Marlene

Marlene sabia exatamente o que queria. Desde pequena.

Nasceu João, mas ainda criança virou Marlene. E se algum amiguinho da escola dissesse o contrário, apanhava. Porque Marlene sabia que, se ela não batesse, ela ia apanhar. Como ela apanhava em casa do pai, que não aceitava que ela se vestisse com as roupas da mãe nem brincasse com as bonecas da irmã.

O pai achava que aquilo tava errado. E a natureza não erra. E se a natureza não erra, quem tá errado é o João, que quer ser Marlene. Que porra de Marlene, o caralho! Filho meu não vai ser veado. Não vai ser chacota na escola e muito menos na vizinhança. Nasceu homem, tem que ser homem. E homem não tem frescura. Não usa maquiagem. Brinco. Não se veste com a roupa da mãe nem brinca com as bonecas da irmã.

Homem não chama Marlene. Chama João, que é nome de homem. Homem não chora. A não ser escondido, quando não sabe o que fazer com o filho que quer ser filha. Marlene é homem. É João. É menino e vai ser homem. E quem manda nessa porra sou eu, que ponho comida aqui dentro. Que pago as contas. Que compro roupa, que trabalho. Que porra eu vou dizer no trabalho para os meus amigos, João? Caralho!

Marlene apanhou e bateu muito quando era criança. Mas sempre foi Marlene. Nunca foi João. E quando foi obrigada a ser João, gritou. E apanhou. Mas a surra não fazia dela menos mulher. Mais homem. Não. A cada surra que ela dava ou recebia, ela tinha mais certeza de que era uma mulher que tava batendo. Apanhando. E era isso que importava.

Na adolescência, Marlene saiu de casa. Se não saísse, o pai ia matá-la. A mãe já tinha morrido por dentro. Fazia tempo. Só chorava. Mais que o pai. Mas o choro da mãe não era escondido. Era na frente de todo mundo. Da vizinhança que dizia que o que faltava naquela família era uma religião. A palavra de Deus. Aquilo era castigo pela amante que o pai arrumou, engravidou e abandonou depois que soube que a esposa também tava grávida. Aquele filho talvez nascesse normal. Diferentemente desse, não fosse veado. Mas o que tá feito, tá feito. Já foi. E o filho nasceu. Nasceu João, mas quer ser Marlene. Por quê?

Marlene viveu na rua. Na casa de amigo. Depois na rua de novo. Usou álcool, maconha, cocaína e mais um monte de coisa. Aceitava tudo que ofereciam, afinal de contas, era a primeira vez que ofereciam alguma coisa pra ela que não fosse tapa, soco, chute ou ofensa. Que davam opção de escolha. Por pior que fosse, era bom. Era liberdade. Se fazia mal, foda-se, era ela quem escolhia. Marlene fazia o que tinha vontade de fazer. Era mulher de verdade.

Marlene se prostituiu. Fez sexo, amor, se apaixonou, transou com homem, mulher, casal, fumou, cheirou, ganhou dinheiro, perdeu dinheiro, neurônio, voltou a apanhar e a bater, mas agora sem ouvir o nome de João. Agora só existia Marlene. Menos no RG, que ainda era João. Então, um dia Marlene rasgou o RG. E rasgou em pedacinhos, bem pequenos, para que ninguém pudesse achar e juntar. Descobrir que na verdade ela era ele. Marlene matou João. Esquartejou e espalhou os seus pedaços na lixeira da sua área de serviço. Sorriu vendo os papeizinhos se perderem em meio a latinhas de cerveja, camisinhas usadas e cascas de frutas. Sorriu como uma assassina profissional. Assassina não, justiceira. Matar João não era crime. Crime teria sido abortar Marlene. Ter estirpado o feto que nasceu doente, segundo o seu pai. Doente é o caralho! Marlene era perfeita. Linda. Gostosa.

A sua vida tinha acabado de começar. Marlene não sabia se seria feliz, mas com toda a certeza seria livre. E o melhor, seria a mulher que sempre sonhou em ser: Marlene.

Créditos da Imagem: www.atandalucia.org

Um comentário para “Marlene”

  1. Cláudia

    Gustavo, só passei para dizer que achei o texto sensacional. Parabéns pela qualidade do mesmo.

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