O dia D

 

 

Mancha passou o fim de semana angustiado. Nesta manhã, em direção ao trabalho, ele vai pensativo.

 

É frentista de posto de gasolina e mal consegue pagar as contas com o seu salário. Nas férias escolares de janeiro e julho, vende pipas para complementar o ordenado. O problema é que essa complementação nunca é suficiente. Ele mesmo só continua porque adora produzir pipas para a molecada. Em sua época, era o maioral da turma. Fazia o melhor cerol, a melhor rabiola e uma envergação de vareta que deixava a pipa dançando como nenhuma outra lá no céu.

 

Só que agora, de moleque, ele só tem os filhos, e precisa alimentá-los e suprir as necessidades básicas de saúde e educação.

 

Parado no farol ele pensa nas conquistas que conseguiu até o momento. Casou, teve três filhos, construiu uma morada de quatro cômodos em cima da casa da mãe e comprou um carro popular.

 

— Muito pouco para a minha idade e para os dias de hoje – falou consigo mesmo enquanto engatava a primeira marcha e saía no farol verde.

 

Ia pensando que hoje os tempos são outros.

 

As mulheres contam mais com os maridos nos afazeres de casa e no cuidado com os filhos. Minha mãe demorou 25 anos para construir a casa dela e hoje muitos jovens com 20 ou 25 anos casam e já vão morar na casa própria.


Quase todos os meus vizinhos e amigos já viajaram de avião, alguns até foram pro exterior, a passeio ou a trabalho.


E computador, internet?… Nos dias de hoje, qualquer casa na periferia tem um computador. E pensar que algumas décadas atrás nem energia elétrica existia.

 

― O negócio é eu cair pra cima, mesmo, sem medo de ir pras cabeça. Igual dizia minha avó: se a gente esperar o momento certo, ele nunca vai chegar.

 

Mancha pensava que o momento era agora, afinal, já dizia o ditado: a ocasião faz o ladrão.

 

Chegou ao posto de gasolina e antes mesmo de iniciar o dia de trabalho chamou o Maurício de lado e disse que aceitava a parada.

 

Os dois estavam tratando de uma “fita”, como era dito no meio da malandragem quando alguém ia fazer uma investida de alto risco.

 

Maurício era funcionário do posto e morava no mesmo bairro do Mancha. Ele falou ao amigo que iria pedir a autorização dos traficantes da área, já que eles não deixavam que nada acontecesse no bairro sem seu consentimento. Inclusive, cortaram as mãos de dois jovens que fizeram pequenos furtos nas casas dos moradores da vizinhança.

 

— Imagine então se a gente fizer uma fita desse tamanho sem os cara autorizar? – falou Maurício.

 

― Vão é botar fogo na gente e apagar com pauladas – respondeu Mancha com um sarcasmo impresso no rosto.

 

Maurício tirou o uniforme e foi bater o cartão. Trabalhava durante a noite e agora, de dia, quem pegava o seu lugar era o amigo.

 

Há tempo que os dois tramavam um jeito de conseguir a boa, pois eram companheiros de lamentações financeiras e no dia do pagamento até riam, para não chorar:

 

— E aí, o que é que você vai deixar de pagar neste mês?

 

Foi então que Maurício sugeriu a ideia:

 

— Porra, vamo lá, cara, não temos muita coisa a perder mesmo. Já passou da hora de a gente meter uma fita no baguio. Tô cansado de ser proleotário.

 

A ideia era muito arriscada. Se os traficantes dessem a autorização, os dois ainda teriam de pedir para ser demitidos do posto de gasolina. Com o dinheiro da rescisão, se juntariam e fariam uma megaoperação, que, se desse certo, então não mais precisariam bater cartão pelo resto da vida.

 

Por volta do horário do almoço, um funcionário saiu da sala da gerência e chamou Mancha dizendo que tinha uma ligação para ele. Mancha foi atender sabendo que era o Maurício.

 

— Alô!

 

— E aí, rapá, fita autorizada. Bora pedir as contas?

 

O coração de Mancha bateu assustado. Mesmo assim, não titubeou:

 

— Só se for agora.

 

No dia seguinte, os dois pediram ao gerente que os mandasse embora.

 

Foram rapidamente atendidos, porque já fazia uma semana que o gerente treinava o “minha-mãe-mandou”. Tinha de demitir dois funcionários, a pedido do dono, que iria encaixar dois primos recém-chegados do interior.

 

A demissão caiu como uma luva.

 

Dali a dois dias já estavam assinando a papelada. O dinheiro da rescisão só estaria disponível na conta dos desempregados após quinze dias. Era o tempo de que precisavam para terminar de bolar o plano.

 

Acreditando na fita, os traficantes chegaram a oferecer dinheiro emprestado para os dois colocarem o plano em prática. Mas preferiram não aceitar. Já estavam se arriscando demais, e pegar grana com os caras, aí seria um fator de risco maior ainda. Melhor trabalhar com o que tinham em mãos, que era o suficiente para começar.

 

Tudo certo para iniciarem a fita. Primeiro, foram fazendo longe do bairro e sempre nos fins de semana. Com exceção dos dois e dos traficantes, ninguém mais sabia da ação em que eles estavam envolvidos. A esposa do Mancha preocupava-se com o marido, que saía de casa dizendo que estava atrás de emprego.

 

— Como assim, mô, procurar emprego no sábado e no domingo?

 

De fato Mancha vacilou, a mentira foi muito mal inventada. Então só restava agora enrolar:

 

— Benzinho, fica tranquila. Eu sei o que estou fazendo.

 

Tranquilo mesmo nem ele se sentia. O arrependimento estava quase batendo à porta.

 

Pensava que não se envolveu com a coisa certa. Pai de família, marido e ainda a sua mãe, que vez ou outra dependia dele.

 

— Caralho! Que merda estou fazendo? O Maurício é quem tá mais sossegado. Não é casado, não tem filho e mora com os pais. Se a casa cair, ele se ferra menos.

 

Mancha saía cedo aos sábados e domingos e voltava bem tarde da noite, ora preocupado, ora de sorriso no rosto. Sua esposa bem que percebia quando ele estava feliz. Ao abrir a porta, a mulher o olhava com ar de interrogação. O marido perguntava das crianças e ao saber que estavam todas dormindo, ele dava um longo beijo na esposa e a levava para tomar banho consigo. Faziam amor maravilhosamente bem.

 

Agora, durante a semana, uma ou duas vezes ele sai com o amigo Maurício e ficam reunidos em um casarão do bairro.

 

Sua esposa não está gostando nada daquilo.

 

Passaram alguns meses e ela resolveu dar o ultimato.

 

— Ou você me explica direitinho essa história, ou amanhã mesmo vou pra casa da minha mãe e levo as crianças. Não quero estar em casa quando a polícia vier te buscar.

 

— Benzinho, por favor, me dá só mais um mês que você vai se surpreender. Você e todo o bairro.

 

— Mas, meu amor, pra que tanto mistério? Meu coração pula assustado só de ouvir gritos na rua e carros cantando pneus.

 

—Fica tranquila que seu homem tá envolvido em coisa boa. No mês que vem você saberá.

 

— Mas eu sou sua esposa, será que não posso saber com o que o meu marido está mexendo?

 

Mancha calou-a com um beijo.

 

Ela passou todo o mês chateada e curiosa. Como retaliação resolveu fazer greve. Mas o marido nem sentiu tanta falta, pois agora quase não parava em casa. Ficava enfurnado com o Maurício naquele casarão que os dois alugaram.

 

O dia D chegou.

 

Os moradores acordaram com o bairro agitado. As fofoqueiras não falavam noutra coisa a não ser no casarão que tinha sido pintado durante a madrugada e numa Kombi estacionada em frente. Ambos cobertos com lonas.

 

Quando deu nove horas, a dupla ligou o som em frente ao casarão, e, entre um intervalo de uma música infantil e outra, era anunciada a grande novidade do bairro: a produtora de festas infantis “O Dia D”.

 

*Sacolinha ([email protected]) é escritor, autor de “Graduado em Marginalidade” (romance), “85 Letras e um Disparo” (contos), “Estação Terminal” (romance), “Peripécias de Minha Infância” (romance infantojuvenil), “Manteiga de Cacau” (contos) e do recém-lançado “Como a Água do Rio” (autobiografia). Leia mais do autor clicando aqui.


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