Na concha das mãos

 
A vida acontece ou parece acontecer sempre na desimportância do pequeno gesto, na ação simples de pôr o menino e a menina, o filho e a filha para sujar a mão de terra ou regar a horta e o canteiro.
Houve um tempo em que a escola oferecia uma muda de pinheiro a todos os alunos, bem no dia 21 de setembro, o Dia da Árvore.
Hoje o verde da bandeira não combina muito com os prédios de apartamentos, com os sons que ouvimos e o ar que respiramos na modernidade.
Mas ainda que o concreto tenha engolido o chão batido dos quintais, e a escola, por algum motivo, não ofereça mudas no Dia da Árvore, ainda assim há uma razão muito forte para descobrir novos quintais e plantar mudas de pinheiros: as crianças.
Milton Nascimento cantou: “Há que se cuidar do broto/ Pra que a vida nos dê/ Flor e fruto…”. Talvez cuidar do ambiente signifique cuidar primeiro dos pequenos, da natureza humana.
É possível que um menino goste mais do passarinho que do estilingue, e o soldado goste mais do pólen que da pólvora, e o lenhador entenda que a árvore tombada será moradia, mobília e livro.
É possível que o homem civilizado ensine a suas crianças o que o cacique Seattle, chefe tribal norte-americano, registrou, em 1854, em uma carta: “Vocês devem ensinar a suas crianças que o solo a seus pés é a cinza dos nossos avós (…) Que a terra é nossa mãe (…)”.
O francês Maurice Druon escreveu a história de um menino que tinha o polegar verde e é provável que existam outros nas escolas espalhadas pelo mundo. Precisamos de um batalhão deles para tocar, florir e reflorestar o coração dos homens. O peito de alguns homens é um Saara.
Às vezes as escolas da cidade de São Paulo fazem excursões, tendo como destino uma cidade do interior que é berço de alguns seres naturais.
Na cidade de Salesópolis, tudo é nascente: os girinos, os peixes, os crustáceos, as flores, as árvores e o sentimento inexplicável de ser uma parte da paisagem sem destruí-la.
É lá que jovens e crianças aprendem que o rio Tietê migra para a capital e, em contato com os dejetos lançados pela mão da ignorância e do progresso, aos poucos se esvai. E pensar que algumas décadas separam o mesmo rio de uma época de pescarias, competições de natação e remo.
O passado é imutável, o contemporâneo está posto e o futuro é sempre uma incógnita, um campo vasto a devastar, ou um longo percurso de semeadura.
O que se sabe hoje é que a vida acontece na desimportância do pequeno gesto e que jovens e crianças – em uma pequena cidade do interior – bebem o rio Tietê na concha de suas mãos.

Um comentário para “Na concha das mãos”

  1. Julieny Da Silva

    Um grande professor e um grande escritor tambem.
    Agradeço ha Deus por ter um professor como você.
    Espero que voce continue este professor maravilhoso como você é e que continue sempre fazendo nós alunos dentro da sala de aula dando varias gargalhadas.
    Que você continue escrevendo coisas lindas e maravilhosas. beijos

    Julieny aluna da escola Tenente Alipio Andrada Serpa da 8ªA

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