Mariogame Nº 3

O sinal dos meus pés é invisível agora…

O rio Anhangabaú
É um rio que não há:
Está sepulto debaixo
Do viaduto do Chá.
Tem outro rio no alto,
Rolando pra lá, pra cá:
A multidão está só
No viaduto do Chá.

Cada um com seu tributo,
Com seu toma lá, dá cá,
No passo de contradança
Do viaduto do Chá.
Tal qual monções se aviando
Cada qual com seu pra já
Por sobre um rio havido
Que não tinha mais lugar.

Meu rebanho turbulento
— Minhas alucinações! —
Vai relendo os mudamentes
Entalhados nas feições…
É ver novelos de rios
Desenrolando distâncias…
Assim vão pastando os anos,
Verdes pastos de esperança…

Sob trapos e molambos,
Bem debaixo dos narizes,
A miséria faz seu rancho
De viventes invisíveis…
Em vão esmolando olhos…
A esmo… Sonambulando…
Fantasmas que nem o rio,
Fantasma subterrâneo…

Vem chuva lavar o vale!
Fogem farrapos em farrancho.
Águas e ventos guaiando
Prantos por rios defuntos.
E a correnteza arremete,
Que seu lema é avanço,
Recomeça em todo braço,
Traça o rumo, risca o traço…

A multidão está só
No viaduto do Chá —
Cada um com seu minuto,
Cada qual com seu jamais.
Ronda que ronda, o rondó
Nunca acaba de acabar —
A multidão está só
No viaduto do Chá.

 

(Poema integrante de “Mariogames”, série de falsos mariogramas psicografados em 1993, por ocasião do centenário de nascimento de Mário de Andrade. O conjunto será publicado numa próxima antologia “paulistana”, organizada pelo poeta e crítico Carlos Felipe Moisés.)

 

Imagem: Arte sobre foto do vale do Anhangabaú com o viaduto do Chá por cima, anos 2000.

Um comentário para “Mariogame Nº 3”

  1. Dea Conti

    Grande Luiz Roberto Guedes! Baita poeta e escritor. Gostaria de vê-lo editado mais amiúde.

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