O cão e o corvo

As marteladas secas sacodem as escadarias que abrigam os corpos em sua sintonia animada pela descida, pelas preocupações e pelas dívidas.

A ave, do alto, percebe que o cão não lhe sacode o rabo em sinal de amizade. É só o rosnar, o latido e o ranger dos dentes incontidos que se destacam no lugar. Entre o lixo espalhado e o muro, preso a uma corda velha que se estende até a metade do quintal, o cão não consegue esconder seu desejo de estraçalhar a ave.

Não se trata de antipatia ou qualquer sentimento humano impreciso: é um cão! É um tipo de Instinto que toda domesticidade não pode evitar. Nem mesmo a docilidade de exigências domésticas para o convívio desvia o cão de seu destino: é amigo em toda a sua estranheza. Ainda que submetido à mão de João, aguarda intranquilo a hora de sua satisfação.

Maria saiu para o trabalho, os meninos cedo foram para a escola. João, apesar do dia de folga, continua a trocar algumas das telhas que se partiram com a última chuva e a ventania. No topo da escada, dispara palavras ranzinzas que o cão não faz mais que ignorar. É a sutileza da contínua reciprocidade ordenável do telhado que é difícil de recuperar.

O cão aguarda o homem descer e permanece na dúvida entre o ataque e a corda. Enquanto isso, a ave o distrai, o provoca. A excitação do animal agora o faz sacudir rápido o rabo e tremer a boca que, mais aberta, sinaliza a serventia de seus dentes. Não há latido.

Ainda no alto do telhado, João irritado consegue ver a ladeira e a casa de seus vizinhos: Dona Maria e Miguel limpam o quintal; Judith, um pouco mais abaixo, com os cabelos ainda despenteados, xinga o lixo espalhado por toda a rua; Dona Alzira, sem olhar para os lados, caminha apressada; há aqueles ainda que indo ao trabalho deixam de lado a lembrança da chuva, correm apressados, mais que Alzira, e torcem para que até o fim do dia um novo temporal não piore as coisas. Os consertos precisam aguardar mais tempo.

A ladeira caiu ao lado da casa de Judith. A mulher fica mais nervosa com o barro que, da altura de seu telhado, ameaça seu sossego. Não tem outro lugar para morar e em todas as vezes que a prefeitura chegou em sua porta era simplesmente para sair e deixar tudo que é seu lá. Nunca saiu. E dizia orgulhosa que ali era seu lugar. A casa é de sua família e cresceu até que ela mesma assumisse o posto de dona.

O sol parece se esforçar para secar toda a umidade. Os pássaros, especialmente os coleirinhas, parecem apoiar com alguma melodia a secura do dia. Tudo passa por João sem ganhar nenhuma atenção. Desfilam os pássaros, as palavras rudes e engraçadas, a chuva, a telha quebrada. João passa.

A ave incomum se aproxima confiante: rodopia no ar e, em linhas firmes e retas, espanta os pardais e toda a melodia dos coleirinhas. Resta um tipo de silêncio que é ainda mais incomum no morro. Este silêncio é rude! É a antítese da poesia que chega viva.

A melodia viva dos coleirinhas, dominante, gentilmente cede ao som dos sambas que encantam o povo nos fins de semana. E aos poucos, nas primeiras horas da segunda-feira, os pássaros, entre as árvores e os bambuzais, retomam seu reinado e sozinhos conduzem as melodias e os voos sem trégua. Entre o samba e os cantos, é quase uma parceria, um acordo de poesias que em seus tempos desfilam cores e se retiram para a vinda de novas nuanças.

O cão entende os acordos entre os cantos que cantam pássaros e homens e, enquanto João preocupa-se com as telhas e a chuva que cedo ou tarde vai chegar, decide por defender o samba e os passarinhos da ave intrometida.

Perto demais tudo ganha uma falsa impressão de intimidade e, ao mesmo tempo, acomoda-se um mal-estar em sentir o calor e o cheiro alheio. No cão é crescente o desgosto de ver próxima a ave que desde o alto devora um inseto agora morto. A apreensão o faz rosnar e provoca engasgo. É o alheio que desfaz o conforto e atira o cão nesse estado misto de tensão, apetite e gozo.

João agora desce da escada. O suor molha a cara e o provoca. Não tem tempo para a agitação que a ave e o cão, em silêncio e rosnar, preparam. João entra na casa e deixa o cão do lado de fora. A porta fechada sinaliza que o homem quer apenas descansar do esforço. Gostaria ainda de confirmar que na próxima chuva as telhas não partirão exigindo então novo conserto. Ao cão resta o quintal. Ainda que o dono o chamasse, não poderia ignorar a ave. É de bom-tom guardar mais uma vez seu rosnar.

Antes de qualquer descanso, João vê o feijão de molho sob a pia. Ainda resmungando, joga-os na panela e a leva para o fogo. O feijão fará parte do almoço e da janta. Calcula que em quarenta minutos estará pronto para acrescentar o alho. Causa-lhe preguiça ter ainda de cortá-lo em pequenos pedaços. Mas é assim que Maria o faz. João quer repetir seu modo, agradá-la. No quintal, o corvo e o cão se olham. A ave engole o último pedaço do besouro.

As caixas de cerveja empilhadas indicam a esperança de novas festas. O muro permanece sem o acabamento, assim como toda a casa. Ergue-se em algumas fileiras de alvenaria e mantém o quintal cercado e livre de qualquer sobressalto. O cão, naquele espaço, é o guarda.

O lixo empilhado não é permanente. À noite João e os meninos depositam os sacos na lixeira que fica na praça principal do morro. Na sua rua os lixeiros não passam. É rua estreita e sem saída. Tem que ser bom motorista. Caminhão ou carro grande não passam. João e os meninos sobem a pequena ladeira, que o tempo torna mais cansativa. É mais que rotina.

Maria chegará no fim do dia. Sem muito o que falar, irá direto para o banho. Todo o ânimo fica pelo caminho e tudo o que é libido se resume, se satisfaz em sonho. O casamento é algo seguro. Essa estabilidade que consome toda novidade. João sempre foi homem certo, apesar de todo o ranço. Maria também não perde a confiança na vida de que algum dia teimará em ser vivida. Ficarão para trás os arranhões, os solavancos e os temores.

João, mas também Maria, imagina insistente a diferença da vida. Se outras vidas existissem? Agora mesmo é outro enquanto aqui somente deixa o corpo cair sobre o sofá surrado. É como se a cada instante se abrisse outra vida em possibilidades paralelas. Universos diversos. João viveria, então, entre o telhado e o feijão, a abertura de toda uma nova composição. O ato só não é infinito porque está condicionado à mortalidade do homem.

Em quarenta minutos, feijão pronto. João então espera. Impaciente até para o sono, em poucos minutos vive outro mundo. Todo o cenário se sustenta na luz que o atravessa. É agora esse estranho entre a morte e a agitação.

A ave é essa fera que traz mais do que mau agouro. Traz mais que notícias simples e agitadas: tem desejos. Interrompe o silêncio, dispara estridente suas primeiras palavras. Sim, o corvo fala, sempre mais.

─ Trago notícias de outros lugares…

O cão, sem se deixar levar pela curiosidade ou por qualquer ambição, de imediato reage e faz calar a ave:

─ Não me interesso por teus olhares; vai-se embora e leve-os contigo. Volta pelo mesmo caminho que chegaste. Aqui não nos interessa a palavra das aves. Os cães latem e mordem o suficiente.

─ Não entende, cão insolente! Teu latido é estúpido, nada mais. Queres que me cale. Ouça bem antes que me arrependa. Tua braveza, ciúme e falsa coragem impedem de ver a verdade. Não trago nenhuma palavra. Falo do futuro. Teu dono, esse monstro que te acolhe porque não te conhece, é a pior das espécies. De ti, não quero nada. Continua tua rotina finita de atordoar-lhe o espírito. Quero somente a memória e o nome. Não lhe atribuo grande importância. Não passa de farsa. Roube e traga-me o que te peço. Depois disso deixo-o inteiro. Pode roer-lhe os dedos, os ossos e o que sobrar.

O cão guarda o silêncio em contraste com as palavras estridentes da ave. Nem mesmo atribuía grande importância a João. Era aborrecido, sisudo e, desde sua chegada, tratou-o com uma mistura de cuidado, amizade e desprezo. João era um tipo ordinário. Não via no homem nenhuma importância, nenhum valor. Que vale a memória de um quase-morto?

─ Eu mesmo quero rasgá-lo inteiro. O ordinário preenche com dedicação o tempo e isso causa mais que abandono. Não suporto seu cheiro. Quanto à memória, esse troncho tem o hábito de anotar suas histórias. É também vigia de seu nome. Protege-o com cuidado e quando me atrevo em passos calmos qualquer proximidade, espanta-me com palavras aborrecidas que exigem fidelidade. Quando resta só o tempo de uma dentada, avança e tira-o de mim. Eu sou o cão! Eu mordo.

─ Não é insistente. É para o teu bem que aviso: arranca-lhe o nome e a memória, e faça-o entrar nesse destino que tu, cão, podes guiar. É com teu rosnar que ele tem que se acostumar. É o que faz levantar a maioria destes seres. Falam da liberdade, mas obedecem a qualquer ordem que se imponha desde o ar. Eu sou o corvo, eu aviso!

─ Aborrece-me. Mas não posso somente arrancar-lhe um pedaço, torturá-lo devorando eternamente o fígado. Posso somente cutucar o calcanhar, ameaçá-lo com meu rosnar. Não posso espantá-lo em demasia, pois aguardo seu retorno para alimentar-me. É este compromisso que mantém a ordem do dia. Somos cúmplices. Finjo esquecimento para, no segundo momento, lhe morder a perna. Arrasto-me, faço peso. Ainda assim, o protejo. Fico neste quintal e deixo-me amarrar-me neste pedaço de corda velha. Há perigos ainda maiores, até para os cães. É preciso saber morder. Tu não sabes disso. O besouro morto que engoliste não é teu quase-amigo. João não é uma refeição. Maria e os meninos são amigos. O que acontece com este ordinário implica os seus destinos. Esforço-me para arrancar-lhe a memória, pelo menos em parte. Mas não podes exigir que lhe tire o nome. É homem.

─ Não é suficiente, cão. Teu erro é depender da compaixão. Farei contigo mais do que espantar. Arrancarei teu olho se, sem demora, não me entregar o que quero. Sei o que te peço: traição. João esquecerá de teu gesto. Esquecerá de todos. Somente os homens sem nome continuam a alimentar-nos. Trazem frutas e insetos para mim. Para ti, atiram os restos. Os homens sem nome precisam encontrar a obra por fazer. Ir ao trabalho, ter a permissão de passear aos sábados, esquecer-se dos feriados, viver atrasado, tempos contados… Nada de filosofia. Nada de pluralidade. Resta apenas a singular escolha. As ordens vêm dos céus, cão. Todos os corvos conhecem os homens.

─ Os cães os provocam, atormentam e ferem. Não pensas que chegaste aqui e agora irei obedecer-te. Deixa de ser estúpida. Sei que isso é difícil, pois todas as aves são estúpidas. Vai-se embora! Já disse desde o início. João é esse bicho. Morre cedo, sem agito. Vai-se embora, ave estúpida. Não vou avisá-la de novo.

─ Quem avisa amigo é! Sou teu amigo, sou eu que vim avisar-te. Volto em breve.

 

Imagem: lifeasahuman.com

Comentário