O menino e a moeda

No restaurante.
─ Hei, senhor! Me dá uma moeda?
─ Tenho, não!
─ Hei, tio, me dá uma moeda?
─ Não tenho sobrinho nessas condições.
─ Hei, moço, me dá uma moeda?
─ Vá pedir pro seu pai.
─ Hei, senhor, me dá uma moeda?
─ Pra que você quer uma moeda?
─ Tô com fome, senhor!
─ Olha, dinheiro não dou, não, mas, se quiser, um lanche!
─ Pode ser!
─ Entra aí então e pede lá que eu pago.

Na rua.
─ Já te disse, Zezinho, qual é?, quero é dinheiro vivo, entendeu?
─ Sim, mas às vezes tenho fome.
─ Que fome, que nada, tô te avisando, quero é grana preta.
─ Vá lá e muda esse seu tom pra pedir grana. Grana, entendeu?
─ Sim.
─ Então, vai lá, que agora tenho que ver os meninos que olham os carros.

No restaurante.
─ Hei, senhor, me dá uma ajuda!
─ Tenho, não.
─ Hei, tio, me dá uma ajuda!
─ Não sou seu tio; se tivesse um sobrinho igual a você, eu dava um jeito.
─ Hei, moço, dá uma ajuda!
─ Pra que você quer uma ajuda?
─ É que tenho que levar uma grana pra casa, comprar pão e leite pra mim e meus irmãos, e se tiver sorte posso comprar até alimentos pra casa.
─ E você não tem pai e mãe? E sua mãe faz o quê?
─ Cata papelão.
─ Não sou de dar dinheiro, não, mas toma aí esses trocados, vê se arruma uma quantia e vai pra casa.
─ Brigado, moço.

Na rua.
─ É, Zezinho, tá vendo?, cê sabe das coisas, isso aí, grana viva!
─ Mas e a minha parte?
─ Que parte? Demorou pra arrumar grana, ainda mais me trouxe uma mixaria, fim da noite nóis vamo ver como fica. Volta lá pra porta do restaurante, hoje tá bombando. [risos]

No restaurante.
─ Hei, senhor, me dá uma moeda?… Ops, uma ajuda?
─ Cadê sua família? Tá se virando pra arrumar comida?
─ Comida.
─ Olha, se tá com fome, eu te pago um lanche; olha, faz uma marmita e leva pra casa.
─ Tá bom, senhor!

Na rua.
─ Tá de brincadeira, uma marmita! Cadê a grana, dinheiro vivo?
─ Vou levar pra minha mãe, mas, se o senhor quiser, pode ficar com ela.
─ Ficar o quê? Vou te dar é uma boa pisa, pra tu ver quem é que manda, e o que eu quero é grana pura.
─ Hei, senhor, larga a criança!
─ Não te mete, ô, vacilão.
─ Vacilão é você, aqui é polícia, vou chamar a viatura.
─ Pode chamar, é meu filho.
─ Sou, não, moço.
─ Cala a boca, Zezinho.
─ Isso é que vamos ver lá na delegacia.

Na delegacia.
─ Zezinho, você está liberado, aliás, nem deveria estar aqui. E olha o homem que te explorava: vai ficar um bom tempo guardado.
─ Mas ele é perigoso.
─ Não, depois de darmos uma lição nele. Faz tempo que estava sujando a área, e cê sabe, né?, os caras não gostam que atraiam polícia pro pedaço.
─ Certo, seu delegado.
─ Viu, Zezinho, tem mais: todas as moedas que encontramos com o tal explorador de crianças vão ficar contigo, aí você vai poder levar pra casa e comprar sustento pra sua família, e algo a mais pra consumo.
─ Brigado, seu delegado.
─ Espero que você possa sair dessa vida de pedinte, procure uma ajuda, sei que não é fácil, mas prometa que vai tentar.
─ Sim, já tenho 13 anos mesmo, vou trabalhar em um lava-rápido, ou em algum comércio aqui do bairro.
─ Você estuda?
─ Não.
─ Procure uma escola, converse com sua mãe e boa sorte!

19 comentários para “O menino e a moeda”

  1. Keli Vasconcelos

    Keli Vasconcelos

    Pena que ainda seja a realidade tão viva, tão triste, que corre, que estende a mão e a gente teima em desprezar… Parabéns pelo belo texto, Germano!

  2. ARLINDO

    Muito bom professor, parabens!!

  3. Mikail Almeida

    Muito bom, embora eu não seja critico literário como alguns comentários que li, mas faz parte do nosso dia-a-dia esta é nossa realidade. Parabéns….

  4. Germano Gonçalves

    Germano Gonçalves

    Venho aqui agradecer a todos e a todas, pela consideração, e por disponibilizarem um tempo, lendo e comentando mais um texto de minha autoria. Pois escrevo para vocês podem ter certeza, que sem vocês não tinha sentido escrever. Os finais têm de serem felizes, pois já basta está vida de dificuldades, onde enfrentamos com nossos ideais, dia-a-dia para termos um mundo melhor para se viver, agradece valeu!

  5. Shellah Avellar

    Shellah Avellar

    Meu kerido amigo jornalirista Germano. Infelizmente é disto k se trata…Há sempre alguém oprimindo alguém. Nem todos os kasos tem um final feliz komo na sua história.Há pais e mães tão desesperados k já se endureceram e perderam a ternura pelos filhotes. A sobrevivência vem na frente do amor.Bjkas kósmikas!

  6. Almerio Barbosa

    Dolorido, realista e muito bem escrito. Emocionado.

  7. Vera Monteiro p

    Germano que texto cara. Nós remete a vermos e não imaginarmos a vida diária destes garotos (as).
    A lógica real de serem presas por abutres que por vezes já foram este menino.
    E daí pra dependência química tá beirando a caída.
    Questionamento : Há família, há ação pública a todos, há esperança de não vermos nem lermos histórias assim?!
    Quem dera um siiiiiiiim!
    Que orgulho de teus escritos.

  8. PAULO PATERNIANI

    BELÍSSIMO !!

  9. Ivanete Rebouças

    Texto que nos mostra uma triste realidade ,mas de uma forma leve e envolvente com um final que é o desejo de todos que leem.

  10. Rodrigo Titarelli (DrPaxeco)

    Poeta na VIDA , A realidade inspira a MATERIALIDADE!

  11. Mateus

    Eu fiquei um tanto confuso se houve uma simplificação desinteressada de uma situação extremamente complexa ou se essa mesma simplificação traz em si o significado de como a pobreza estrutura e organiza os sujeitos históricos economicamente menos favorecidos

  12. jose severino pessoa

    como um trabalhador,que sou,mesmo depois de aposentado continuo trabalhando, escrevendo as minhas história, tenho um livro editado pela editora above .
    estou com outro livro na revisão, ,e o Germano Gonçalves que me deu apoio sobre o meu trabalho, fico feliz por ler o trabalho dele um trabalho maravilhoso, esse é o Germano Gonçalves um lutador por aquilo que lhe interessa , que a luta pela vida pela família!!!

  13. jose severino pessoa

    Germano Gonçalves, um escritor um amigo um pai, uma otina pessoa, um escritor professor ,um amigo que leo o meu livro ,que me fez uma ótima Resenha sobre o meu livro uma boa representação sobre o meu trabalho,a minha história,eu recomendo esse cara como um grande amigo ,um grande poeta marginal , apresentador de um sarau no céus de São Rafael.onde tenho acompanhado o trabalho dele e do fé a esse trabalho esse amigo .Jose severino pessoa—– Jose pessoa.

  14. Paulinho Dhi Andrade

    Adorei, lembrou-me Capitães de Areia.

  15. Luzia AparecidaPacini

    Gostei bastante! A sua " essência" de poeta se traduz nos seus versos! Ninguém dá o que não tem! Os seus escritos e poesias refletem o que é seu a sua alma a sua "essência" e isso resplandece e você divide o que tem, com suavidade e doçura! Uma certa inocência! Admirável!

  16. Mariângela dinis

    Amei,como sempre vc é um excelente escritor. Te adimiro mto. Parabens

  17. Wanessa

    Gostei Germano Parabéns …

  18. Lucy Conceição Simões

    Seu texto retrata a realidade de muitas crianças e jovens brasileiros. Parabéns!!!!

  19. CIDA SANTOS

    Muito bom Germano, seu texto é muito coerente! A realidade, nua e crua, sem tirar nem por! bjs

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