Noir veneziano – Capítulo I

Capítulo 1

Marlboro de caixinha

 

Da cama, abaixo da única janela da água-furtada, se ouviam os motores do vaporetto iniciando o serviço matinal. Chandler, deitado ao pé da cama, espreguiçou-se na extensão permitida por sua imensa barriga. Suas perninhas curtas quase desapareciam sob as dobras da pele. Mas o que acordou Nino foi a insistente batida na porta, um som oco e persistente produzido pelo nó de dedos. Ele demorou a se levantar, vestir o roupão e caminhar quatro passos em direção à porta. Quando a abriu, uma mão feminina, muito branca, suspendeu o gesto no ar e por pouco não fez toc-toc no peito cabeludo do gondoleiro.

Carmela. Ela repetiu o nome mais uma vez e Nino finalmente compreendeu que não era um sonho.

– Nino? – ela perguntou.

Ele confirmou com a voz ainda rouca e fez um gesto para que ela entrasse. Carmela tirou o casaco e o entregou a Nino, que, com a outra mão, recebeu seu chapéu. Imóvel como um cabide, ele pôde ver seu cabelo castanho, que cobria um terço do rosto anguloso, mas que ela cuidou de afastar, como um visitante inesperado.

Ela sentou-se na única cadeira disponível, pois a outra estava ocupada por Chandler, que a observava com curiosidade. O gato era muito distraído, mas não se recordava de ter visto uma mulher como aquela, a uma distância tão próxima que parecesse real. Se não fosse tão gordo e preguiçoso, pularia no colo dela e dormiria o resto do dia. Se pudesse, Nino faria o mesmo.

Nino pendurou o casaco e o chapéu no prego atrás da porta e sentou-se na beirada da cama. Como ninguém ousasse quebrar o silêncio respeitoso, coube a Chandler emitir o primeiro som próximo do humano, um flato.

– Nino – ela iniciou a conversa, olhando para o gato.

– Ele é o Chandler – Nino a interrompeu.

Ela sorriu e Nino pôde perceber que era seu primeiro sorriso em muitos dias. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Nino quis lhe estender cavalheirescamente um lenço, mas a única peça que estava ao alcance das mãos era a cueca que usara no dia anterior, que ele cuidou de ocultar sob o travesseiro. E fechou imediatamente as pernas, temeroso de que o roupão se abrisse.

– Giusepe – ela murmurou. – É o meu marido, que desapareceu há uma semana. Ele saiu para comprar cigarros e não voltou.

– Ele fuma? – Foi a única coisa que veio à mente de Nino, pois uma resposta negativa poderia ser uma pista de que algo realmente misterioso acontecera. Mas ele não estava preparado para a resposta positiva.

– Sim, fuma Marlboro light de caixinha.

Ela esperou uma nova pergunta e Nino olhou para Chandler, em busca de socorro. O gato permaneceu imóvel e Nino esfregou as mãos, tentando ganhar tempo, com uma estratégia de expressão corporal que aprendera nas aulas por correspondência.

Mas Carmela o socorreu:

– Antes ele fumava cigarros mentolados, mas, desde que os amigos passaram a duvidar de sua masculinidade, trocou de marca. Mesmo assim, ficou com a versão light, porque sabia que o cowboy tinha morrido de câncer.

No canal, o vaporetto emitiu um apito triste, melancólico, como um epitáfio em memória do desaparecido Giusepe.

 

Onde está Giusepe? Como? Quem é Carmela, afinal? A novela Noir veneziano, de Luiz Vita, já tem seu primeiro mistério. Contamos contigo, Nino. E com você, misteriosa leitora, surpreendente leitor. O segundo capítulo vem antes do segundo apito do vaporetto. Aguarde.

 

Veja também o preâmbulo da série de Luiz Vita:

Clique e leia “Notas para a criação de um detetive noir” 

 

Um comentário para “Noir veneziano – Capítulo I”

  1. bia bansen

    Luizinho
    como faço para poder receber sempre a atualização destas historinhas no meu e-mail ou Facebook ou sei lá como??
    Caralho sou idosa e necessito de ajuda…
    Aliás por onde você anda??
    Por que nunca mais nem mais emailou comigo??
    Ficou tão bravo comigo??
    Azar seu, pois eu continuo te amando
    beijos

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