O Maestro

 
                                                                                                    Para o Maestro Silvio Baccarelli
Um Maestro assistia perplexo às cenas de um incêndio devastador em uma das favelas da cidade de São Paulo. As labaredas, em pouco tempo, consumiram centenas de moradias, os sonhos e boa parte da alegria dos moradores.
O músico poderia ficar em sua residência, dar as costas ao problema e simplesmente transferi-lo às autoridades estaduais e municipais. Afinal, cumpria com suas obrigações, pagava religiosamente seus impostos e não havia motivos para nenhum remorso em relação ao fato.
O Maestro ouviu uma voz interior e não conseguiu ficar indolente diante das vidas carbonizadas que a televisão exibia. Tomou nas mãos sua batuta e decidiu ensinar música aos moradores daquela comunidade.
Os primeiros passos foram difíceis, porque faltava espaço para improvisar um conservatório e foi com muito tato que o músico conseguiu agrupar seus primeiros alunos na escola pública do bairro.
Aos poucos, o projeto tomou corpo e os gritos de dor e desespero foram substituídos pelo som de flautas, clarinetas, violinos, violões e todos os instrumentos que fazem parte de uma orquestra.
Hoje, a vizinhança já se acostumou com o som das vozes e dos instrumentos e é comum lavar a roupa ouvindo Villa-Lobos, Carlos Gomes, Jobim, Mozart e depois ver o sorriso de crianças e jovens que encontraram na música o significado da palavra feliz.
Mas de quem será a voz interior que o Maestro ouviu? Provavelmente, a mesma voz que soprou a Nona Sinfonia nos ouvidos da alma de Beethoven.

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