O gueto dos amores impossíveis

Depois de passar pela avenida dos desejos, ao dobrar à esquerda na travessa das tentações, encontrava-se o gueto dos amores não vividos.

Por ali se observava alguns amantes que aos poucos construíam suas habitações escondidas, algumas habitações com a frente para o sol da manhã, outras no lado mais sombrio e nenhuma delas concluída. Notava-se que todos os amantes traziam seus materiais aos poucos, sacolinhas com intimidade, afinidade, desejo e outros, uns mais pesados, outros mais leves. Todos vinham muito apressados e dirigiam-se a suas obras inacabadas para colocar a matéria-prima na forma de massa. Eram tijolos de afeto, pisos de sonhos, pinturas feitas de gozos, estruturas de confiança e assim por diante.

Ninguém era engenheiro nem arquiteto. Todos que ali escondiam suas obras eram como pequenos construtores do não viver. Construídas com materiais raros e solúveis, tendo em vista que a matéria-prima sempre era em pouquíssima quantidade, as edificações – com o passar do dia – deterioravam-se… logo, elas nunca se tornariam um lugar habitável.

A pequena Ana morava com seus pais na parte mais elevada do outro bairro. Chegava da escola e corria todas as tardes até a janela de seu quarto para observar o gueto. Ela se perguntava o porquê daquela gente estar ali sempre com pressa, levando materiais para as obras que nunca eram concluídas e, depois que elas saíam de lá, logo a moradia se desfazia. Ana queria muito entender tudo aquilo, e se perguntava o porquê daquelas pessoas não ficarem por lá e erguerem suas casas com mais exatidão e acompanharem de perto e constantemente o andar da construção. Em seu coração, Ana achava que, se os casais que se encontravam naquele lugar por lá permanecessem, conseguiriam terminar suas obras e morar no gueto, o que não ocorria.

Ana cresceu e acabou por não dar mais importância ao gueto, a não ser em uma breve viagem que fez para visitar sua avó, Carmem, que morava no caminho da cidade onde ela iria cursar a faculdade. Ana foi passar um fim de semana com sua avó, antes do início de suas aulas. À tardinha, beirando o anoitecer, as duas se sentaram e tomaram um chá quente. Com o coração e o corpo aquecidos, as duas conversaram ali por horas, até o momento em que sua avó comentou algo sobre aquele gueto.

Ana se lembrou com carinho da época em que o observava e disse para a avó que nunca havia entendido direito o que acontecia por lá, e a questionou:

‒ Vovó, como a senhora sabe do gueto? Pensei que ninguém soubesse, pois nunca ouvi falar dele.

‒ Ana, você ainda é muito jovem, e não conhece as armadilhas da vida e de nosso coração. Eu já frequentei aquele gueto, há muito tempo. Minha pequena casinha já nem deve ser vista mais por lá, porém, quase todos os dias, ainda me lembro de sua construção.

‒ Nossa, me conte!

‒ Tudo bem, querida, vou buscar um vinho.

‒ OK!

Então, ao buscar o vinho, no caminho até a cozinha, Carmem reviveu por mais um momento a história que construiu no gueto dos amores não vividos. Lágrimas se juntaram em seus olhos, não por dor ou sofrimento e sim por alegria de sentir novamente o que ela viveu.

‒ Pronto, tome aqui seu cálice, vamos brindar aos amores impossíveis!

‒ Nossa, vovó, amores impossíveis? O que isso tem a ver com o gueto?

‒ Minha neta, aquele gueto era e ainda é um lugar de amantes que não podem viver suas histórias de amor. Os amantes vão para aquele lugar, entregam-se um para o outro e constroem por ali um relacionamento inventivo, construtivo. Porém, mesmo utilizando de bons materiais, a quantidade é sempre muito pequena, e o tempo muito curto para cuidarem da obra que nada mais é do que o relacionamento entre eles.

Ana tomou um gole de vinho e disse:

‒ Que coisa mais triste! Então aquelas pessoas nunca ficam juntas?

‒ Não, minha neta. Elas vivem ali o que podem, e saem daquele lugar para viver suas vidas cotidianas. Todas, com seus motivos que as levam até lá e que as fazem voltar.

‒ Por que a senhora ia até lá?

‒ Bom, eu tive um amor impossível, minha querida. Foi há muito tempo. Ele era capitão do batalhão de seu avô, e se aproximou de nossa vida quando nos mudamos para sua cidade. Ele não era casado, mas eu já, e já tinha seu pai, na época deveria ter uns quatro aninhos…

Ana a interrompe, assustada:

‒ Vovó!!!

‒ Não se assuste, minha neta. Todos nós estamos sujeitos a viver um amor desse tipo, afinal nunca podemos escolher de quem iremos gostar.

‒ Sim, me conte mais!

‒ Bom, isso fica para um próximo dia. Por ora, você somente queria saber sobre o gueto.

Após aquela conversa, elas foram se deitar. No outro dia, não tocaram mais no assunto e foram se divertir pela cidade até o anoitecer. Após o agradável dia que puderam passar juntas, Ana e sua avó dormiram. Dia seguinte, Ana partiu rumo à faculdade para o início das aulas.

Ana estava deslumbrada com sua nova vida, mas também tinha muito medo de tudo aquilo. Todas aquelas pessoas em sua volta, cada uma carregando uma história única em seus ombros. Todo o movimento que a cercava, além de excitá-la, também assustava-a muito.

Logo no primeiro dia de aula, Ana escolheu um lugar junto da parede da sala de aula, e uma outra moça, com mais ou menos a sua idade, sentou-se ao seu lado e logo puxou assunto:

‒ Você é daqui?

‒ Não, sou de outra cidade.

‒ Eu também não sou daqui…

Desenvolveram a conversa e dali surgiu o início de uma amizade. A moça era a Amanda, uma bela menina que também estava ali para estudar. Ela era um pouco diferente de Ana, mas durante as longas conversas se reconheceram em diversos pontos em comum.

Com o convívio contínuo, a proximidade delas era cada vez maior, até o ponto de se apaixonarem e viverem um amor escondido pelos cantos da faculdade.

Amanda era de família muito tradicional e havia deixado seu noivo na cidade natal. Ana, sempre com muito medo de se relacionar, não conseguia aceitar o fato de estar envolvida com uma pessoa do mesmo sexo.

Elas sempre se escondendo, até que um dia um senhor de mais idade comentou com elas sobre um local que ficava a alguns quilômetros da faculdade, umas três cidades de distância. Disse para as moças que lá elas poderiam se encontrar com segurança. Elas agradeceram e partiram para encontrar o local, mas antes Amanda agradeceu e o questionou:

‒ Obrigada, senhor, qual seu nome?

‒ Meu nome é Medo, mas pode me chamar de Culpa também. Tenham boa viagem.

Ao chegarem ao local, Ana e Amanda – com suas sacolinhas de afeto e afinidade – logo começaram a construir sua habitação no gueto dos amores impossíveis. Sim, Ana havia voltado para o gueto e, ao erguer seus olhos, pôde ver a menina que foi um dia lhe sorrir da janela da inocência.

 

Imagem: wallpaperscraft.com

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