O mal do chocolate

Era uma manhã de domingo, não tão quente. Talvez o fato do asfalto, que deixou cinza as ruas que antes eram de terra, não conseguir absorver o calor aumentou a temperatura no bairro. Antes das 10 horas daquela manhã preguiçosa as pessoas já ocupavam as ruas sob o céu azul de poucas nuvens.

Quase todos já carregavam sacolas nas mãos das compras para o almoço de domingo: frango assado, pães para o café tardio de quem acordara há pouco. A quitanda já estava cheia e filas se formavam em direção do caixa. Refrigerantes, batalha palha e um tempero pro arroz eram vistos nas mãos de quem aguardava a sua vez para pagar as compras.

Na rua o movimento seguia frenético, como se fosse o de um grande centro comercial. A diferença era que não se ouvia o barulho de carros e motos. E sim uma música antiga vindo do interior de um fusca estacionado na frente da quitanda. O homem gordo de bigodes aguardava ali, junto com as suas lembranças, o retorno da mulher que estava lá dentro.

As crianças brincavam na rua e atravessavam de um lado para o outro sem a preocupação de serem atropeladas. Ainda há tempo para brincar de amarelinha, pipa e esconde-esconde.

De um lado, o senhor de pele negra, enrugada pelo sol, já abria o porta malas e oferecia a todos que passavam suas pamonhas. Na propaganda feita de boca a boca vinha a garantia que elas estavam fresquinhas. Ele já dizia que a aparência é tudo e isso não valia só para os seus produtos. Seus sapatos estavam engraxados e a roupa estava bem passadas com vincos perfeitos nas mangas da camisa de manga curta e na calça social.

Além das pamonhas, sua jovem filha – que demonstrava um certo tédio em acompanhar o pai por mais uma manhã de trabalho enquanto preferiria ficar em casa – ia expondo no capô do carro os potinhos de curau preparados na noite anterior pela mãe.

Mais incomodada com o sol era a vendedora de mandiocas do outro lado da rua. Com sua banquinha improvisada com uma tábua em cima de um carrinho de supermercado ela tinha sido a primeira a chegar, como de costume. A preocupação com as suas mercadorias era maior do que com a própria pele. Pela lente dos seus óculos, que estavam na ponta do nariz já embaçados do suor da sua pele que tanto transpirava, ela tentava amarrar um guarda-chuva no carrinho para que a sombra protegesse seu ganha-pão.

O carrinho ainda estava cheio, sinal de que as vendas não estavam boas. Baixinho, ela sussurrava a preocupação: é dia de vender chocolate?

Os vendedores todos já se conheciam. O pamonheiro cumprimentava sempre a senhora das mandiocas. No final do dia, o vendedor de lírios do campo sempre entregava um maço de flores para ela e para a filha do vendedor de pamonhas. O rapaz que vinha da cidade para vender móveis e cadeiras ficava de papo com todos e soltava sempre algumas piadas para alegrar as tardes monótonas enquanto não apareciam clientes.

O mais tímido talvez fosse o vendedor de bichinhos de pelúcia e pipas. Mesmo assim, todos se respeitavam.

Naquela manhã, porém, a presença de um grande caminhão vermelho chamou a atenção de todos. Os novos vendedores ainda trouxeram um carro de som que circulava pelas ruas avisando da novidade: eram chocolates de fábrica a preço de custo. Resultado seria fatal para os demais vendedores.

Em poucos minutos, o povoado inteiro – que não era muita gente – estava lá na frente daquele caminhão vermelho que brilharia, de tão novo, mesmo se não houvesse sol. “Chocolate de fábrica, será que é bom?”. Aliás, qual a diferença de um chocolate ser de fábrica? Os outros são de onde? As perguntas não faziam importância. Talvez o caminhão e o carro de som tenham chamado mais a atenção do que os próprios chocolates. Naquele dia o vendedor, fitado com ares de desprezo e indiferença pelos demais comerciantes, conseguiu lucrar vendendo todo o estoque.

A novidade se espalhou e alguns chegaram atrasados ainda procurando os tais “chocolates de fábrica”, mas eles já tinham acabado. À essa altura já estavam nas sacolas a caminho das casas dos moradores que iriam partilhar da novidade após o almoço com a família.

As ruas ficaram novamente vazias. Enquanto isso, a senhora das mandiocas continuava a tentar enganchar o seu guarda-chuva sobre o seu carrinho e pensava se voltava mais cedo para casa ou se continuava por ali, até o horário que estava acostumada, esperando aparecer algum interessado em comprá-las.

 

Imagens: portalgcr.com.br

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