Mafuá só um pouquinho mórbido

 

As três mulheres do sabonete Araxá chegaram toda airosas, e teu passamento foi perfumado. Dos mafuás foram subindo rabecas, violas, choros, chorões, mas ninguém chorava. Vinham saias de chitas esvoaçantes, coloridas, bojudas, e também vestidos esguios, sóbrios, cinza e escuros. Mas não havia tristeza; havia resignação, o que é coisa muito distinta.

 

Todos te amavam, todos te saudavam com um sorriso sutil, como quando descobriam teu humor sem afetação, tua ternura sem sirene, os chapéus nas mãos cruzadas à frente do corpo. Você estava ali, no centro, deitado, quieto, tranquilo. Usava óculos, para enxergar bem do lado de lá. Um finado tem uma outra visão.

 

Então um abriu um livro, outro abriu outro livro, um outro ainda outro livro e um declamou um poema favorito, outro, outro favorito, e aquela dama carnuda de veste rubra, em cuja boca não havia os pivôs, empostou a voz negra, grave, e converteu em samba o madrigal, cuspindo para longe o perdigoto da melancolia.

 

Em breve o mafuá era ali mesmo, o teu passamento. Vou-me embora pra Pasárgada, ô-ô-ô-ô / Lá sou amigo do rei, ei-ei-ei-ei / Lá tenho a mulher que eu quero… iá-iá-iô-iô… Na cama que escolherei, eu sei, eu sei... Ficou bonito teu poema em ritmo de samba, marcado na palma da mão. E eu juro que vi, juro, juro que vi você marcar o ritmo com os nós dos dedos na lateral esquerda do féretro. Foi depois de terem servido a quinta rodada do paraty, é verdade, mas eu não só vi, como ouvi também.

 

E se assim é, como muitos dizem que é, você chegou a esse lugar tão aprazível rodopiando gordamente feito momo.

 

Evoé, Manuel Momo Carneiro de Sousa Bandeira Filho.

 

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