos. Mas o tecnicismo e a especialização exacerbada do conhecimento são, a meu ver, viciantes. Podem ser necessários, e até admito que sejam, mas não podem ser tudo.

O ser humano precisa também educar seus sentimentos, seu espírito – aqui sem necessariamente algum cunho religioso –, caso contrário ele empobrece drasticamente sua convivência com os outros e consigo mesmo. Sobretudo, sem repertório, sem imaginário, ficamos muito chatos. Uma ótima maneira de educar os sentimentos e enriquecer nosso universo interior é por meio das artes, que mostram a riqueza emocional da nossa espécie, seja sob a forma de livro, disco, teatro, filme, estátua, performance etc. Existem outras formas de autoconhecimento e conhecimento do mundo, claro, como a psicanálise, as atividades esportivas, a meditação etc. Mas as artes não devem ficar de fora do pacote.

Como fazer nossa parte diante das tragédias anunciadas?

Eu, sinceramente, não sei. Veja nossos recentes esforços domésticos para economizar água, por exemplo. Sou a favor deles todos e os fiz, como muita gente. Mas, na verdade, a agricultura e a indústria são as verdadeiras grandes consumidoras de água, então acho o impacto desse nosso esforço de formiguinha meio limitado. Por outro lado, uma coisa é certa: precisamos exigir que nossos políticos coloquem as questões ambientais no centro de suas estratégias de desenvolvimento do país. Não podemos fazer como a China, que, por se industrializar de forma radicalmente antiecológica, hoje tem o ar completamente irrespirável em algumas de suas maiores cidades.

Você usa referências musicais, como Paul McCartney e Elvis Presley, para abordar situações do cotidiano familiar da personagem principal, Ziggy. Por que buscar essas inspirações? São uma forma de reforçar a importância de se lidar com os problemas pela ótica do amor e do humanismo também?

São isso, sim. Mas não foi algo tão pensado. Agora, olhando retrospectivamente, gosto da leitura que uma amiga fez desse aspecto do livro, para quem o Elvis representa um certo impulso destrutivo, que está presente em nós (por exemplo nos tabagistas, como o pai do protagonista), e na civilização como um todo (uma vez que mesmo sabendo do poder destrutivo dos combustíveis fósseis não paramos de aumentar nosso consumo). De outro lado, o Paul McCartney representa uma força solar, pró-vida. Tânatos, o deus da morte, versus Eros, o deus da vida. Dito isso, quero deixar bem claro que também sou fã do Elvis…

Você vê o pessimismo como um sentimento que toma conta do ser humano hoje e dos jovens? Ao longo do livro você vai reconstruindo esse pessimismo e rebate com uma mensagem de esperança, diferente de um conformismo. Essa é a sua mensagem para os jovens atuais e para o seu jovem leitor? 

Essa mensagem de otimismo é para todo mundo, inclusive para mim. Que o mundo está sempre nos parecendo mais difícil, não tenho dúvida. E os jovens pegam isso em cheio: o vestibular está mais difícil que na minha época, ganhar autonomia na vida ficou mais difícil, se sustentar ficou mais difícil, arrumar o primeiro emprego, ter a primeira casa, tudo ficou mais complicado. Mas, por outro lado, estamos vivendo mais do que nunca e com melhor saúde. Então as coisas não podem ser tão ruins, não é?

Acho que a vida é como um daqueles antigos quartos de revelação. Uma câmara escura onde você deve entrar com a imagem em negativo, isto é, as coisas difíceis e tristes e aprender a transformar o que é negativo em positivo – através de um processo químico interno, digamos assim. Quem não faz isso ou enlouquece ou pula da janela. Motivos não faltam para ser infeliz. Vejo que temos que ler Eça de Queirós e João Ubaldo Ribeiro, por exemplo, para entender que é possível e necessário rir das nossas desgraças. Mas, além de rir, é preciso adoçar o cotidiano tão duro que vivemos. E para isso só conheço um caminho: amar. Esposas, maridos, filhos, pais, amigos, e ser gentil os seus semelhantes, sejam eles quem forem. Acredito muito no evangelho da delicadeza.

Você é um otimista por natureza? 

Acho que não por natureza, mas me treinei para sê-lo. Claro que, de vez em quando, deprimo, claro que, de vez em quando, acho que minha vida está toda errada e que vamos todos cozinhar num planeta superaquecido. Mas tento continuar aproveitando a vida.

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Saiba mais sobre o livro “Todo Dia É Dia de Apocalipse”, de Rodrigo Lacerda, clicando aqui.

Foto: Renata Parada/Divulgação

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