O jardim em guerra de Matheus Arcaro

Matheus Arcaro foi à guerra, e, como esperado, a peleja não foi fácil. Escritor estreante com o livro de contos Violeta velha e outras flores (Patuá, 2015, 150 páginas), o professor de filosofia e sociologia de Ribeirão Preto (SP) comanda, em sua obra, um batalhão de personagens despreparadas para enfrentar a grande batalha: os dissabores inevitáveis da vivência humana.

Dividida em seis partes, a coletânea reúne 22 contos que abordam infância, família, relacionamentos, morte e teologia. “Violeta velha” ganha destaque tanto no título como na ilustração da capa, com conceito do próprio escritor e arte de Leonardo Mathias. A história abre a quinta parte do livro com o conflito do velho Timóteo com o filho Afonso.

Entre as “outras flores” – metáfora para o jardim de histórias de Matheus –, encontra-se o conto mais curto, que, todavia, resume a antologia. É “Guerra”, que narra a reação de um menino ao se despedir do pai em um porto: “Ele descobriu que as águas que carregavam o pai também nasciam no verso de seus olhos”.

Esse tipo de descoberta, ora pela sensibilidade, ora pela dureza, perpassa toda a obra. É o enfrentamento de um cotidiano provocador que promove experiências transformadoras – quase sempre de forma virtuosa.

Quando Matheus vai pelo bruto em linguagem muito bem ritmada, é que mais acerta. É o caso da narrativa em “A fúria sem som”. Segundo lugar no Prêmio Off-Flip 2013, o conto tem como narrador Benjamim, homem gigante abobalhado, que é abusado por sua cuidadora e relata de forma não linear sua história.

Ainda sobre linguagem, vale destacar o “Maquinando”, conto sem nenhuma pontuação sobre personagem que praticamente vomita um fluxo de consciência agilíssimo, em linguagem bastante coloquial.

A última parte transmite certo sarcasmo do autor, ao representar a experiência pós-morte em ambiente com um Deus altamente burocrático. Em “Dois homens mortais”, o cristianismo é questionado pela personagem Saulo Dantas, paleontólogo que descobre uma farsa na ressurreição de Jesus Cristo e prefere escondê-la pelo bem da humanidade.

 

Leia trecho do conto “Violeta velha”:

“Ficou maior o espelho e, de relance, ele reparou na mesa de madeira: as migalhas do pão seco que comera no almoço refletiam a luz do sol a entrar pela esquálida janela, acima do sofá. Aquele feixe de luz parecia suturado ao ambiente: a vitalidade dos pingos luminosos que tremeluziam sobre a madeira surrada oprimia o velho. Na verdade, evidenciavam que, por mais sórdida que seja a situação, sempre há pontos de luz. E ele não soube identificar isso no filho. Apertou veementemente o cabo da faca na esperança de esmagar a sua culpa. Precisava dissecá-la, mas era como um legista recém-formado; não encontrava o fio para conduzir sua regressão; a memória, uma colcha de retalhos com buracos. De súbito, veio à mente o nascimento do filho: sem clemência, a parteira enfiara um ferro na esposa, pra que um ferro desse tamanho, dona? Quanto sangue, meu Deus! Calma, meu bem. Nossa Senhora do Bom Parto há de olhar pela gente. Os dedos da mulher, que há instantes pareciam cravados à lateral da cama, agora tremulavam a poucos centímetros do chão. Era obsceno o contraste entre a boca roxa dela e os berros do menino que desocupara o ventre”.

 

capa violeta_final menorLivro: Violeta velha e outras flores (Patuá, 2015, 150 páginas)

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