O maître

Maridinho de merda! Sempre previsível… Tinha certeza de que ia me trazer ao mesmo restaurante de sempre… Aqui não tem nada de bom. A comida é péssima, o lugar é horrível, mas, como sempre, tenho de fazer tudo o que você quer, não é mesmo, Otávio? Bom, pelo menos aqui tem aquele maître, como é mesmo o nome dele?

— Ai, Otavinho, que surpresa! Esse restaurante… De novo… Olha…

— Eu sei, meu amor. Eu sei que você preferia o outro. Mas, Marlene, esse aqui é um dos melhores restaurantes de São Paulo e…

Tá bom, Otávio, tá bom, chega de se justificar.

Bonsoir, monsieur Otávio, madame Marlene, sejam bem-vindos. É um prazer recebê-los novamente. Posso acompanhá-los até a mesa?

— Claro, Clermont, muito obrigado.

Clermont! Isso, Otávio. Clermont! Ainda bem que você está aqui hoje, Clermont. Alguma coisa de bom nessa merde de restaurante.

— Senhora, por favor, pode sentar-se. Aproveito para trazer o vinho de sempre?

— Eu não sei… Acho que vou beber…

— Por favor, Clermont. Pode trazer o vinho e… que tal os escargots de entrada, Marlene?

— Ah, meu amor, escargots? Você sabe que eu não sou muito fã de es

— Pode trazer, Clermont, por favor. Marlene vai fazer uma forcinha, tomar o nosso vinho…

Nosso vinho, Otávio?

– …e tentar os escargots novamente. Hoje tenho certeza de que ela vai provar e aprovar, não é mesmo, meu amor?

— Perfeito. Monsieur Otávio, madame Marlene, com licença.

— Olha, Marlene, estou para ver maître mais bem-educado que Clermont. Com esse nome deve ter algum tipo de ascendência francesa, deve ter sangue de Alsace correndo nas veias, não acha? Da última vez em que estive na França, com o doutor Gusmão, visitamos…

Otávio, como você é ingênuo. Clermont!? Você realmente acha que esse homem se chama Clermont? Com certeza adotou o nome como dica do dono do restaurante. Deve ter um nome horrível. Provavelmente aquelas junções do nome do pai, mais o nome da mãe, que, somados, geram um nome que mais parece um diagnóstico de doença do aparelho digestivo. Mas isso também pouco importa. Eu perderia umas boas duas ou três horas com esse tal de Clermont. Meu Deus…

— Marlene! O menino quer lhe servir o vinho, tira essa mão do copo. Marlene hoje está avoada, desculpe, rapaz… Aliás, esse vinho…

Eu não quero tomar essa merda de vinho! Avoada? Eu? Você que pensa Otávio. Eu estava é bem atenta ao nosso bem-educado maître. Quer dizer, o meu bem-educado maître. Esse jeito delicado com que ele trata os clientes não me engana. Eu conheço de longe um macho de verdade. Essas costas largas, esses ombros… Isso, volta para cá, vem, Clermontzinho, vem para a sua Marlene…

— Senhor Otávio, o que o senhor deseja para hoje? Se me permite uma sugestão, as ostras estão maravilhosas.

— Hum, não sei, Marlene, o que acha?

O que eu acho, Otávio? Eu acho esse homem um verdadeiro garanhão! Olhe para as mãos dele: grandes, grossas…

— Marlene?! Eu estou falando com você! Você quer o seu risoto ou vai seguir a sugestão do Clermont?

— Hum, eu acho que vou de riso…

— Pois bem, Clermont, pode trazer as ostras. Para Marlene e para mim.

— Mas, Otavinho, eu estava pensando em comer o riso…

— Marlene, vamos aceitar a sugestão de Clermont. Vamos mudar um pouco, experimentar pratos novos. Posso confiar no seu bom gosto, não é mesmo, Clermont?

— Sem dúvida, senhor Otávio.

— Então pra mim está ótimo também, Clermont. Vou deixar me surpreender pela sua proposta.

— Tenho certeza de que não vou decepcioná-la e a senhora vai se deliciar…

— Disso eu também tenho certeza. Absoluta, Clermont.

 

Foto: Arquivo Shutterstock

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