O dia em que uma folha de papel em branco mudou o mundo

Era uma vez um mundo onde as pessoas não mais usavam folhas de papel em branco, em nome da modernidade. Tudo era feito por computadores. As crianças aprenderam a desenhar nos computadores, utilizando programas que lhes facilitavam o traço. Textos eram feitos apenas nos computadores. A poesia definitivamente se informatizou. E as folhas de papel deixaram de ser fabricadas, mas muitas restaram guardadas e esquecidas em gavetas e armários mundo afora.

Alguém menos informado poderá dizer que a extinção do uso de folhas de papel gerou um benefício ecológico em razão do menor corte de árvores… Bobinho! A massificação de computadores provocou um tipo de lixo que literalmente se empurrava para debaixo do tapete. E recursos minerais na produção das máquinas foram se escasseando. E florestas artificiais que eram plantadas para a produção de papel, amenizando a poluição, deixaram de surgir.

E no fundo das gavetas e armários, ouviam-se lamentos e choros das folhas de papel… Claro que quem ouvia esses lamentos e choros não era ser humano algum. É que as folhas de papel, nós não sabemos, têm sentimentos e, obviamente, vida. Uma vida cujo anseio é ser desenhada, escrita ou mesmo rabiscada ou ainda transformada em brinquedo, aviãozinho, barquinhos, para aí, sim, se eternizar ou mesmo morrer, mas com algum sonho ou fato ou relato produzido no seu corpo.

Folha de papel em branco esquecida era a negação da existência, mesmo existindo. E quando se nega a existência mesmo quando se existe, o que vem é a tristeza, tristeza doída, tristeza que faz buraco no coração, igual tatu na terra, igual prego em parede, muito pior que dedo ansioso no bolo de aniversário.

Mas nossa história é infantil e histórias infantis costumam ter reviravoltas.

Um dia, em uma casa repleta de gavetas e armários, chegou uma menina de cinco anos, loirinha de olhos azuis, chamada Alice. Ela nunca havia estado ali. Chegou àquela casa por um motivo qualquer que não importa. Mas, ali entrando, percebeu o que nunca ninguém percebera: um som de lamento, de tristeza, de profunda desistência. Ninguém naquela casa parecia perceber qualquer coisa.

Os sons vinham de uma gaveta pesada. Alice, com seu amigo imaginário Léo, reuniu toda a sua força e conseguiu abrir a gaveta. Lá dentro, pilhas e pilhas de folhas de papel em branco, todas tristes e com medo. Medo de que aquela menina fizesse alguma maldade com elas, rasgando-as por algum motivo bobo, sem que elas tivessem realizado o grande sonho de fazer sonhar.

Alice não se impressionou de entender o que as folhas diziam. Ela era criança, e criança não questiona as coisas fantásticas que só elas conseguem fazer e sentir. Percebeu que a tristeza das folhas era a de não serem mais utilizadas em canto algum do mundo em razão de todo processo de criação ocorrer tão somente em computadores. E Alice se lembrou de quando ainda desenhava em folhas brancas, de quando tinha uma caixa marrom guardada na sua casa repleta de lápis de todas as cores. E saiu correndo… Saiu correndo para a sua casa. Queria pegar a sua caixa marrom. Tinha um plano e sabia que daria certo.

Passado algum tempo, a menina voltou. Trazia consigo um estojo com lápis de cores diversas. Ela agora sabia o que tinha de fazer, porque o amigo imaginário Léo lhe contava em detalhes o motivo de tanta falta de sensibilidade no mundo. Alice e Léo abriram novamente a gaveta pesada e pegaram uma folha, que se esperneava com medo, com receio de ser maltratada, rasgada, picada sem gerar sonhos.

Mas qual foi a surpresa de todas as folhas ali guardadas, quando Alice pegou um lápis amarelo e começou a desenhar um grande sol ocupando todo o corpo da folha. Foi um doce espanto. A folha recebeu o desenho como a pessoa com enorme sede recebe o copo de água fresca. O sol foi desenhado e seus raios começaram a sair do corpo da folha, começaram a se expandir por aquela casa, começaram a escapar das janelas, das portas, ganharam as ruas e foram entrando na consciência de cada criança que encontravam pela frente.

O que se viu não foi relatado em nenhum livro de história, não foi motivo de nenhuma tese de doutorado, não foi analisado em nenhuma produção científica porque isso são coisas de adultos, e adultos não veem o que importa. O que se viu foi que cada criança, imediatamente ao receber o raio do sol da Alice, lembrou-se das folhas de papel em branco que existiam em suas casas. E, em cada casa, crianças resgatavam as folhas e desenhavam… E o vento de um desenho saiu pela janela para refrescar o mundo. E o coração de outro desenho espalhou batidas porta afora para aumentar a solidariedade. E os cachorrinhos de outro desenho latiram alto rua afora para ampliar a inocência. E flores de cada desenho espalharam aromas espantando a poluição. E os milhares e milhares de desenhos que foram sendo feitos mundo afora por crianças de todas as idades e línguas e culturas espalharam sonhos, sonhos, sonhos e mais sonhos.

Toda essa energia pairou sobre o planeta e desceu rapidamente na consciência de cada adulto, em cada país, em cada clube, em cada partido político, em cada religião. E cada adulto passou a perceber o mundo com outras lentes. E mesmo sem entenderem a origem de toda a mudança, porque os adultos são seres limitados, começaram a agir de forma diversa daquela de antes. E o mundo foi se reconstruindo, se tornando mais justo, mais sábio, menos sofrido.

Hoje, os computadores ainda existem, claro! Cumprem papel importante, sem dúvida. Mas as folhas de papel retomaram seus postos e são as propagadoras de sonhos e ideais que alimentam docemente a vida de cada um de nós.

*Este texto foi escrito por Antônio Rodrigues de Lemos Augusto, professor e jornalista em Cuiabá, e Alice Romio Augusto, uma menininha hoje com 6 anos.

Créditos da imagem: http://obviousmag.org

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