O cheiro do falo

“Corpos furtivos” (Penalux, 2016, 244 páginas) é o segundo romance do escritor Chico Lopes. O primeiro, “O estranho no corredor” (Editora 34), ficou entre os três finalistas do Prêmio Jabuti em 2012. Lançando-se agora a um naturalismo franco e corpóreo ao descrever a vida de uma solteirona, Eunice, Chico chega para incomodar. A ideia é trair o machismo e o patriarcado num romance que prima pelos detalhes mais sórdidos de uma vida monótona.

O espaço da ação é restrito: uma cidade de 170 mil habitantes, um sobrado, um bairro de subúrbio e seus arredores. Eunice lá vive como funcionária de uma escola, morando junto com a irmã mais velha e severamente mesquinha em tudo.

O nome do romance não poderia ser mais apropriado. Tudo o que Eunice quer – e às vezes tem – é um corpo furtivo. O furacão de desejo que toma conta da protagonista morre à míngua, e ela, que busca correspondentes, tenta flertar com os tipos mais prosaicos e consegue ser descartada rapidamente por quem quer que deseje.

Quer, no centro da ação, um cheiro. Numa situação rápida, Eunice percebe um homem passando, camisa azul-clara, e o tal cheiro. Tenta recolhê-lo em concha de mãos, mas não o retém. Até o final da história ela caça esse perfume, e o acaba encontrando de maneira insólita.

Sua amiga Brunilde é outra solteirona, tão sonhadora quanto e mais atrevida que Eunice. Aquela, pelo menos, busca outros interesses. Para a solitária Eunice, no entanto, não existe nada além de peitos peludos, calvas, barrigas, pernas, bundas masculinas. Ela quer sensações fortes sexualmente, mas não sabe se insinuar, ser natural; é destrambelhada, por trás dos óculos que lhe ocultam a única beleza, os olhos; e francamente desdenhada, ou ainda, despercebida por todos.

Seu mundo é bastante pequeno. A irmã mais velha e ranzinza faz de sua vida um inferno. O enredo trará, no momento certo, a ocasião de Eunice se libertar. Mas ela simplesmente não consegue.

O naturalismo é explícito: até os pelos do nariz de um dos seus alvos de desejo é retratado. Lanches mal mastigados, pênis ejaculando, uivos de machos no ato sexual, agressões físicas, depauperação de pertences, tudo é minuciosamente descrito. Curiosamente, nessas descrições entram apenas o que Eunice vê, ou seja, o narrador em terceira pessoa se coloca ao lado dela, observando cada detalhe, sem descrever com muita minúcia o próprio corpo de Eunice, que sabe que o seu corpo nem dela é. Por intermédio desse narrador, sabemos apenas que ela é gorda e sempre usou óculos. Ou seja, o machismo que a obra denuncia já está impregnado na própria narrativa, em que o centro da ação é o corpo masculino em diferentes formas.

É impossível ler a obra e não sentir horror com tudo o que se lê. O livro exige leitura, e leitura urgente: Eunice precisa alcançar o dono do cheiro que sentiu. As peripécias que permeiam essa busca primordial são, em diferentes graus e modos, as da mera caça sexual. Não há uma invasão do narrador nas mentes pouco privilegiadas das personagens. O componente físico de todas as coisas diz, gritante, por si, dispensando grandes incursões psicológicas.

Fazendo esse naturalismo franco e assustador, Chico Lopes se reinventa como bom prosador. Resta saber se quem vai ler – homem ou mulher – vai entender o recado: o machismo impera, e as mulheres também são machistas e ajudam a perpetuar o patriarcado. Por enquanto.

 

Leia excerto de “Corpos furtivos”, de Chico Lopes:

“Quando o homem passou, era pouco mais que outro transeunte, exceto pelo cheiro. A camisa era de um azul-claro bem pálido, os jeans com desgaste apropriado, apertados por um cinto com um celular acoplado. Ela não lhe vira o rosto, o cabelo, nada – era apenas uma massa corpulenta e rápida, mas deixara o rastro do cheiro que ela procurava definir. Não conseguia. Teve a ilusão de que o podia cheirar nas mãos fechadas, de que o retivera de algum modo. Enfiou o rosto nas palmas em concha, aspirou. O resquício estava menos na pele das mãos que na sua memória. Era preciso senti-lo outra vez, misturado àquela pele, próprio do homem, no homem, dentro dele, dentro dele, fora dela mesma.

Árvore úmida, noite, relva. Um cheiro decididamente masculino, mas como que ocultando uma promessa de cumplicidades indefiníveis. Vinha de um deus que, ela fazendo a reverência certa, poderia se mostrar condescendente. Aspirou-o novamente, brisa de uma noite quente em jardim de país caribenho, la noche llena de quietude/com su perfume de humedad. Ficou meio entorpecida e pensativa, ajustou a blusa, levantando a alça da bolsa, fazendo um movimento de decisão no sentido de seguir a figura que se perdia lá longe, virando uma esquina, entrando na rua estreita que simulava um calçadão comercial, com bancos que imitavam os de antigas praças e cabines telefônicas idênticas às dos filmes de espionagem. Se ele entrasse numa delas, com sua elegância viril perfeita, não estaria longe de um Pierce Brosnan”.

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Livro: “Corpos furtivos” (Penalux, 2016, 244 páginas)

Autor: Chico Lopes

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