Insustentável

Era simplesmente o mesmo pesadelo repetidas vezes. Aquele mesmo bom-dia seco pela manhã, carregado pelo ódio que tinha do que ela pensava não estar de acordo com seus ideais. Como naquela manhã em que ela cismou ver uma mensagem divina numa caixa de cereais. Eu dizendo que era apenas um defeito de impressão. Impressão, porra! E ela me acusando de não ter fé em nada. Niilista, porra! Esses cereais não mudaram o ódio. Com toda aquela beleza e seus ideais de um mundo melhor e eu me perguntava como o diabo poderia ter lambido seu coração. O detergente biodegradável, os incensos, um Buda de aço inoxidável, os dez cachorros que ela salvou do que seja lá o que fosse. Tudo balela. Eu temia pelos cachorros, estariam melhores com outra pessoa. Eu abria o portão todos os dias e dizia: “Vão, fujam, aproveitem a liberdade, salvem-se dessa mulher, eu imploro”. Eles me olhavam com a cabecinha pendendo para o lado. Não fugiam. Eu não fugia. Mesmo odiando as malditas almofadas indianas. Não serviam para nada. Inúteis, com aqueles detalhes bordados que me pinicavam o pescoço.

 

 

Ela e a podridão secular dos malditos incensos. Aquele Gandhi observando sorrateiramente nosso sexo e um maldito gozo celestial. Desejei, com sinceridade, que seu karma fosse aniquilado para sempre. Gandhi, quem diria que um monte de gente fofa destruísse o seu trabalho, pode olhar minha bunda chacoalhando à vontade. Esse será seu karma nessa casa, o de olhar minha bunda peluda. E ela sempre com essas manias sustentáveis. Para o caralho tudo isso, vamos todos morrer secos, num mundo cheio de doenças, sem comida e o amor será trocado por um punhado de açúcar. Eu só quero o meu abraço fraterno e ouvir o latido da morte enquanto os inúteis fritam seus cérebros tentando achar uma solução. A solução, meu caro, está sendo manipulada todos os dias, ela vem em código de barras e sem culpa. Ela e aquelas malditas almofadas indianas, uma foto do Fidel e um monte de cachorros e gatos que ela pegou pela rua, ou salvou da mão de algum psicopata coreano. Eu queria me enterrar vivo, desaparecer daquela relação. Como os produtos que ela dizia “biodegradável”, com aquele sotaque falso. Ela queria ser uma heroína latino-americana, viveu anos na Espanha, bancada pelo papi e o que trouxe de lá foi o sotaque forçado. Tão patética, tão falsa como as malditas almofadas indianas feitas na China por semiescravos desnutridos. Ela e sua sustentabilidade, que se fodam.

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Eu sonhei com a princesa Maia. Ela dançava numa viela aos tambores ritmados por vagabundos bêbados de Bangladesh, os mesmos que a estupraram quando ela tinha 11 anos. Os pés descalços no lixo de uma favela-prostíbulo além das margens do rio Padma. Ela tinha que esquecer que foi vendida por 5 mil dólares por sua tia, a vida de escravidão e dos 2 dólares o programa. Maia dançava com ternura, rodopiava com força, como se uma força centrífuga jogasse para fora o assassinato de sua amiga Kalil, o sexo forçado com homens rudes tombados pela sífilis e os ratos que perambulavam pelas carcaças de crianças tomadas à força de suas famílias.

Então ela me acordou com seus problemas. Disse que Carlinhos tinha morrido. Eu gostava daquele cachorro maltratado pelas ruas e pelo ódio incompreensível dos humanos. Lembro do dia em que Carlinhos apareceu. Ela recebeu a ligação de uma ONG e depois me disse: “Vou buscar um cachorro que foi atropelado depois que um dono de padaria jogou óleo fervendo nele, ele saiu correndo e foi atropelado”. O cachorro até que aguentou bem. Três meses de remédios e o calor do meu colo. Carlinhos também não gostava daquelas almofadas indianas, os bordados metálicos pinicavam e incomodavam seus machucados. Eu dizia a ele que as almofadas indianas eram o de menos, e que ele teria de aguentar os mantras e os banhos de energização para purificar a alma. Eu afagava seus pelos queimados pela irracionalidade cretina e dizia que ele teria também de aguentar as rações macrobióticas e o cheiro de incenso. Carlinhos não estava a salvo da patifaria humana.

De repente eu comecei a chorar pelo cachorro. Era ela que precisava de salvação. Eu tentei dizer a ela que os problemas no mundo eram maiores que cachorros jogados na rua. Eu dizia sobre os índios urbanizados ao pé do Pico do Jaraguá. Índios sem esperança, sem salvação xamânica, com doenças e ignorâncias demais e que inevitavelmente seriam arrastados para o escombro da maldita “evolução”. Então contei meu sonho sobre Maia, o qual, na verdade, foi resultado de uma insônia ao assistir a um documentário sobre prostituição no National Geographic. O nome Maia fez seu semblante sair da serenidade santificada para o rancor diabólico, igualmente como naquela manhã dos cereais divinos. Não me fale das suas putas! Não me fale das putas! Eu apenas deitei no sofá e senti o incômodo das almofadas indianas, e meus olhos lacrimejantes pela fumaça dos 22 incensos que queimavam pela casa.

*

Quando a conheci, ainda estava sob efeito do ayahuasca. De vez em quando os sonhos voltavam. Ou seriam alucinações? Fui com um amigo a um lugar próximo ao Pico do Jaraguá e lembro de duas coisas. De alguém ter dito que tinham matado o cartunista Glauco naquele lugar e do meu amigo ter abraçado uma árvore, creio que 40 minutos depois de ter bebido o chá dos sonhos. Era a coisa mais linda que senti na minha vida, me disse. As duas lembranças eram ruins. A primeira lembrava minha criação cultural e Los Três Amigos. Um se foi. A segunda era ainda mais temerosa, porque arruinava qualquer perspectiva positiva na minha vida. Ele tinha visto coisas bonitas e cheias de luz e observou o mundo da mesma forma como encurvamos o corpo e olhamos as bolas numa mesa de sinuca. Eu, nem isso. Senti apenas, como se diz na gíria, “uma leve brisa”, como se tivesse fumado um ótimo baseado.

 

Então ela chegou vestida de Emília do Sítio do Pica-pau Amarelo. Me pediu dinheiro para angariar fundos e que isso ajudaria uma entidade que cuidava de animais, principalmente alguns cachorros abandonados. Pensei que a única entidade abandonada fosse minha alma, agora entorpecida por um chá milenar do Alto Amazonas. Eu estava sentado na guia e a escutava por educação, mas sem levantar muito a cabeça, tinha alguma coisa que pesava e mantinha meu pescoço rígido, uma tensão natural depois de saber que alguém tinha falecido e que a Emília me pedia uns trocados. Eu fiz uma piada ridícula sobre não ajudar cachorros, que se ela tinha fome eu lhe pagaria um cachorro-quente. Ela sorriu desse momento cretino e aceitou. Talvez ela visse em meus olhos tristes o mesmo que vê naqueles cachorros todos. Foi por compaixão, sim, agora tudo está mais claro.

 

O primeiro sinal de que eu ia me ferrar com ela foi o fato de pedir o cachorro-quente sem salsicha, porque era vegan e nem leite ela bebia, “só de soja”, e deu uma risadinha com a mão na frente da boca, imitando ridiculamente a personagem de Monteiro Lobato. Questões de princípio e amor ao próximo, foi o que disse. O segundo sinal foi o de a currar num beco escuro próximo à Mourato Coelho e puxar sua peruca, revelando uma cabeleira ruiva que ia até a cintura. Enfim, eu vi a luz do ayahuasca, disse para o meu amigo no dia seguinte. O terceiro sinal foi encontrar o cartão da entidade com seu telefone e nome ― Irenia. Uma ruiva com nome russo era como uma rajada de AK-47 numa vida que já estava fodida. Eu ia me perder, sabia, já estava entregue a ela desde quando senti o tesão da fantasia de fodê-la vestida de Emília. Eu ia me foder.

 

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