Não estou lá

 

 

Entrou na calçada curvando os pés debaixo do minhocão e as luzes cobriram a face amarela do rosto do grafite com marcas de poluição. Borges usava barba com um corte em curva no queixo, cabelos bem aparados e um terno parecido com vários outros vendidos a baixos preços em lojas de magazines populares. Olhou para o alto e sentiu como se o viaduto abraçasse os prédios num carinho maternal. Apoiou a mão esquerda no poste e tentou acender um cigarro. Chegou à rua da Consolação e a ponta do Copan se encurvou diante dele. Lembrou-se de sua esposa, quando um carro buzinou forte para um ciclista que vestia calça jeans e um chapéu de palha.

 

O estômago de Borges ardia à medida que acendia os cigarros e a expressão de seu rosto se fechava. Os bares da praça Roosevelt ainda estavam abertos e a pequena rua, cheia; vagueou a mínima intenção de se sentar e tomar mais algumas cervejas e doses fortes, mas as dores de estômago o fizeram desistir. Três jovens homens vestiam roupas coloridas e pulavam a faixa de pedestre cuspindo fogo e torcendo malabares no ar, enquanto um menino de bermuda rasgada e olhos cintilantes riu largo quando um deles escorregou na poça d’água. Borges não viu a chuva, mas sentiu suas meias úmidas.

 

Nenhum bar naquela praça se parecia com o do espelho de teto alto e lustre baixo. O balcão era revestido com ladrilhos de cores primárias, numa espécie de mosaico feito às pressas, uma sensação estranha nos pensamentos de Borges, ele não esteve lá. “Não estou lá”, repetiu em voz baixa. Os bancos baixos, a ponto de os joelhos quase não dobrarem, mesas redondas de vidro e cinzeiros feitos com latas de alumínio. O chão da calçada, em forma de mapa, realizou uma certeza sadia nas ideias de Borges. Vislumbrou o livro de capa marrom de couro na estante do quarto de sua casa, aberto e de páginas com marcas de tempo, o álbum de fotografia.

 

Dobrou a rua e as cores do painel revestido com pequeninas pedras, Di Cavalcanti fez o balcão?, interrogou-se, parou e tragou algumas vezes imóvel, quieto, mirou as variadas pedras coloridas coladas. Branco e de calotas pretas, o caminhão-baú de placa amarela de final dois-zero-seis, estacionado e com os faróis ligados. Sentou-se na guia da calçada do outro lado e esticou as duas pernas. A ponta do terno de Borges molhava e exalou um cheiro indecifrável, seus olhos não piscaram e ele não se movimentou. As portas traseiras do caminhão se abriram e um espelho de cinco metros contados com os pés descalços refletiu a luz branca do poste e o rosto incerto de Borges. Viu marcas em seu rosto, levantou o queixo e encostou as duas mãos sobre as bochechas.

 

 

*Alessandro Araujo é escritor, autor do livro “Pro Santo & outras perdições” (Editora Multifoco, 2012), que você pode conhecer e adquirir clicando aqui.

 

Comentário