Mutilações

O mito se manifestou esta noite, em sonho.

Um grupo furtivo de homens se aglomera, em meia-lua, onde a luz branca e fria incide apenas lateral e parcialmente. Examinam, detidamente, o corpo embalado em saco plástico preto sobre o balcão.

– Assassinada – atestam, com rigor.

As paredes de azulejo branco do corredor comprido, que leva ao fundo, estão respingadas de sangue em muitos pontos, formando leques rubros de um pontilhismo contingente, registros pictóricos da execução.

O chão de cimento liso também se recobre de sangue, que a água que o homem de branco vai esguichando, para limpar, dilui lentamente, sob os pés.

É um hospital, reconheço.

O corredor conduz a um salão amplo. Sigo por ele.

Suspensas e enfileiradas sobre superfícies metálicas individualizadas, como canaletas, mulheres, dezenas de mulheres, mutiladas.

As dessa fileira não têm braços nem pernas, apenas cabeça e tronco, como as mulheres das três fileiras seguintes; porém resistem, mesmo depois de assassinadas brutalmente, debatendo-se, frenéticas, e gritando, atávicas:

– Onde estão meus maridos?

– Onde estão meus filhos?

– Por quê? Por quê?

São imprecações às vezes incompreensíveis, de que me esforço, igualmente, para não compreender. Sou testemunha ocular e auricular do crime, tenho medo. Por que vim parar aqui? Por que isso a mim se desvela?

As mulheres da fileira a seguir não têm nem mesmo tronco, como as da fileira seguinte e aquela outra ali, onde o homem de branco retalha com o bisturi: só lhes deixaram a cabeça.

E as cabeças se movimentam, debatendo-se desajeitada e ruidosamente sobre a superfície metálica, atirando de lado os cabelos desgrenhados e de sangue melados, como da morte ainda recordassem a vida, em protesto.

Foram assassinadas por médicos, todas, por cientistas todos homens, em nome de não sabemos o quê.

Arrancaram-lhes os membros, as possibilidades de ir e vir por si, não podem mais se mover livremente e, contudo, inevitavelmente, inelutavelmente, não puderam lhes tirar a voz, o pensamento ora de reproche, ora de mariana resignação – até depois de violentamente mutiladas e mortas.

Agora gritam, agora vociferam, uivam, se debatem, também calam, inertes, em lágrimas, no depósito onde foram atiradas depois de mutiladas e executadas, para o reconhecimento e o aval da medicina legal.

Feliz Dia das Mães.

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