O guri do Bom Fim

 

Quando era menino – lembro como se fosse hoje – imaginava estar dentro de um livro imenso. Mal sabia que os livros é que estavam imensos dentro de mim.

Foi o pequeno texto que enviei, por correio eletrônico (por volta de 2005), ao escritor Moacyr Scliar. Ele respondeu com palavras generosas e amáveis. Foi assim que o conheci – um homem amável por trás de um sorriso acolhedor.

Antes da correspondência eletrônica, estivera com ele em uma feira de livros para crianças, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e lá trocara algumas impressões sobre um de seus livros (Um sonho no caroço do abacate) – e depois mais algumas mensagens pela internet.

Em 2006, estive na Feira de Livros de Porto Alegre (autografando um modesto trabalho) e dividi o mesmo espaço (o mesmo quintal) com o escritor Scliar. Quando soube da minha presença, veio ao meu encontro, estendeu a mão e abriu o sorriso acolhedor.

Ofereci minha cadeira, para que ele autografasse um de seus livros (Os vendilhões do Templo) – uma senhora fez o pedido – e, sentado na cadeira de um iniciante, autografou um exemplar. Recebi tudo como um abraço – como quem divide um brinquedo feito com as próprias mãos. Eu, menino do Jardim Rosana, ele, do Bom Fim.

Em 2008, estive com ele em São Francisco Xavier (lugarejo acolhedor na Serra da Mantiqueira, em São José dos Campos, SP) e mais uma vez o sorriso surgiu antes do aperto de mão.  Se fosse possível deter o tempo, se fosse possível imobilizar os ponteiros da vida…

Caso você não o conheça bem, ainda pode fazê-lo – afinal de contas, ele é imortal; mas se engana quem pensa que sua imortalidade esteja presa à ligação com a Academia Brasileira de Letras – sua imortalidade está presente em sua obra (nas dezenas de histórias que estavam dentro dele) e no sorriso acolhedor de cada integrante de sua família.

Tenho certeza de que ele foi recebido com o mesmo aperto de mão e o mesmo abraço que distribuiu pelo mundo afora. Tenho certeza de que foi convidado a ser guri novamente (como naquele poema de Pessoa) e brinque serelepe pelas ruas do Bom Fim, com os inseparáveis Quintana e Veríssimo.

 

*Internado desde janeiro no Hospital das Clínicas de Porto Alegre, em decorrência de acidente vascular cerebral isquêmico, o escritor Moacyr Scliar, de 73 anos, morreu no último domingo, 27 de fevereiro, de falência múltipla de órgãos. Nascido em 23 de março de 1937, no tradicional bairro judaico do Bom Fim, em Porto Alegre, formou-se em medicina e escreveu mais de 70 livros.

Um comentário para “O guri do Bom Fim”

  1. Carlos Brazil

    Um grande homem
    Tive a oportunidade de encontrar pessoalmente Moacyr Scliar na última Bienal do Livro de SP, em agosto de 2010. O prazer de conhecê-lo, e de reconhecer os traços de humildade, bondade e simpatia destacados por todos que têm escrito sobre ele, foi enorme. Seu sorriso, de fato, invadia e iluminava todos os ambientes.

    Parabéns, Silvio, pelo belo testemunho e pela felicidade de ter convivido com esse grande homem.

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