A morte do seu Zino

Seu Zino ia morrer. Se não hoje, amanhã ou depois. Logo, logo. E não eram só o Tião, o Carlinhos e o Jorge que tinham essa certeza. Amigos há longa data do velho condenado, eles convenceram a pequena vila a beira mar de que seu Zino, de fato, estava pelas últimas.

Não, nenhum dos três tinha um diploma de medicina. Eram pescadores. Homens simples, mas que muito mais do que as ciências do corpo, conheciam as coisas da vida e as mazelas da alma. E o seu Zino, claro. Estudaram pouco, trabalharam muito e perceberam que o amigo estava definhando aos poucos. Condenado a uma pena dolorosa. Maldosa. Daquelas que faz questão de exibir toda a sua crueldade no corpo do pobre infeliz que por azar, descuido ou uma vida desrregrada, fora escolhido.

Tudo começou com o reumatismo. As dores nas pernas, nas costas e um pouco de desleixo levaram Zino para a cadeira de rodas. Foi nessa época que os amigos começaram a se preocupar. Por mais que insistissem, não adiantava. Seu Zino se considerava bem e não queria sair do pequeno vilarejo para se tratar na capital.

Depois foi a pressão alta, diabetes e uma sequência de pequenos avc’s, que fez com que Zino que já era quieto, ficasse ainda mais entregue a sua velha TV de tubo, onde passava os dias zapeando pela meia dúzia de canais que tinha à disposição. Pouco falava. Pouco dormia. Pouco se alimentava. Vivia por insistência. Sobrevivia por um desses tantos mistérios que existe na terra.

Por uma triste coincidência, sua esposa, dona Zefa, seguia o mesmo caminho. Infelizmente, diziam os vizinhos. Uma mulher tão forte que agora vivia em casa com uma gastura na barriga que ninguém sabia da onde vinha. E o pior, nem para onde a levaria. As tripas pareciam que se enrolavam, dando um nó cego nas entranhas da mulher. É a vontade de Deus, resignava-se.

Mas quem não aceitava de jeito nenhum essa situação eram Tião, Carlinhos e Jorge. Esses não se conformavam com o estado crítico em que vivia o casal. Por mais temente a Deus que fossem, não podiam crer que aquilo fosse castigo. Não para aqueles dois.

Com o filho não dá para contar, disse Jorge, secando o copo de cerveja no bar da dona Aurélia.

Esse aí só ta preocupado em ganhar dinheiro. Não liga mais para os pais. Não adianta, concordou Tião.

Ele só aparece por aqui uma, duas vezes no ano. Eu já tentei ligar para ele mas a secretária sempre diz que ele tá ocupado. Vê se pode, ocupado pra falar sobre o pai e a mãe. Caso de doença, eu disse, e nada. Sempre manda ligar mais tarde. Liguei, religuei e cadê ele? Emendou Carlinhos.

Olha, vocês que são os amigos mais próximos vão ter que resolver isso aí, viu? Eu já falei mil vezes, gritou dona Aurélia enquanto trazia mais uma garrafa para mesa. Depois pediu ajuda ao menino que trabalhava com ela para levar o engradado lotado que jazia no chão e servia como mediador e conselheiro sobre o que fazer no caso do velho adoentado.

Enquanto isso os dias se arrastavam na casa de Zino e Zefa. Ele, sentado em um sofá velho e rasgado, sobre uma colcha que parecia estar ali há anos, de cor branco amarelado, focava a sua atenção na esposa que tentava bordar uns paninhos em uma cadeira de madeira desconfortável ao lado do sofá. Eram apenas os dois, que haviam trocado os sonhos de uma vida inteira por uma espera silenciosa e dolorida.

A campainha tocou e dona Zefa teve dificuldade para chegar até a porta. Entrem, entrem, vocês sabem onde o Zino tá. Sentem com ele que eu preciso ir no banheiro, hoje a minha barriga tá me matando.

Carlinhos, em silêncio, logo reparou no pé do velho, mais inchado do que na última visita. Jorge também não falou nada, mas percebeu a dificuldade que Zino teve em levantar o braço e apertar a sua mão. Tião não viu nada de diferente e foi isso que o preocupou. Já podia sentir o cheiro da morte na casa. Conhecia ela de perto. Se salvou de uma tempestade no mar que destruiu o seu barco e matou dois pescadores que estavam com ele. Foi o único sobrevivente. Sentia-se especial. Predestinado. O único dali que, talvez, pudesse ter a resposta para aquela equação quase insolúvel de como salvar a vida do velho amigo.

Foi Tião também quem sentiu uma tontura ao se levantar para ir ao banheiro. Deveria ter parado de beber antes. Enquanto urinava se perguntava porque nunca ouvia o seu instito e recusava a saideira. Agora estava ali. Tonto. Com uma dificuldade tremenda de acertar o vaso.

A conversa na sala foi interrompida por um barulho seco. Dona Zefa! Gritou Carlinhos. Seu Zino arregalou os olhos. Era tudo o que o seu corpo permitia fazer. Carlinhos e Jorge correram e encontraram a esposa de Zino batendo na porta do banheiro. Abre, Tião! Tião! Tião!

O coração dele estourou, disse Jorge a um parente distante que não acreditava na morte de Tião.

Quem diria que um homem que sobreviveu a um naufrágio, lutou e venceu o mar, morreria ali, na casa de um velho doente, em um final de tarde qualquer, coberto pela prórpia urina. Que derrota humilhante. Tião se foi e Zino não conseguiu se despedir do amigo. Foi tanto o alvoroço de gente para arrombar a porta e tirar o corpo do falecido do banheiro que ninguém lembrou do velho no sofá da sala. Zino viu toda a movimentação em silêncio. Desligou a TV e se virou para a janela. Com muita dificuldade conseguiu fechar a cortina. Não queria ver o mar. Encostou a cabeça no sofá e fechou os olhos.

Foi na missa de três meses de Tião que Lucicleide, esposa de Jorge, contou ao vilarejo que o marido pegou uma tal de virose que não tinha jeito de sarar. Há duas semanas internado, não tinha previsão de alta do ambulatório. Tudo que comia saía. Por cima, ou por baixo, disse dona Zefa ao Zino, depois de visitar o amigo do marido.

A TV já não conseguia mais prender a atenção do velho. Zino passava os seus dias abrindo e fechando a cortina da janela. Olhando o mar. O horizonte. Parecia brincar de esconde esconde com o sol no horizonte.

Foi Zefa que trouxe, depois de alguns dias, mais um triste notícia para o companheiro. Não deu, Zino. Não deu para o Jorge. Ele foi encontrar o Tião. O Jorge se foi, meu velho.

Zino respirou fundo. Abaixou a cabeça e aceitou mais uma derrota.

Aos poucos Carlinhos foi se afastando de Zino. Se via cansado em tentar, sem sucesso e agora sozinho, salvar a vida do amigo. Muitas vezes, mesmo que em um tom quase inaudível, ouviu grosserias e recebeu patadas de um Zino já sem paciência por tanta cobrança. Carlinhos se martirizava por ser o último a quem a vida deu a chance de convencer o velho a viver. Era dele a responsabilidade de assumir o papel de protagonista, de anjo da guarda, mas ele acabou fracassando antes mesmo de entregar os pontos na luta contra a teimosia de Zino, perdendo a batalha contra o álcool.

A cidade ficou em polvorosa. Ninguém queria contar ao velho Zino que o seu  último grande amigo também tinha morrido. Todos sabiam que no atual estado, uma notícia ruim poderia minar a resistência do velho e acabar de vez com a sua vida.

Sobrou para Zefa a triste missão de revelar a verdade. E foi com calma que ela chegou em casa e, para sua surpresa, encontrou Zino com a cortina da janela completamente escancarada. A visão do por do sol chegou a incomodar a sua visão, e com muita calma ela pediu para que o marido fechasse a cortina para que eles pudessem conversar.

Zino obedeceu a esposa, e quando se virou Zefa pode ver o sofrimento do velho transformado em choro. Desespero.

Meu velho, o que a gente pode fazer contra a vontade de Deus?

E pela primeira vez, em muito tempo, foi possível ouvir um grito de Zino. Um grito de dor. De lamento. Zefa abraçou o marido, fez um cafuné na cabeça dele e contou sobre a morte de Carlinhos. Mas Zino já sabia de tudo. As ondas do mar, no seu leva e traz diário, já tinham fofocado a notícia. E não era por Carlinhos que ele estava triste. Muito menos por Jorge ou Tião. Ele estava triste com o universo. Esse universo injusto que faz com que um velho cansado e doente tenha que viver, mesmo contra a sua vontade. Esse maldito universo que leva gente que ainda pode viver muito embora. Que mata pessoas injustamente e condena a uma cadeira de rodas outras que já cumpriram a sua missão.

Zino voltou a abrir a janela e a praguejar os piores palavrões contra o mar, o sol e o maravilhoso e egoísta final de tarde. Que eles ficassem com a sua beleza e com a admiração de todos. A ele, eles não enganavam mais. Sabia exatamente da sua falsidade e não desistiria, agora mais do que nunca, da sua morte. Com certeza uma hora ela iria chegar para que enfim, ele descansasse em paz.

Imagem: http://xiquexiquense.blogspot.com.br

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