O monstro debaixo da cama

E o pai levantou-se do sofá, tarde da noite, quando ouviu o filho. Foi para o quarto ver o que estava acontecendo. O menino, de 4 anos, pedia que o pai acendesse a luz e olhasse, mais uma vez, embaixo da cama. Tem barulho aí, disse o garoto.

O pai olhou, sorriu, não viu nada, além do chão e um ou outro brinquedo perdido por lá. O menino argumentou: Ah, então ele se escondeu.

Claro, disse o pai. Ele se escondeu sob o chão. Afinal, pela janela não poderia sair, porque está trancada. Nem pela porta, porque eu o veria lá na sala…

Pena! O garoto queria era ver o monstro debaixo da cama. Não podia ser mau, afinal há muito tempo que toda noite o menino o escutava e ele nunca o comeu. Devia ser tímido, esse monstro, bicho do mato, como a avó costuma falar.

A luz foi apagada, o menino virou para o lado e dormiu.
E, sob a cama, ele apareceu.

Sim, o pai tinha razão: o esconderijo era sob o chão.

E o monstro, apertadinho sob a cama, ficou lá quietinho, cuidando para não fazer barulho, o que por vezes era difícil, afinal monstros são desajeitados e grandes e gordos e pernudos e braçudos…

Mas toda noite ele vinha para seu ponto, da mesma forma que milhares de monstros em todo o mundo se dirigiam para debaixo de outras camas em países diversos simplesmente para ver sonhos infantis.

Esse é o prazer dos monstros debaixo da cama: ligar o 21º sentido deles (monstros não têm só cinco sentidos…) para conseguir ver os sonhos das crianças e conquistar o que é essencial para a vida dos monstros: paz no coração.

E ficam lá, sorrindo o sorriso de boca de monstro, mas doce, como só pode ser doce um sorriso vindo de um sonho infantil.

E mais: se o Monstro percebesse o surgimento de algum pesadelo, logo ele dava um jeito de arrancar o sonho ruim da cabecinha da criança, mandando-o para o depósito abominável dos pesadelos infantis e emitindo seu grunhido calmante para fazer o menino ou a menina voltar ao soninho perfeito.

Pela manhã, antes de o sol aparecer, o monstro debaixo da cama suspira fundo e volta para debaixo do chão, onde pega o rumo para a Monstroluna, lugar sem crianças, mas repleto de sabedoria conquistada nos sonhos vistos de meninas e meninos deste mundo.

 

Imagem: fabricadementes.com

Comentário