O amor e a cidade

A paulistana surta, alucina e não tem dó. Num desatino, apressa o passo e afunda a faca no meu peito. Em toda esquina, sangra um coração. 
— Paulistana, você anda armada e não ama.  
Fora dessa cidade, o tempo pára para o amor. Mas na correria-paralisia sobre os teus rios pavimentados, o amor entra em colapso, não consegue resistir. 
— Paulistana que não ama, é dessa tua doença que falam tanto. 
Na Paulicéia, o amor é um surto, um desvario. Esse amor dura o tempo de uma internação. Quando vem a cura, o amor é varrido da memória. 
— Paulistana, o teu mapa é um precipício sem abrigo, sem acordo. 
Cada ruína é um amor que se acabou. O prédio que se ergue é a lança no peito da paixão. E o condomínio que se fecha é um castelo de rancor. 
— Paulistana, você não ama. É dessa tua frieza que falam tanto. 
Na Paulicéia, o amor é um desejo em desespero. Esse amor dura o tempo de uma seca. Quando chove, a paulistana acelera e dilacera o meu peito.  
— Paulistana que não ama, é dessa tua tristeza que falam tanto. 
Nessa cidade, o amor é uma febre sem razão. Esse amor dura o tempo de um temporal. Quando seca, a paulistana apressa o passo e fuzila o meu peito. 
— Paulistana, o teu mapa é um labirinto sem saída, sem respiro.  
Nos bares das tuas noites, o amor se afoga ou desmorona. E nas tuas praças sem crianças, vivem os sem-teto sem-amor.
— Paulistana, você não ama e é dessa tua loucura que falam tanto.

2 comentários para “O amor e a cidade”

  1. Juvenal

    Arquiteto da palavra
    Ô, Wellington, você tá escrevendo cada dia melhor, cara. É um autêntico arquiteto da palavra, o teu texto flui fácil e gostoso. Leva a minha secreta, porém positiva, inveja. Abraços.

  2. Lívia

    Amei!
    Amei… pq não sou paulistana… hahaha! As paulistanas não devem gostar muito. É um poema vertiginoso, claustrofóbico e lindo.

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