Internação

As três vagas do quarto estavam preenchidas. Eu ocupava o leito do meio. As janelas ficavam à direita; e a porta, num canto à esquerda. Eu, vez em quando, gemia com mal-estar e um pouco de dor. Às vezes, resmungava e continha o impulso de xingar.
O paciente à direita, um senhor de idade, urrava de dor com frequência, sempre alongando as vogais. O da esquerda, mais moço que o outro e uns dez ou quinze anos mais velho que eu, também gemia, soltava lamentos e falava com esforço, como que quem quisesse dividir suas dores e aflições e sugerir um diálogo conosco.
– Estou aqui pagando meus pecados. Sempre fui muito abusado e dessa vez fui longe demais. Perdão, perdão!, clamava o da esquerda.
Eu e o da direita não dizíamos nada. O da direita não tinha condições físicas de falar. Tinha parte da face paralisada. Dos três, era o que estava em pior situação. Eu fingia estar pior do que de fato estava, justamente para não dialogar. Achava que aquilo não era lugar nem momento para conversar. Se pudesse, sequer ouviria. Mas como isso era impossível, fazia o que estava ao meu alcance: silenciava. Repugnava aquele tipo de contato entre convalescentes, como bonecos quebrados numa caixa de brinquedos esquecida num canto do quarto. Estes bonecos não servem para brincar e só servirão quando estiverem consertados.
Eu queria era fugir dali ou voltar no tempo e reparar o erro ou o destino, tomar decisões que me impedissem de passar por aquilo. Não acho que estivesse ali pagando meus pecados, como o da esquerda dizia estar. Não me considero abusado, não acho que fui longe. Ao contrário, gostaria de ir longe um dia.
Naquele quarto quase tudo era branco. Os tons opacos das paredes e objetos eram todos brancos para mim. O que não parecia branco era, para mim, cinza ou negro.
Estava no mesmo hospital onde minha mãe estivera internada por causa de doença grave, o mesmo onde morreu minha avó. Em quase trinta anos, parece que nada havia mudado ali. Para mim, a vida naquele hospital continuava em preto-e-branco. De dentro, o prédio parecia sempre cercado de névoa, e tudo nele parecia envelhecido.
Eram muitos e assustadores os ruídos vindos dos corredores. Acordei várias vezes sobressaltado. Na rua, em contraste, parecia tudo quieto e abandonado, como se a cidade inteira estivesse empesteada e a calamidade pública lotasse os hospitais.
– Vocês ouvem as macas, as cadeiras de rodas e todo esse zum-zum-zum lá fora?, perguntava o da esquerda. – Não para de chegar gente. Logo vão achar que estamos folgados os três aqui e trarão mais coitados para cá.
O da esquerda não se importava com a falta de resposta ou aprovação.
– Esse hospital está cada vez mais cheio. O purgatório e o inferno também são assim.
– Aaaaeee, aaaaeee, urrava o da direita.
– Quem está são também acaba internado. Foi assim com o antigo vizinho. Passou a noite no hospital acompanhando o pai e foi pego. O enfermeiro vinha aplicar a medicação no pai, mas enfiou a agulha no filho. O cara estava dormindo e acordou berrando de dor e susto, mas foi contido pelo enfermeiro bruta-montes, narrava o da esquerda.
De fato, sempre achei os enfermeiros meio sádicos. Nós que não podíamos sair da cama tínhamos de ser lavados por eles no próprio leito. Sentia nojo e raiva por não ter condições de me limpar sozinho. Pois esses banhos eram dados às três ou quatro da madrugada, quando, depois de muita dificuldade, alcançávamos o mais profundo dos sonos. O descanso, então, parecia impossível naquele lugar.
– Isso não é o barulho de um homem se arrastando com os pés acorrentados?, perguntava o da esquerda. – E parece que estão açoitando alguém, ouvem os gritos ao longe?, questionava.
Também escutávamos o som de uma goteira que era impossível saber onde estava. Um conta-gotas lento e constante.
– E vocês não sabem do pior. Eles enterram gente aqui, anunciava o da esquerda, já com a voz rouca. – Minha mulher e minha filha dizem que dos banheiros ouve-se, dia e noite, o barulho de uma pá, como se um pedreiro estivesse cimentando uma parede. Mas não é parede, não. Estão lacrando as valas onde eles depositam os corpos no subsolo.
– Oooooooooooooooohhh, desesperava-se o da direita.
Os médicos praticamente não dirigiam a palavra a nós. Eram, na verdade, monossilábicos. Difícil depreender alguma coisa daquelas falas. Os enfermeiros, mais falantes, eram duros e nos atendiam como se fôssemos feitos de qualquer matéria que não pele e carne. Nossos braços e mãos estavam roxos e inchados de tantas picadas.
Do quadril para baixo, a única coisa que sentia era dor. Era como se minhas pernas estivessem esmigalhadas e soterradas por pedregulhos.
– Que fim mais triste o meu! Triste fim!, lamentava o da esquerda nos momentos de dor mais intensa. Não suporto essa dor! Não quero morrer nesse quarto escuro!, prosseguia.
– Aaaaaaeeeeee, aaaaaeeeee, gritava o da direita.
Eu maldizia os dois, os enfermeiros e os médicos, o hospital, o mundo e o destino.
– Dói cada vez mais. Isso vai acabar comigo, meu pai! Me perdoe! Não me deixe ir embora, pai!, delirava o da esquerda.
– Oooooooooooooooohhh, berrava o da direita.
O da esquerda só recebia as visitas da mulher e da filha adolescente. O da direita não era visitado por ninguém. E a mim só a Leda visitava.
Eu já estava ali havia três dias. Numa manhã, fui acordado pelo meu sobrinho. Os outros dois dormiam.
– Ei, tio, levanta! Pode ir embora que agora é minha vez de ficar aqui com o pai e o avô.
Era manhã de domingo, fazia um pouco de frio. Com cara de sono e alguns cabelos em pé, tomei o elevador e fui ao térreo. Entreguei o crachá de visitante na recepção e saí a pé.

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