Maldito Francês

 


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Pronto? Allez!

 

O distinto cavalheiro de fraque e cartola veio cheio de marra até a TRAP, o mais famoso ringue de luta ilegal de Londres. A rua estava entregue ao breu e apenas a luz da lamparina a óleo acima do umbral resplandecia.

 

O porteiro rude e alto mascava a ponta de um cigarro sem filtro apagado pela neblina. A entrada custava apenas dois pence, mas, já que o cavalheiro parecia rico, decidiu abusar:

 

— É um florim, ô, bacana!

 

O garboso homem olhou torto para a mão encardida do porteiro. Alisou seu fino bigode e tirou do bolso próximo à lapela um pequeno cartão. O porteiro arregalou os olhos e grunhiu, pois não ia receber um só penny daquele homem.

 

Ele não era um espectador, era um lutador.

 

 

Os embates das casas de lutas ilegais eram sempre violentíssimos, não raro terminando com o óbito de um dos lutadores. Era assim que o homem comum saciava sua sede de sangue.

 

Boa parte dos países europeus tinha suas casas, e cada uma delas tinha o seu eleito. O campeão da TRAP era Johnny “Crusher”. Um verdadeiro demônio quando lutava.

 

O desafiante chegou vestindo cartola, fraque e ostentando um bigode impecável. Uma figura inusitada e provocativa, com um indelével ar de superioridade diante dos demais. E, para piorar, era francês.

 

Um dos espectadores, um homem andrajoso e rude, comentou com o rapaz ao lado:

 

— Hoje nosso querido Johnny vai massacrar um francês de merda! – o homem tirou do bolso uma garrafinha de conhaque, deu um gole. — Este sujeito só deve saber um pouco de boxe e savate. Estes franceses no máximo metem medo nos combates de esgrima, mas na luta física não há ninguém que vença o nosso Johnny! Muito menos um maldito franguinho parisiense. Um dândi afrescalhado!

 

— Vamos esperar para ver – disse o rapaz. – Por falar nisso, qual o nome dele?

 

— Maldito.

 

— Hã?

 

— Maldito! – repetiu o homem. – O sujeito é conhecido, em outras casas de luta menos famosas, como “Francês Maldito”! Sugestivo, não?

 

 

Johnny tinha quase dois metros de altura, cabelos loiros curtíssimos e um corpo perfeito. Era um dos poucos lutadores que ainda se gabava de ter todos os dentes. Do outro lado do ringue, entrando sob uma chuva de vaias, veio o desafiante. O juiz anunciou:

 

— Deste lado temos… “Francês Maldito”!

 

Os espectadores riram e subitamente todos começaram a repetir: “Francês Maldito! Francês Maldito!”. Parecia uma torcida. Os dois lutadores foram para o centro da pequena arena, vestindo apenas uma calça surrada, torço nu e descalços. O juiz anunciou:

 

— O combate vai durar até que um desista! Erga a mão e diga para parar, se você ainda puder! – o juiz foi se afastando e gritou. — Já!

 

Johnny se movia em círculos no ringue. Decidiu provocar o desafiante:

 

— Ah, seu nome é “Francês Maldito”, é? Rá, rá! – ele desfilava com seu queixo erguido. – Pudera! Estou sentindo cheiro de queijo podre e vinho azedo!

 

— Sorte sua, mon ami! Pois eu estou sentindo cheiro de merda! – ele sorriu. – E infelizmente vou ter que botar a mão nela!

 

O soco veio do nada. O francês amorteceu parte do impacto, mesmo assim teve de dar vários passos para trás para não cair no chão. Foi uma apresentação assustadora.

 

— Vai, Johnny! – exclamava a plateia. – Vai! Vai! Maaaaata!

 

A luta começou. Os punhos do gigante zuniam pelo ar. Maldito era ágil e conseguia se esquivar da maioria dos ataques, mas vez ou outra recebia um direto que fazia com que perdesse o equilíbrio. Tentava revidar como podia, e embora acertasse muitos socos, eles não pareciam estar fazendo grande efeito. Pensar nisso fez o inglês se descuidar e um cruzado de canhota lhe acertou a boca. Sua arcada dentária, até então invicta, ganhou uma pequena janela com um incisivo quicando vermelho pelo chão de madeira da arena.

 

A plateia ficou muda por um instante, mas só por um instante.

 

Um murro fenomenal atingiu a lateral da cabeça do francês, que fez um movimento tão brusco que muitos pensaram que Johnny tinha quebrado o pescoço do adversário. Este deu um giro no ar e caiu com violência no chão.

 

O juiz esticou o pescoço para ver se Maldito ainda estava consciente. O francês tentava se levantar. Johnny levou a mão à boca, só percebendo a gravidade do ferimento quando olhou para os dedos ensanguentados e passou a língua entre os dentes. Um deles estava faltando.

 

— Aarrch! – gritou, muito irritado. – Filho duma…!

 

Maldito pressentiu o perigo e despertou instantaneamente da tontura. Defendeu-se de um novo ataque e depois ergueu a perna com tudo, acertando o calcanhar no queixo de Johnny, fazendo-o morder a língua. O rapaz cuspiu uma golfada escarlate.

 

Pela segunda vez a plateia ficou muda, enquanto o francês se punha novamente de pé, mancando um pouco, e avançava desferindo novos socos. Canhoto, acertou mais dois diretos no rosto do inglês e depois uma joelhada no peito.

 

— Isso não é savate… – murmurou o homem andrajoso, completamente vidrado na luta. – Uau! Este francês é bom!

 

O inglês caiu sem fôlego, mas logo se levantou novamente, com o rosto cheio de sangue e o dobro da fúria. Ele não podia perder. Jamais perdera um combate dentro da TRAP. Ele armou os punhos e preparou-se para continuar.

 

Um soco pegou de raspão. Outro acertou o vazio. O terceiro pegou no rosto do francês. Seus bigodes foram cruelmente castigados, mas nenhum dente se soltou, e o inglês não ficaria satisfeito enquanto isso não acontecesse.

 

O estrangeiro caiu de novo. Um chute na altura das costelas tirou Maldito do lugar. Ele rolou para o lado, escapando do pisão de Johnny. Ficou de pé novamente, apoiando-se em um dos pilares. O inglês tentou socá-lo, mas errou, recebendo no contra-ataque uma joelhada no baço que o mandou para as cordas. Johnny voltou com um soco circular, mas o francês desviou-se e aplicou uma cotovelada na cabeça do rapaz.

 

Desnorteado, até porque não estava acostumado a apanhar tanto, o jovem recebeu de peito aberto mais uma sequência de socos carregados. Os nós dos dedos do francês já estavam praticamente em carne viva de tanto bater. A derrota parecia iminente.

 

“Não!”, pensou Johnny, que não podia aceitar isso. Num movimento desesperado, agarrou o adversário e o mandou para o chão junto com ele.

 

— Ahhhh! – a plateia comemorou. – Agora, sim! Mata!!!

 

Muito mais pesado, o campeão estava em cima de Maldito e desferia murros. Cada impacto seria suficiente para deixar de cama qualquer homem comum. Mas nenhum dos dois era um homem comum.

 

Johnny armou o último e mais potente soco, disposto a afundar o crânio do francês. E errou.

 

Desviando-se no último instante, Maldito jogou a cabeça para o lado e seu adversário acertou o chão com tudo, quebrando a madeira e ficando com o braço preso entre as tábuas. Em três puxões o inglês desvencilhou o braço, cheio de cortes das lascas de madeira.

 

Não houve pausa. O francês voltou a atacar o rapaz, que estava combalido e aterrorizado. A face suada e ensanguentada de Maldito parecia aterradora. O cabelo, que antes estava perfeitamente penteado, agora voava desgrenhado e solto. Seus olhos faiscavam do furor que só a adrenalina de uma luta traz. O sorriso, que coroava o semblante surrado do francês, dava a Johnny uma sensação que ele nunca vivenciara: pavor do adversário!

 

Mais socos vieram. Um chute violento no plexo levou o inglês para um dos pilares e lá o francês fez a festa. Pânico. O sangue agora espirrava em todos que estavam por perto. Johnny caiu sentado no chão. Seus olhos estavam inchados e ele os arregalou quando viu a canhota surpreendentemente pesada de Maldito se aproximando mais uma vez.

 

“Maldito… Francês!”, pensou, antes de desmaiar.

 

 


Ilustração: Jussara “Gonzo” Nunes

 

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