Moto-contínuo

Por estes caminhos inusitados, através dos quais a vida nos carrega pra lá e pra cá… e denominamos inadvertidamente de acaso, e Jung de sincronicidade, fui convidada, via redes sociais, pelo editor Rodrigo Simonsen para o lançamento do livro “Depois do Fim”, no Clube Círculo Militar, em São Paulo.

Pelo sobrenome do autor, Bezerra de Menezes, e o título do livro, “Depois do Fim” (Editora Simonsen, 189 páginas, 2016), julguei tratar-se de romance espírita. Como, normalmente, estes livros estão disponíveis na FEESP (Federação Espírita do Estado de São Paulo), com preços acessíveis, deixei em stand-by.

Entretanto, algo me movia a entrar na página da editora Simonsen e vi que o historiador e professor Leandro Karnal, amigo de Alex há quase 12 anos, teria escrito a orelha, sugerido o título e estaria lá presente.

E a orelha é, por si só, uma sinopse que registro aqui: “O pano de fundo deste romance é o Brasil e suas mazelas, entre 1990 e 2002, trazendo à luz as metamorfoses da Terra de Santa Cruz entre a promessa liberal de Fernando Collor de Mello e a promessa socialista de Luís Inácio Lula da Silva e o que ocorre entre estas duas utopias polares e complementares”.

Acrescenta ainda: “No proscênio, uma obra do holandês Frans Post, labirinto de vários Brasis que não existiram de fato, retrata nossa moral cediça, nossos arranjos e acertos e nossos compromissos elásticos com a ética”.

Ops! Então me dei conta de que era um romance. Isto tudo num átimo de segundo, enquanto o táxi, pasmem, estava praticamente em frente ao Círculo Militar.

Não tive dúvida. Saltei e lá fui eu conhecer o autor, seus amigos e outras histórias. Mas que, apesar de ilustre, não é herdeiro do respeitado médium Bezerra de Menezes.

Depois de um rápido e fértil debate sobre o livro, no auditório do clube, aguardei serenamente numa fila populosa e morosa.

Pois assim, então, fui introduzida (como dizem os norte-americanos) ao Alex Bezerra de Menezes.

Alex me recebeu com carinho e gentileza naturais, que lhe são característicos, descubro. E assim começa esta saga.

Chuleando o bordado

Como de hábito, antes de adquirir um livro, abro ao léu uma página. Leio, e folheio as primeiras páginas. Se o livro não me pegar ali, não me prenderá nunca mais.

Abri a 11ª página, em que o autor, envergando o traje da personagem “professor-narrador”, descreve um entardecer na Avenida Paulista, na capital paulista, onde nós dois vivemos: “É a lua rompendo sua prisão, sitiada por nuvens, algumas com as bordas em violenta cor púrpura, resultado das últimas gotas de luz entregues pelo sol poente”. A avenida abriga o Masp (Museu de Arte de São Paulo), que ele qualifica como “concreto animal mecanizado na iminência de dar o primeiro passo”.

Ali me deparo com seu estilo de “bordador”, feito de contornos suaves e precisos, que alinhava e chuleia a nossa língua portuguesa, num estilo surpreendentemente peculiar para um escritor do século XXI: esbanja o preto e branco do realismo de cunho mais naturalista da segunda metade do século XIX, a exemplo de autores como Machado de Assis e Aluísio Azevedo e livros como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “O Cortiço”.

Entretanto, Alex refuta assim esta hipótese: “Em ‘Memórias Póstumas’, Machado inaugura uma impossibilidade, uma vanguarda que nada tem a ver com o realismo que a crítica insiste em evocar. Para ele, o romance é no fundo anárquico, descolado dos modismos literários de então e até de hoje. Rotular o grande literato brasileiro só diminui sua fortuna crítica, porque ele transcende contingenciamentos. O ideal seria fazer dele, e de sua obra estupenda, um ponto de reflexão”.

Não me contive e postei no Facebook meu depoimento sobre este seu “estilo”.

Ele me convida a participar de um grupo (onde estão sua mulher e seus amigos) no WhatsApp cujo objetivo seria debater o livro.

Este aconchego nos aproximou. Já começamos uma amizade e até já nos encontramos todos para um jantar bastante agradável.

Daí, até chegar à entrevista, foi um pulinho, entremeado por alguns percalços de agenda.

E cá estamos.

Alex_Bezerra_de_Menezes credito divulgação

 Retrato em branco e preto

Quando peço ao Alex uma definição de si próprio, ele hesita. Não quer se elogiar, nem tampouco se diminuir. Mas ao vivo e em cores pude pescar alguns arremedos vitais.

Desabafa: “Topo qualquer parada que a vida me apresentar”.

Alexsandro Bezerra de Menezes nasceu em 21 de abril de 1972 (e Machado de Assis em 21 de junho de 1839), em Jaboatão [Yapoatan, árvore da região, usada para fabricar mastros e embarcações] dos Guararapes [referência às duas batalhas travadas e vitoriosas contra os holandeses nos Montes Guararapes], a quatorze quilômetros da capital pernambucana. Por conta disso, a cidade se autointitula “berço da pátria”.

De origem humilde (assim como Machado de Assis), repete a velha história do pai que vai embora e deixa que a mãe se ocupe do sustento e educação do menino.

Pernambucano arretado, exercia as estripulias próprias do moleque travesso, bom de bola, com direito a rompantes de fantasia sideral. Lá pelos 7 ou 8 anos, via e “rolava um lero” com alguns seres que se apresentavam como “extraterrestres” [pero que los hay, los hay].

O pai reaparece aos seus 10 anos.

E, aos 15, Alex vem para São Paulo, para conhecer os outros irmãos da nova família, com quem tem um relacionamento amistoso até hoje.

Aqui, na Pauliceia Desvairada, trabalhou com o pai em seu comércio, e depois comprou uma Kombi velha e entregava jornais por aí afora.

Mais tarde foi para uma pensão, porque já estava mais do que na hora de tomar seu rumo.

Foi dos filhos o primeiro a ter curso superior, não sem penar antes num curso supletivo.

“Inocência”, de Visconde de Taunay, foi o primeiro livro a ser devorado.

E, aos 29 anos, leu febrilmente, por dezoito vezes, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado. Até que teve de escondê-lo de si mesmo, por conta da obsessão que isto lhe causou.

Depois foi Charles Dickens, Fiódor Dostoiévski, Franz Kafka, John Steinbeck e outros. Nunca mais parou.

Hoje está diante de mim o empresário bem-sucedido, advogado e sócio da holding Concrettize e da Arena Engenharia.

Bem-casado com a bela Vanessa, com quem teve dois filhos, Miguel, 5 anos, e Felipe, 9 meses.

Apesar de tudo, para quem tem olhos de ver, lá está o menino, por vezes tímido, por vezes ousado. Mas sabendo seu lugar no espaço nosso de cada dia.

E nasce o autor

Bancou seu primeiro livro, o volume de contos “Incandescências”, que me foi presenteado. E me foi sugerido por ele que lesse o último conto, “O Bibliômano”, já por conta de minha mania etnográfica, e de meus rompantes metafísicos, que me trouxeram até aqui.

Lá ele descreve um sonho ou realidade transcendental, em que se encontra com Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho.

Diz: “Chega até a ser agonizante minha relação com o livro, publicado na primavera de 2005. Feito em carne viva, de forma absolutamente precária sob todos os aspectos, mas tinha a noção de que aquilo era um ensaio para algo que poderia ser um pouco maior. Fui audacioso em escrever o primeiro livro: vindo do nada, ter um livro publicado já era uma glória. A sorte favorece os audazes, aprendi com o grande Virgilio [o poeta clássico romano]”.

Acontece que as construções complexas de Machado são muito presentes na linha literária de Alex. Mas tão presentes, que assustam, positivamente.

Pergunto o porquê da paixão por Machado, quando começou. E se teria também forte influência de outros autores: “Não sei explicar ao certo, mas me apaixonei antes pela biografia do Machado do que pela sua obra. Um sujeito como ele é um caso a se pensar, dá até para acreditar que Deus existe, e que o fabricou pessoalmente… De qualquer forma, eu tento me livrar da angústia da influência, como bem definiu Harold Bloom [crítico literário, autor de “A angústia da Influência”], mas não é fácil. Bebo na fonte desses grandes sujeitos, amo os clássicos, mas tenho um olho voltado para o que se produz hoje, porque enche um pouco o saco todo mundo só citar os medalhões”.

Só para lembrar, Machado de Assis é considerado um dos grandes gênios da história da literatura mundial, ao lado de autores, como Dante, Shakespeare e Camões.

As personagens de “Depois do Fim”

Com a narração em primeira pessoa, conta a história partindo de um relato de narrador e protagonista, o Professor, que conduz o leitor tendo em vista sua visão de mundo, seus sentimentos e o que pensa da vida.

A avó Isabel cede o nome e alguns traços. Porém, o autor a idealiza em conhecimentos de literatura e sapiência que não correspondem à realidade.

Tinhorão Mofarrej (Timo), o caseiro, uma espécie de pai – avô que permeou a infância das personagens. Ajudando a avó a tomar conta dos meninos.

Liela, a moça dos sonhos eróticos da adolescência. Que, além de bela e sexy, também acumulava o atributo trágico de cadeirante, após um acidente nos anos 1980. O que a tornava ideal para o imaginário masculino ao derredor. Ela dá o tom no roteiro dos acontecimentos, como observadora privilegiada, atriz e psicóloga “sem carteirinha”.

JC, o irmão bon-vivant, um malabarista da vida, mas que encantava a todos com seu savoir-faire inato e suas investidas na amoralidade acumulando amigos do alto e baixo clero.

Maria encarna a elite, com seus peignoirs de seda, e filantropa de rapazes para matar o tédio e engordar seu acervo de relíquias, quinquilharias de arte e vazio existencial.

Lorenzo Altobeli, italiano, bem-nascido, que dividiu as travessuras e molequices com o narrador, numa destas parcerias cujas barreiras só a infância é capaz de ultrapassar.

Mercier Glinoer, o marchand, expert em tráfico de influências no mercado mais cobiçado do planeta, o das artes.

A tela do pintor holandês Frans Post, personagem-esqueleto que se perde e se acha como objeto de desejo para fazer a trama deslanchar.

As outras personagens que engordam a história, vocês conhecerão por si mesmos.

A construção do fim

Os capítulos são orquestrados com parataxes, ou seja, não existe um sistema de ordenação. Aqui, a estética é uma ferramenta de subversão do cult e contradiz sua forma de se apresentar ao mundo. Realidade e abstração convivem numa cumplicidade que resulta em “nós de marinheiro”. Por isso, não creio que alguém não familiarizado com os meandros da literatura revolucionária de Machado possa se sentir à vontade com este texto, que intriga e desafia nossa memória e nos faz ler e reler e ir em frente e voltar várias vezes ao já lido em capítulos anteriores.

Um violento sobressalto do que não acontecera, mas se poderia imaginar, assim como num filme de Godard.

Há subtextos e intertextos tão embutidos e irônicos, que somente os profissionais da arte de ler, os bem informados do panorama nacional econômico e político e os vorazes leitores podem se permitir compreender, ainda assim correndo o risco de se enganar.

Questiono se o cenário político foi proposital, e ele dispara: “Sim, porque entendo que o momento crucial do Brasil foi a retomada da democracia e percebemos que de tanto a querermos não sabíamos exatamente o que fazer com ela. Oscilamos entre o liberalismo corrupto de FHC e o pseudossocialismo petista que nos levou à bancarrota. Somos despreparados mentalmente para nos governar. Eu chamaria algum ditador com experiência sei lá, do Zaire, para nos ensinar a fina arte de governar um povo tão insalubre como o brasileiro. Viva o povo, ele tem não o que quer, mas o que merece”.

Depois de “Depois do Fim”

Na minha opinião, o narrador tem um quê de semideus, ou mesmo de criador implacável, porque descreve situações e personagens com uma língua afiada, por vezes ácida, sem dó nem piedade dos pobres seres ali envolvidos e suas mazelas, próprias desta nossa raça tão desumana.

Os detalhes da fragilidade reduzida à sua expressão mais simples de imperfeição. Todos os pecados capitais são ali retratados com minúcias de cirurgião experimentado.

Porém, a bola da vez, com certeza, é a inveja do narrador por seu irmão, que, misturada com amor, resulta num coquetel de ingredientes tóxicos que é sorvido lentamente através de confidências cifradas.

Sua obscuridade o apavora e uma vez tendo perdido o pivô de seu sentimento mesquinho e contraditório, não se vê mais capaz de retornar à cena depois da ruptura fatal.

Atirei no que vi. Acertei no que não vi

Já finalizando a entrevista, me levanto e vejo uma foto de Alex com o Jô Soares. Pergunto se foi lá no talk-show falar do livro. Ele diz que não. A foto era de 2012, quando foi falar de Alexandre, o Grande.

Embora o historiador Leandro Karnal já tenha mencionado o autor como biógrafo destacado de Alexandre, o Grande, tentei focar no livro “Depois do Fim”.

Daí, toco no assunto e seus olhos se iluminam.

Me mostra as medalhas e miniesculturas de Alexandre e lhe pergunto se a paixão pelo Magno é por conta da homonímia. Ele diz que não. E entusiasticamente relata: “Talvez porque ele, Alexandre, não seja humano. Não possa se dar ao luxo de ser humano. Já que mira no impossível”.

Veja o autor de “Depois do Fim” falando sobre o grande guerreiro Alexandre, o Grande:

Bate-papo com o autor

Incluo abaixo outros alumbramentos do autor sobre seu romance e o próprio sentido da criação e da escrita:

E o Alex, antes e depois de “Depois do Fim”?

Antes de “Depois do Fim” eu acho que era um pouco maior. O livro me consumiu, que suspeito ter ficado menor que ele, depois dele.

De onde veio a inspiração?

Não houve inspiração no sentido da epifania, não… Tudo para mim é mais sofrido e doloroso porque penso que não tenho o dom natural da escrita e do artista, por isso que vou usar aquele famoso clichê: 90% do que saiu no livro foi transpiração.

Quanto tempo demorou a pré-gestação? E a própria gestação?

O livro vem sendo pensado há dez anos. Cada frase, cada momento, cada cena. Os desafios de transpor isso para o papel foram o que consumiu menos tempo; em seis meses eu coloquei o ponto final no romance, tendo mais seis meses para ajustar os excessos – de vazio.

O processo foi doloroso ou ansioso?

Mais doloroso do que ansioso. Minha ansiedade é reversa; eu quero acabar logo, tirar da frente, dar à luz ao Leviatã e deixá-lo seguir a vida como quiser seguir. Fico tenso quando tudo está terminado, antes, não; quero apenas que as coisas aconteçam de modo a incomodar o mínimo possível a paz que verdadeiramente não tenho

Como foi conciliar a vida profissional e a familiar neste processo?

Um caos. Mas, para mim, tanto faz estar diante de uma calamidade ou de uma serenidade infinita. Conciliar obrigações obrigatórias, como o trabalho e a família, com uma obrigação apenas lateral e dispensável foi um desafio e tanto. Sem saber, eu me divirto com as dificuldades. A Itália, em milhares de anos de guerras e conspirações de Estado, traições, derramamento de sangue sem fim, produziu a Renascença. A Suíça, com séculos de paz, o relógio cuco.

Nada do que está no livro foi tirado de experiências pessoais?

Quase nada. Tudo apareceu como retalhos mentais que formei nas minhas idas e vindas de sonhos, de lugares em que nunca estive, de pessoas que gostaria de ter conhecido e nunca conheci, por isso as inventei.

Não há no seu convívio ninguém parecido com as personagens?

Sim e não. Algumas pessoas que conheço, transpus para o livro, as boas, as cafajestes, as falsas… tentei melhorá-las na ficção, mas falhei feio, elas são tão aterradoras nas suas virtudes e nos seus vícios que nenhuma ficção é capaz de abarcá-las.

Você tem algum irmão parecido com o JC?

Não. Todos os meus quatro irmãos homens são docílimos. Incapazes dos arroubos de venalidade do JC, que é a perfeita mistura entre o ser que sabe viver com aquele que desperdiça voluntariamente a vida, para torná-la mais interessante.

Qual foi o disparador da criação? Escolha do tema? Teve um planejamento formal de cenários, lugares e classes sociais?

Curioso é que o livro esteve esse tempo todo pronto na minha cabeça, mas faltava o tema, o fio condutor que o levaria a algum lugar. E a escolha nasceu como por mágica, na visita a um museu, quando vi um quadro do Post: eis o tema em minha frente. Um Brasil possível, o holandês, e o que temos, o de não sei quem. Sobre o planejamento de cenários, nada. Tudo se deu com as possibilidades das personagens. Elas tinham de viver ali, em meio à poeira urbana indiferente às suas dores, esmagadas por prédios feiosos, concretos, lama, lamúrias… A questão das classes sociais é curiosa. As personagens, sobretudo o professor, transita na dita “alta sociedade” (existe termo mais mequetrefe do que este?) e na baixa sociedade (esse é mais carinhoso, porque perto do divino), com a mesma desenvoltura. Observe que o casebre onde ele foi visitar a tia do Timo não tinha endereço, a casa não tinha número, nem parede, era a casa que poetiza Vinicius de Moraes, “não tinha teto, não tinha nada”. A mansão da Maria tinha o número da casa, 46, e o nome da rua, Áustria. Os pobres no Brasil são indigentes, não têm CEP, não têm origem, “são de qualquer lugar”.

Como está sendo a repercussão do livro? Vendas e retorno dos leitores?

A repercussão de fato ainda não ocorreu, exceto nos círculos mais íntimos. Mas o livro ainda não chegou aos leões para ser devorado e criticado; no entanto, tenho recebido dezenas de mensagens de pessoas que compraram o livro, como a de uma menina lá de Manaus, que disse que recebeu o livro às 18h e só terminou de ler ao amanhecer, mas que não entendeu muita coisa e iria reler. Acho que Camus [Albert Camus, autor do romance “O Estrangeiro”, entre outros] disse que a arte em Kafka se dava porque obrigava o leitor a reler. Veja só, fui ser igual a Kafka logo no defeito [risos].

Como você define a literatura hoje no Brasil, considerando-se que 44% não têm hábito de leitura e 30% da população nunca comprou um livro?

Pobre, triste, melancólica. Claro que se produzem bons autores, mas não adianta tê-los se ninguém os lê. Além de que a literatura se parece mais com uma “Fogueira de Vaidades”, parafraseando o termo cunhado por Tom Wolfe [jornalista e escritor norte-americano], mas que no Brasil isso é elevado à quinquagésima potência. Acho que nem no mundo das top models existe tanto ego como no mundo dos escritores, “Ô seres travestidos de cisnes!”. Quanto aos números da pesquisa, discordo deles: 30% nunca compraram um livro? É muito mais. O livro, pela colaboração de escritores enjoados, se transformou num artigo de alto luxo. Mais até do que uma bolsa Chanel. Conheço muita gente que não sabe manusear um livro, pergunta se enguiça, não sabe ao certo como se comportar diante de um livro. A bolsa de luxo é acessível porque há o produto pirata que acaba por aproximar o objeto do grande público, o que é um ótimo negócio para as grandes marcas. Tem prestígio maior do que ser objeto de pirataria? Quem sabe se alguém resolver falsificar um livro, as pessoas podem até se interessar

Quais autores você recomendaria para oficinas de leitura em escolas (Fundamental I e II) e Ensino Médio?

Pergunta difícil. Não sei a resposta. Meu gosto pessoal pode danificar a cabeça da molecada do ensino fundamental [risos]. Para oficinas temos autores que são propícios a isso, como Kafka, cujo arco de interpretações não tem fim, e qualquer um pode falar a coisa mais absurda sobre um texto dele, que fará algum sentido… Para as escolas, jamais indicaria um Machado de Assis. Um figurão como ele amedronta alguém ainda não preparado para um impacto assim. Para seduzir e competir com o wi-fi, eles precisam dialogar com alguém que fale sua língua, como, sei lá, Tolkien [J. R. R. Tolkien, autor da saga “Senhor dos Anéis”]. Ah, mas ele já não está mais na moda.

Você gostaria de deixar uma mensagem para os jovens brasileiros?

Leiam, meus caros. A leitura e a literatura me salvaram da mais formidável miséria existencial e aí se inclui a material. Eu fui salvo pelos livros. Tenho plena certeza (e olha que odeio quem tem certezas, por isso me odeio um pouquinho) de que sem os livros eu não teria chegado tão longe, isto é, além da porta da casa onde nasci, que para mim é o infinito.

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Livro: “Depois do Fim” (189 páginas, 2016)
Autor: Alex Bezerra de Menezes
Editora: Simonsen (www.editorasimonsen.com.br)

Crédito da foto do autor: Divulgação

 

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