O lado insano da Lua

Lucas Walker só queria ser um jogador da liga mundial de futebol americano, ser orgulho da mãe brasileira, Maria Lúcia, e contar tudo isso ao pai, Milton, ou Mabus, como é chamado o lendário analista de imagens que recebeu uma missão: analisar eventos lunares observados da Terra e considerados anormais, o que causa uma comoção na comunidade científica. O pai não vê escolha e abre mão do filho e da mulher para viver como clandestino em defesa dos Estados Unidos da América.

Luiza Palmer queria mesmo é se livrar das torturas tão presentes desde os tenros cinco anos de idade. Ser livre, apenas. Contudo, era preciso passar por tais situações pela Nação, sendo, já adulta, uma sobrevivente de um programa governamental de controle mental. Na pele, as cicatrizes; na mente, os traumas; e no coração, o que Luiza terá?

Roy O’Connell quer ir além da significância de seu próprio nome: ser mais forte do que um lobo, como bom militar servidor dos Estados Unidos que fora e (pseudo)magnata da comunicação que é. E quando se é inescrupuloso, precisa-se do toque de predador para sobreviver.

Estas personagens se cruzam em Mare Crisium, romance do paulista Daniel Davidsohn. De narrativa não linear, recheada de flashbacks, o livro conta com 85 capítulos e uma coleção de notícias, documentos e outros textos e fatos (supostamente) reais que inspiraram o autor na concepção da história.

A trama gira pela busca incansável de Lucas pela figura paterna. Ele não virou astro do esporte que tanto amava, mas um renomado físico do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Nisso, Luiza – paixão antiga de Roy – cruza o seu caminho outra vez e a procura ganha outras nuanças. Afinal, a sedutora moça sabe demais e o protagonista descobre que estreitar laços com o passado será mais obscuro e insano que imaginara, como um mar lunar, parafraseando o título do livro (Mare Crisium é um mar lunar e possui 555 km de diâmetro, localizado na chamada Bacia das Crises).

Ótimo observador, Davidsohn tem no currículo a produção de curtas e vídeos experimentais e, talvez por esta bagagem, levou a seu Mare Crisium a precisão dos detalhes. Quem o lê consegue “sentir” o terreno e as personas do enredo, bem como “vivenciar” lavagens cerebrais e experimentos em seres humanos, grandes guerras mundiais, a relação Brasil-Estados Unidos e um forte triângulo amoroso.

Além dos ingredientes citados, que podemos até considerá-los clichês, o autor surpreende, quando levanta uma interessante provocação – com um quê de Edward Snowden, se for para comparar: até que ponto a sede do poder pode manipular a vida em sociedade?

A resposta pode-se até arriscar, basta lembrar de conflitos, desigualdades e as tão terríveis problemáticas que assolam o mundo há séculos. Mas é sabido que a insanidade humana, como os mistérios lunares, não tem limites.

Limites que o predador O’Connell descreve muito bem, pois, como ele mesmo diria, “o ar é a última grande fronteira comercial da humanidade”.

capa mare crisium daniel davidsohn

Livro: Mare Crisium (Pineal Editora, 624 páginas, 2015)

Autor: Daniel Davidsohn

E-book: Amazon, Apple Store, Google Play, Kobo, Livraria Cultura, Barnes&Nobles, Saraiva, Wook, Árvore

 

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