Notícias do meu avô

À memória de Silvio Minerato, o Nonno.


Perguntaram na sala de aula: "E o Gil Gomes, não é narrativo também?". A discussão tinha como tema a narrativa. E a pergunta teve o poder de me conduzir de volta até o meu avô.
Programa do Gil Gomes, bem lembrava: o programa radiofônico favorito do meu avô. Os piores crimes do momento, as mais sangrentas mortes ganhavam uma narração dramática, minuciosa, pausada, na voz soturna, lúgubre do locutor Gil Gomes, logo na primeira hora da manhã.

Audição altamente instrutiva para crianças prestes a seguir para a escola: "Foi eeeele, eeeele, o hooooomem, matoooou eeeela, eeeela, a espoooosa. Não ouviu o pedido de clemência deeela, os nossos fiiiilhos, fiiiiilhos, os nossos filhiiiinhos". Era a trilha sonora de nossas manhãs, minha e de minha irmã, nos períodos em que nosso avô morou conosco.

E coisas como essas, que entram pelos ouvidos sem nos pedir licença, não tiveram o poder de nos transformar nem em seres melhores, nem em seres piores. Apenas em seres mais humanos. Esses relatos, essas narrativas – apesar de sensacionalistas – eram a informação de que havia sombras, trevas, miséria, o aviso de que no mundo por aí havia gente que sofria e morria tragicamente, que existia gente capaz de não apenas matar o outro, mas de também se regozijar com o sangue alheio. Talvez fossem o olho que entrasse por baixo do cobertor colorido, cheio de estrelas pintadinhas, em que nos metíamos e de onde não queríamos nunca sair.

Meu avô e seu gosto mórbido me traziam um mundo bastante triste, do qual pretendia conscientemente me manter ignorante. O programa do Gil Gomes, de fiel audiência entre a gente humilde, entre a gente como meu avô – anos e anos a despertar madrugadas como feirante –, foi uma espécie de contraponto para o meu mundo cor-de-rosa.

A audição matinal do programa era sempre complementada, por meu avô, com a leitura do "Nutícias", como ele falava e gostávamos de repetir. Era o jornal Notícias Populares, hoje extinto, aquele que, "se torcesse, pingava sangue", como se dizia. Suas páginas traziam relatos escabrosos e fotos chocantes de muitos crimes. Mas presenteava seu leitor também, a cada edição, com fotos de uma mulher gostosa e pouco vestida e com o noticiário completo do futebol. As manhãs com nosso avô eram assim, feitas de muitas notícias macabras e de alguma pornografia. Se bem que as mulheres de pulcras carnes, para falar a verdade, nem me pareciam tão pulcras assim – e olha que, desde o maternal, sou nada criterioso nesse quesito, carteirinha do Fome Zero sempre no bolso.

E hoje tenho a certeza de que minha vida teria sido bem menos interessante se não tivesse participado de todos esses eventos, macabros ou não, ao lado do meu avô. Não era ruim, não, ouvir todas aquelas histórias sangrentas logo cedinho. Era um mundo intrigante que se apresentava a um rapazola ávido de histórias, pronto para acolher muitos mundos dentro de si.
Infelizmente, meu avô já se foi. Morreu num hospital público poucos dias depois de eu tê-lo levado para lá. Mas permaneceu dentro de mim com a sua alegria, com os seus gostos, com o sabor dos pratos que preparava para nós também pela manhã – suas omeletes eram imbatíveis, e ninguém fazia bolinhos como ele – durante a audição do programa do Gil Gomes.

Um comentário para “Notícias do meu avô”

  1. Juvenal

    O Guilherme, sempre aprontando
    Pois é, taí, taí de novo o Guilherme arrancando suas vísceras e atirando-as para o distinto público, como só os grandes escribas têm a coragem de fazer.

Comentário