O armário

 

Sempre que olho para um armário de madeira que tenho lá em casa, lembro-me da sua história.

 

Meu sítio, onde está o móvel, fica isolado numa estradinha de terra malconservada, onde quase não passa ninguém. É a última casa do caminho. O vizinho mais próximo está a mais de um quilômetro de distância, vencido um grande morro, de tirar o fôlego de qualquer andante. Costumo dizer que por ali nem assombração se arrisca.

 

Decidi construir um móvel de madeira que servisse, ao mesmo tempo, de armário – com prateleiras e gavetas para guardar mantimentos, louças, talheres e outras coisas – e de “parede” – separando a cozinha e a sala do corredorzinho que leva ao banheiro e aos quartos.

 

Nunca fui de muito requinte no acabamento das coisas. Gosto de terminar o que faço e ver montado e funcionando. Optei por um armário sem sofisticação e bem pouco complicado, porque atendia a todas as minhas autoexigências. Encomendei a madeira, nas medidas e proporções necessárias.

 

Alguns dias depois, o esqueleto do armário já estava quase pronto para a montagem final. Tudo calculado. A madeira, cortada e lixada. As peças, inteiriças e pesadas. Os furos, para a colocação dos parafusos de fixação, também feitos. Faltava apenas encaixar e aparafusar.

 

Resolvi montar tudo, sem muito ensaio. Afastei sofá, mesa e cadeiras para abrir espaço na pequena sala. Coloquei as laterais, posicionei as cinco prateleiras no ponto marcado e, logo, comecei a “acochar” os parafusos (como dizem lá na roça).

 

Depois de estufar as veias do pescoço algumas vezes, para dar o torque necessário, fiquei admirando o armário ali no chão – “obra de arte” da marcenaria rústica! Deitei-me ao lado do móvel para testar a proporção entre a altura dele e a minha. Estiquei os braços para ver se alcançaria com facilidade a última prateleira.

 

Uma encenação decepcionante, que, ao cabo de alguns minutos, me dei conta de quanto era ridícula e cômica. Ainda bem que eu estava sozinho e mais ninguém pôde testemunhar o vexame. Resolvi, então, levantar o armário, colocá-lo em pé e no local previsto. Assim, poderia sentir melhor como ele se comportaria, contracenando com os demais móveis da casa.

 

Foi quando percebi que seria impossível levantá-lo, por causa do peso. As peças de madeira, individualmente, já eram bem pesadas. O conjunto montado perfazia muitas dezenas de quilos e eu, sozinho, não conseguiria colocar o armário em pé. Tentei com muito esforço, mesmo assim. Mas tive de parar. Corria o risco de arrebentar a minha já combalida coluna vertebral.

 

Fiquei, durante muito tempo, andando de um lado para o outro na varanda da casa, torcendo para que alguém, por um milagre, passasse pela estradinha. Quem sabe uma assombração para me socorrer?

 

O remédio era mesmo chamar alguém para ajudar. Nesse momento, ouvi uma voz, vinda lá da porteira: Boa-tarde! Era o Rubens, meu vizinho, indo olhar seu gado, que às vezes ficava num pasto acima do meu terreno. Singelas palavras, gritadas ao longe, que soaram como o berrante do Menino da Porteira, a cantata da Nona de Beethoven ou o Aleluia do Messias de Händel – Boa-tarde! Representavam a salvação.

 

Respondi ao cumprimento e, mais que depressa, o convidei para entrar, conversar um pouco e tomar um café – convite corriqueiro na região, ao qual, invariavelmente, as pessoas respondem com um “agora não dá, outra hora eu passo com mais calma”. Para minha sorte, o vizinho aceitou de imediato.

 

Assim que chegou à varanda, confessei francamente: “O café eu faço em dois minutinhos e a conversa será sempre um prazer, mas antes preciso que me ajude a levantar um armário”. Ele riu, entendendo o meu “suplício”, e se juntou a mim na empreitada.

 

 

*Joás Ferreira é jornalista e escritor. E o armário está lá, em Cunha, cidade da banda paulista do Vale do Paraíba.

 

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