O farol

O pôr do sol convocava o velho e solitário faroleiro. Vivia naquela ilha deserta havia anos, tentando se convencer de que era realmente feliz e de que sua escolha em viver ali tinha sido acertada.

Parado junto de uma rocha na encosta sobre o mar, ele mirava o horizonte e via o sol timidamente se esconder no limite de seus olhos. A maresia do oceano e o marulho das ondas brigando contra o zumbido incessante das gaivotas eram a pintura que a natureza lhe proporcionava.

Perdido entre as nuvens, e todas as misturas de cores que o céu expõe em seu ocaso, o homem chega a conclusão de que é um privilegiado.

A luz do sol faz com que o mal se afaste. De olhos fechados, o homem fraqueja e imagina o calor de um abraço dado por uma suposta mulher. O sorriso fácil e sincero de supostos filhos. Crianças! Como ele adorava crianças. A visão de uma família, o convívio diário, diálogos, por vezes brigas e discussões. Não, ele não precisava disso. Nunca precisou e não seria agora, depois da idade avançada, que se lamentaria por não ter dado uma chance a seu coração. Sua decisão tinha sido a correta. Aquela menina, de quem nem sequer chegou a saber o nome, nunca teria sido sua mulher. Jamais construiria uma família com ela, justamente com ela, que nunca olhou para ele. Um dos últimos raios solares o atinge com força e o faz voltar à realidade.

O vento sopra frio, é sempre assim àquela hora do dia. Fecha o casaco, põe as mãos no bolso, enche o peito e contrai os ombros. A noite se aproxima. É o momento que mais odeia. Suspira e tenta relaxar. Estala o pescoço primeiro para o lado esquerdo, depois para o direito. Precisa aprender a enfrentar a noite, por mais paúra que ela lhe provoque. Sente pena de si, se arrepende e volta a olhar para o céu, ah, que céu. Com certeza o céu mais colorido e bonito do mundo é dele, somente dele. Alegra-se.

Seu último contato com o mundo era um rádio que quebrara havia muito tempo. Agora ele tinha apenas os sons da ilha. Sons de que a maioria das pessoas nunca se dera conta, e que existiam em uma pureza tão grande que eram capazes de se comunicar com a sua alma.

O vento agora soprava ainda mais forte, e a noite cobria o seu paraíso com a escuridão. O velho não conseguia admirar a beleza noir. Nunca conseguiu. Desde o começo na ilha, tinha sido assim. Era nessa hora que a sua decisão por estar ali mais machucava. O refúgio estava no farol.

Alto, imponente, abrigava o velho e suas dúvidas. Perto das estrelas, iluminando o horizonte e brincando com os fachos de luz, ele se distraía. Mergulhava no mar. Conseguia enxergar as nuvens se movendo no céu e ouvia o rufar do vento, soprando forte contra os vidros que eram a sua segurança. Ali era a sua casa. Acertou na escolha. Fazia parte da natureza selvagem e pela sua pureza havia sido o escolhido por Deus para cuidar de toda aquela beleza. Era o seu destino.

Ele tinha o farol e alguma embarcação algum dia necessitaria de seus préstimos, provando para o velho que ainda estava vivo e continuava útil para o mundo, mesmo sozinho e esquecido em uma ilha deserta há tantos anos.

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