Monstro?

Estaciona o carro e olha para a rua escura, vazia e silenciosa de um bairro pacato. Os postes iluminam pouco o asfalto molhado, mas daria para enxergar alguém se aproximando, se houvesse alguém andando a essa hora, chega a ter certa tristeza no ar. O homem em frente ao volante vira a cabeça e olha para a casa ao lado, uma pequena mureta com um portão pequeno de ferro, um pequeno espaço com um gramado, tão pequeno que nem dá para chamar de jardim. Ele Inspira fundo. Sente-se culpado, sente-se mal por chegar a essa hora da madrugada. Com sua maleta nas mãos, sai do carro, o vento frio da madrugada o pega de surpresa e com a outra a mão ele fecha a lapela de seu paletó e caminha em direção a casa.

Cuidadosamente pousa a mala para não fazer barulho e, com a mesma cautela, gira a chave na tranca, não quer acordar todo mundo e assustar a todos. Uma vez dentro com a porta devidamente trancada, vai até a sala e encontra uma foto da família, observa por alguns momentos a beira da janela, não queria acender a luz para a iluminação não chamar a atenção. Pergunta-se se era isso mesmo que sua vida significaria. Uma eterna mentira? Não quero mais ter essa vida, se é que posso chamar isso de vida.

Foi surpreendido por uma presença que o observava próxima a mala. A luz acende, seus os olhos doem.

— Chegou tarde dessa vez. O que aconteceu? — pergunta a mulher a sua frente.

— Problemas na estrada. Estava com fome e não achava um retorno, sabe como é Lidia. Está aqui há quanto tempo? — responde com essa desculpa somente para prolongar a conversa, pois a bela mulher tem o olhar de saber da verdade mesmo que tenha escondido. Já o conhecia há muito tempo…

— O que foi? Começou a ficar sentimental? Olhando essa foto antes de se instalar, como se se importasse muito! Você faz isso há anos, sempre foi o exemplo de frieza para todos nós e agora pego você olhando pra foto que significa nada para você.

— Mas poderia significar. Você nunca entenderia, apesar de estar ao meu lado todo esse tempo, me sinto cansado de tudo isso agora e não vejo mais a graça que via antes. Depois de anos nisso, parece que coloquei uma máscara em algum momento e ela não quer mais sair. Sinto-me confuso. — Para repentinamente, não pode demonstrar sentimentos fracos, essa é a regra que ele sempre levou consigo e que ele ensinava a quem quisesse aprender. Um bom modo de sobreviver, segundo ele.

— Bom, então por que você está aqui? — pergunta Lídia curta e grossa.

— Você me mandou a mensagem, então eu vim.

Ela observou comprimindo os olhos de um jeito penetrante e julgador que ele desviou no mesmo segundo pela vergonha que sentia de estar fraco na frente dela e que não tem porquê de continuar tal conversa.

— Estou com fome ainda, acredita? — tentou desviar o assunto.

— Acredito. Dá para ver que você anda variando, que você não conversa direito, que está fraco Júbilo. — ela disse em tom de provocação e ele caiu na armadilha.

— NÃO ESTOU FRACO! — respondeu descuidadamente gritando dentro da casa.

No mesmo instante esticou o pescoço achando que havia despertado alguém, mas o silêncio continua para seu alívio. Eles ainda dormem profundamente, menos ela, que o julgou novamente com o olhar pelo descuido.

— O que fazemos das nossas vidas? Se é que isso é vida o que temos. Sabe, minha querida, esses dias que me afastei, estivesse pensando, o que faz a minha sobrevivência ser mais importantes do que a deles?

— Você está louco?! Perdeu a noção das coisas? Eles são a pior a espécie de monstro que existe, matam sem questionar, assassinos sem motivos, roubam daqueles que mais precisam, não tem o mínimo de escrúpulo! Você nos ensinou isso! Você me ensinou tudo isso. Sempre fomos atrás dos culpados somente! E agora estamos aqui! E sorte sua de eu ser inteligente o bastante para drogá-los antes que você chegasse, porque esse seu chilique teria acordado todo mundo, com certeza! Agora larga essa merda de porta retrato e vamos!

— Mas será que não fomos extremos? Esse ódio todo vindo de nós, isso não nos iguala a eles? Nunca procuramos entender o lado deles, são tão perdidos… às vezes sinto pena deles, sabe? — respira fundo —  Acho que estou ficando velho demais para isso…

— Você veio até aqui pra falar que está fora? Não tem como sair disso, você sabe muito bem! Essa última viagem deveria ter ido junto com você. Você não está bem, mas agora temos que fazer isso!

— Está bem! Mas essa é a ultima vez. Depois eu me viro!

Ele colocou a foto da família de volta em cima da televisão, foi até sua mala e foi interrompido novamente pela jovem garota, dizendo que não seria necessário ela já havia preparado tudo, só pediu para que a seguisse até a cozinha.

Com certeza a ensinou muito bem! Estão estirados no chão frio de azulejos brancos amarrados, amordaçados e vendados. O ambiente todo está forrado com lona, esse era um esquema combinados com eles dois. Dopam-se os alvos e mesmo assim imobilize-os, pois ainda assim podem acordar e tentar fugir, a lona se usa porque é de costume fazer muita sujeira.

Sente-se orgulhoso da garota, o preparo ficou impecável, ela se atentou a todos os detalhes. Aquela montagem está quase o trazendo de volta, quase esquece completamente da viagem que havia feito, da mulher doce e gentil que havia conhecido, fazendo-o perder o rumo de sua real natureza. Ele observa minuciosamente o ambiente, até tropeça em um dos corpos adormecidos.

— Então, pronto?

— Pronto! Começamos por onde, crianças ou o marido e mulher? — respondeu decididamente.

Escolheram as crianças por piedade, não queria que tivessem chance de verem os pais estraçalhados.

Cada um se ajoelha próximo ao corpo que deseja, Lídia sorri vendo que seu parceiro havia voltado, com olhar mortal apesar da idade.

As unhas começam a crescer expansivamente e engrossam a cada milímetro, os dedos se retorcem e atrofiam bruscamente assim como a boca de sua parceira, o maxilar desce até a cintura com seus horrendos 54 dentes. Júbilo sente-se pronto, e aplica um golpe limpo abre ao meio o tórax do menino, sangue espirra para todos os lados! Ele tem certeza que está de volta! Um suspiro de glória se afunda nas entranhas devorando a carne do garoto com vontade. O sabor da carne humana, seus fluidos e restos de órgãos espalhados no rosto, impossibilita negar que ama, ama fervorosamente tudo aquilo! Logo após, comeram os pais da mesma forma bizarra e assustadora, ambos se banham com as vísceras e se deliciam com cada pedaço de tripa e músculo que mastigam. Como é inevitável, o lugar está completamente vermelho, uma das criaturas estica sua larga e comprida língua e lambe com gosto a lona manchada de sangue, não quer que nenhuma gota escape! Estão famintos!

Já são cinco da manhã, logo amanhecerá e eles precisam limpar os rastros e fugir enquanto está escuro, com à luz do dia fica mais difícil dispensar os restos.

Rapidamente ainda sujos de sangue, puxam a lona e enrolaram tudo, improvisando um grande saco de lixo, tomando o máximo de cuidado para não vazar dentro do porta-malas. Jogam os restos em uma beira de estrada qualquer e ateiam fogo.

O velho ser está de corpo presente ao lado de Lídia sua fiel escudeira, mas seus pensamentos estão distantes. Começa a refletir sobre toda sua história de mais de um século e chega a uma conclusão. Guerras, armas nucleares, mísseis, ódio degenerado, genocídio, máquinas de tortura, tudo isso causado pelos humanos, então por que se sentir culpado? Eles têm de ser exterminados. O pior monstro da face da Terra.

 

Imagem: leocrash.files.wordpress.com

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