Mr. Tambourine Man

Estávamos comemorando o aniversário da Fulana e sequer notamos que ele havia chegado. Entre uma cerveja e outra ele estava ali, montando seu equipamento, torcendo para que essa plateia fosse um pouco mais generosa que a de ontem, onde só conseguiu, por sorte, um copo de cerveja, um pastel de carne e algumas poucas moedas para compor o orçamento semanal.

Ele tinha uma filha pequena e uma esposa aflita. Não tinha formação acadêmica e talento para outra coisa senão tocar algumas notas em seu violão, gasto pelo tempo, quase uma peça de museu. Enquanto os bares começavam seus movimentos na quarta-feira, ele só iniciava seu expediente na quinta, depois das 19h.

Atrapalhar o dia do futebol era quase um pecado em sua profissão.

Nunca conseguiu um lugar para tocar por ser simples demais. Suas roupas, seu cabelo, seu equipamento e, principalmente, seu repertório, eram simples demais. Ele não sabia os maiores sucessos do sertanejo, mas cantava com toda emoção do mundo as músicas do Bob Dylan. Os pagodes mela-cueca eram desconhecidos por ele, mas, se pedissem alguma da Legião Urbana, ele tocava com todo prazer. Por não acompanhar tendências, acabou ficando sem espaço. E sem espaço, com uma filha pequena e uma esposa aflita, foi tocar na rua.

Levantava umas 07h, e, como bom pai, arrumava a pequena Regina para a escola. Pública, óbvio. Sua esposa, Carmem, já tinha saído para trabalhar. Era cozinheira de um restaurante self-service. Depois de levar sua filha para o colégio, voltava para casa e ensaiava, incessantemente, o seu repertório. Afinal, seu publico precisava sempre ter o melhor dele. E, se não fosse o melhor, Regina corria o perigo de não ter o que comer quando voltasse da escola.

Enquanto litros de cervejas eram jogados nas mesas do bar, ele estava ali, calmamente afinando seu violão. Afinal, sem afinação, não seria o melhor. E sem o melhor, provavelmente Carmem iria traí-lo novamente com seu próprio chefe, em troca de um adiantamento do salário.

Em sua face, o retrato do desespero humano: Sua platéia de hoje era formada por mais jovens que velhos. E o que isso queria dizer para ele? Que, em um determinado momento de seu show, alguém iria pedir um som novo, algum sucesso do sertanejo ou um daqueles pagodes mela-cueca que ele não sabia tocar.

O que fazer?

De primeira, dar um sorriso amarelo e dizer que não sabe tocar, como de praxe. Depois? Quando descobrirem que ele não sabe tocar nada que está nas rádios? Que o repertório que está sendo apresentado deveria ser tocado para os pais daquelas pessoas, e não para elas? Eis que ele se retiraria, e torceria para não ser vaiado em sua saída.

Tentava não pensar nisso enquanto escolhia a música para abrir o seu show. Escolheu “Pais e Filhos”, da Legião Urbana. Aplausos e gritos testificaram que havia tomado a escolha certa. Nostalgia da modernidade. Retropia. E lá estava ele, todo feliz, enquanto todos os bêbados – incluso eu – cantavam os refrões e consagravam-no durante a primeira metade do show.

Depois das oito badaladas da noite, ele interrompe a música e começa a passar de mês em mesa, pedindo colaborações em dinheiro e alguma coisa para ele jantar. Alguns clientes oferecem refeições no bar, enquanto em outras mesas, moedas e notas de baixos valores eram distribuídas em sua pequena caixa de sapatos.

Goles depois a segunda parte de seu show continua, agora com um repertório estrangeiro. Decorava as letras em casa, e treinava suas pronuncias. Não fazia idéia do que estava sendo falado nas letras, embora tentasse interpretá-las com a maior emoção possível. Precisava ser assim. Dessa forma, seria o melhor. Fosse o melhor (seu melhor), talvez conseguisse pagar a conta no mercadinho da esquina de sua casa.

Com as onze horas chegando, meus amigos se despediram e foram embora. Notei que a Fulana estava se engraçando com um de nossos colegas, e, com um sorriso de canto de boca, assenti. Tínhamos uma relação livre. Não queríamos ficar presos aos compromissos dos relacionamentos atuais. Preservávamos a nossa liberdade e mantínhamos a nossa vida sexual aquecida.

Decidi ficar mais um pouco, sozinho, acompanhando o músico de rua.

E ele estava impossível. Sucessos dos anos 80, músicas da jovem guarda e sucessos do Cazuza faziam a cabeça de todo o pessoal que estava lá, agitando e bebendo loucamente. Mais uma parada para recuperar as energias, enquanto se delicia com um prato de bife com batatas fritas, cedido generosamente por um grupo de rapazes que estava se utilizando a animação gerada por ele para ir à caça das meninas mais animadas nas outras mesas.
Novamente em minha mesa, peço que ele sente comigo para tomar um copo de cerveja. Demonstrando certo medo, ele senta e rapidamente mira o copo e bebe quase toda a cerveja em um único gole.

– Você faz isso desde quando? – pergunto.
– Desde que eu perdi o meu emprego.
– E o que você fazia?
– Era ajudante de padeiro, mas fui demitido por ser muito desastrado.

E por ali ficamos conversando por quinze minutos, onde ele me contou alguns detalhes de sua vida, e, depois de mais alguns copos de cerveja, me confidenciou sobre o seu já manjado repertório. Perguntei se ele poderia tocar uma do Bob Dylan para mim. Ele me perguntou qual canção eu queria ouvir. Deixei ele escolher a que ele mais gostava, para que naquele momento, silenciosamente, ele pudesse curtir um pouco de sua própria vida. Ele assentiu e deu mais um gole na cerveja, e voltou ao seu “palco” para tocar mais algumas músicas antigas.

Em outra mesa, comecei a escutar algumas reclamações sobre o seu repertório sem nenhuma novidade. Dali para outras mesas, parecia que todos estavam percebendo a mesma coisa, e, com certeza, era questão de tempo até que os insultos começassem. Ao final da música, uma linda menina foi até ele e o entregou um bilhete. Possivelmente eram nomes de músicas que eles gostariam de ouvir naquele momento. E, pela sua feição ao olhar aquele bilhete, ele não sabia nenhuma daquelas.

Levantei e paguei a conta. Deixei duas cervejas pagas para e um lanche para que ele pudesse ir embora com a barriga cheia e um pouco de dignidade. Não sei o que aconteceu depois que virei as costas e caminhei em direção ao outro lado da rua. Talvez ele tenha sido execrado pelo público que, horas antes, aplaudia-o, ou então, tomara!, tenha conseguido se livrar daqueles incômodos comentários e continuado a alegrar a noite de seus detratores em potencial.

Enquanto atravessava a rua, ouvi os primeiros acordes e solfejos de “Mr. Tambourine Man”.
Sorrindo, segui em frente.

 

Imagem: fmhits.com.br

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