O homem feroz

Ele vociferava, tonitruava, reboava pelas ruas.
—    Ancípites! Apedeutas! Beócios!

Maldisse o Papa, Madre Teresa e até o Curíntia, meu!
—    Bilontras! Biltres! Bisbórrias! Capadócios!

Rangia os dentes, rosnava, rugia. E seus vitupérios, sua indignação, curiosamente, obedeciam a uma certa lógica, como se lesse em voz alta uma lista em ordem alfabética:
— Embusteiros! Fementidos! Gandulos! Intrujões! Lorpas! Macanjos!

Acompanhei o homem em seu itinerário de impropérios. Passou moça calipígia; ele não viu. Sorriram dentes ebúrneos; ele não notou. Um novo poema lhe saltou ao colo; ele não o embalou. Uma garotinha inventou um novo e mais bonito mundo; nele ele não entrou.
Salivava, babujava, espumava hidrofobamente.

— Mandriões! Mangalaços! Mariolas! Misólogos! Misóssofos! Moquenqueiros! Néscios!
Notei, depois de segui-lo por muitos minutos, a uma prudente distância, algo familiar em sua figura. Certamente o conhecia. Aparentava a minha idade, tinha cabelos ralos como os meus, roupas simples também. "Pulhastros! Safardanas! Sicofantas! Sornas!…" Comentaram, à sua passagem, que o caso era simples: uma combinação, em doses cavalares, de frustrações simultâneas – no trabalho, no amor, na família. "Principalmente no amor…" Seria isso mesmo?

Chamaram-no para saborear o quitute; não ouviu. Uma outra dona disse que o amava; Kiu Amawa era nome de japonês, ora. Canário cantou, colibri gorjeou, cuíca gemeu, cavaco chorou; ele não escutou, ele não sambou. "Trampolineiros! Troca-tintas! Valdevinos! Zopeiros!"
E eu já não podia desistir dessa perseguição – sim, perseguição, pois a rarefeita curiosidade inicial se transformara em densa obsessão –, apesar de atrasado para as demandas da vida. De onde o conhecia? Num momento de ímpeto maior, apertei o passo, aproximei-me e nossos braços chegaram a se roçar: "Por favor…", murmurei sem força. Mas me calei e recuei antes que ele pudesse notar a minha presença. Voltei a segui-lo com a distância anterior.

Quando dei por nós, percebi que caminhávamos por lugares que eu muito conhecia. Estava ali o bar do Zé, o ponto onde pego meu ônibus todos os dias, a frondosa árvore em cujo tronco escrevi o nome dela. O homem reteve o passo ali, sob a fresca sombra da copa, e me pareceu que lia o que escrevi.

Aproveitei para me adiantar a ele. Notei depois que o homem me acompanhava, alguns poucos passos atrás. Mais alguns quarteirões e estava em casa. Entrei e deixei a porta entreaberta. Fui até a cozinha, sentia muita sede. Ouvi depois a porta se fechar e a chave girar na fechadura, para trancá-la. Passos pesados e lentos fizeram ranger a madeira da escada que leva ao andar de cima. Tomei mais um copo de água.

Corri depois os olhos sobre a correspondência na mesa da sala, mas tive preguiça de abri-la. Fazia calor, estava cansado. Decidi subir, para repousar.

Quando entrei no quarto, o homem da rua ressonava, deitado em minha cama. Estava virado para a parede. Ao aproximar-me dele, girou de súbito para o meu lado, mas sem despertar, apenas grunhiu algo que não pude entender.

O homem de fato era familiar. Familiar até demais. Puxei a coberta para cobri-lo; parecia estar sentindo frio, apesar do dia quente.

3 comentários para “O homem feroz”

  1. Guilherme

    Valeu!
    É realmente incrível a distância que podemos tomar de nós mesmos, de nossos sonhos, do que a gente realmente quer. Em certa dose, a raiva até ajuda. Se desmedida, cega, inviabiliza, paralisa. Respeitemo-nos, primeiro. Obrigado, gente.

  2. Jordana

    Reflexão..
    Na Física a uma regra simples em que dois corpos não podem estar no mesmo espaço, porém não é o que acontece com as pessoas. Elas agem de forma a acupar muita mais do que elas são capazes, transformando "cópias" mal feitas, do que seria bom na essência, se mantivesse o equilíbrio.

    Belo toque.

  3. Felipe Phil

    A ferocidade
    É incrível a distância que podemos percorrer em relação a nós mesmos. Mais incrível ainda é, porém, a rapidez que nos aproxima de volta.

    Aprecio as linhas tênues.

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