Minha Manoela

 

Minha Manoela,

 

(almejo ainda poder chamá-la de minha)

 

As palavras que escrevo irão golpear-te feito pedras atiradas por um guri traquineiro. No fundo, me pergunto se não mereço o título. Dar notícias após duas décadas de sumiço é arte de garoto. A coisa é que estou vivo. Eu sei, é um disparate declarar tal obviedade. Ora, só um vivo escreveria uma carta. Todavia, minha Manoela, melhor fincarmos o fato tal qual estaca no chão. Estou vivo. Não me perguntes como. Só sei que estou. Se fizeres as contas da minha idade, estou beirando os cem. Não faças. Minha existência não convive com exatidão matemática.

 

Evita também pensar na Mercedes. Uma crise de ciúmes pode ser fatal na tua idade. Eu não fugi com ela. Juro-te. Nem Mercedes, nem ninguém importa. Tudo sempre foi sobre teu olhar fascinante e teu ciúme aprisionador. Amo-te, Manoela. Só mesmo uma amnésia afastaria-me de ti.

 

O dia de meu sumiço foi confuso. Fora ter com Mercedes (desculpe-me a sinceridade, depois do que me aconteceu, parei de mentir). No caminho da casa dela, perdi a consciência. Naquela época, tu estavas somente com sessenta anos e eu, oitenta, lembras-te? Acordei em um lar de idosos, sem saber quem era. Lá, fiquei por uma década.

 

Com o tempo, minha memória deu sinal de vida. Lembrei-me do meu nome, dos meus pais, da minha infância. Meu corpo também reagiu. Ao invés de envelhecer, eu rejuvenesci. E não é modo de falar, acredite. Voltei a ter mais carne, músculos, fios de cabelo, e menos rugas. Os homens invejavam, as mulheres paqueravam. Um dia, fui expulso do lar de velhinhos. Me pegaram no ato com uma enfermeira cinquentona (de novo, perdoa minha sinceridade). Na década seguinte me dediquei à noite. Botecos, álcool, mulheres, quartinhos e cigarros. A cada réveillon, um ano a menos para mim. Fiz desaniversários sem compreender o que acontecia.

 

Na semana passada, estava no bar, quando a banda tocou Can´t Help Falling in Love. Nossa música, lembras? Primeiro, o teu cheiro de flor me tomou. Depois, fui invadido sem dó por tua risada, tua voz e teu olhar, como no dia em que nos conhecemos. Me dei conta dos nossos trinta anos bem vividos e dos outros vinte desperdiçados longe de ti. Lembrei-me da nossa vida, do nosso endereço, do nosso telefone de casa. Liguei na mesma hora. O número não existe mais. Desabei. Veio o medo de ter te perdido. A dama que me acompanhava (sim, havia uma) me chamou de maluco. Abandonou-me assim que contei toda a história.

 

Nos dias seguintes, reuni coragem para escrever esta carta. A história é absurda, eu sei. Todavia, descobri minha máxima: a única certeza da vida não é morrer, mas amar. Eu pulei a morte, mas não o amor. Duvidas de que eu deveria ter morrido na noite do sumiço? Entretanto, estou aqui. A cada dia, remoço, renasço, ressuscito, desnasço, como tu preferires. Não questiono nada. As coisas apenas são. E eu só quero ser ao teu lado.

 

Sei que deves estar receosa com tua aparência. Mas estou ciente dos teus oitenta anos. Não te envergonhes da tua velhice. Quero estar contigo a qualquer custo. Se duvidas das minhas palavras, olha pela janela. Estou do outro lado da rua. Procures pelo jovem e aflito senhor. Não te demores, eu imploro.

 

Sempre teu,

 

J.

 

*Gê Martins é escritora, jornalista e integrante do Palavraria Coletivo Literário.

3 comentários para “Minha Manoela”

  1. Germano Gonçalves Arrudas

    Germano Gonçalves Arrudas

    A nossa música nunca mais tocou. Não sou critico literário, mas vi em seu texto uma carga rica de elementos poéticos, valeu!

  2. Shellah Avellar

    Shellah Avellar

    UAU!
    Gê Martins!O seu texto é sincopado.Tem um balanço e uma métrica que me mobiliza.Me faz criar e me aperfeiçoar.Bom de ler!bom pra refletir.Neste caso especialmente,pq conheço alguns homens com o perfil de J.Mulherengos ,sedutores e fiéis À parceira daquela momento.Nem por isso menos interessantes.Apenas não podem fugir a seu destino de caçadores.Bjkas kósmikas!

  3. Priscila

    Belo texto. Muito interessante. Não conhecia. Parabéns pela escolha!

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