O mundo em mim

Encontrei na feira de San Telmo, em Buenos Aires, o artesão mais “buena onda” daquela rua sem fim. Foi em janeiro e fazia muito calor. Os anéis de madeira que ele vendia me chamaram atenção e parei para conversar com o criador. Eram amuletos feitos com retalhos do mundo. Cada pedacinho dos anéis foi colhido por ele e montados conforme a geometria permitia.

Depois de um tempo, escolhi um. Seu detalhe em azul encheu meus olhos – turquesa, descobri mais tarde. “Essa estrelinha que tem no meio é um fóssil que peguei na Patagônia”. Ficamos ali uns minutos conversando. Ele me ofereceu uma cerveja, rimos do meu sotaque e me contou da alegria que é para ele poder viver de sua arte e saber que pessoas de várias nacionalidades levavam suas peças mundo afora.

São muitas as histórias que esses anéis carregam: as fossilizadas e as que estão por vir. E saber que estão rodando o mundo é o que há de mais inspirador, pois nos leva a pensar quanto de nós não estaria espalhado pelo mundo.

Em minha última viagem a Buenos Aires, o que será que ficou de mim lá? No mochilão pela Europa, na viagem a Belo Horizonte, na minha ida forçada ao Largo Treze, esta manhã. Todos os dias, convivo com estrangeiros – sou professora de português. Quanto de mim não é levado ao Japão, Colômbia, Inglaterra, México, Austrália, Suécia? Quanto deles não fica em mim?

Comprei o anel. Num papelzinho, o artesão anotou, em espanhol, todas as partes que o compõem: anchico madera, cañas de bambú, hueso de costilla de ballena, ébano, maclura, moradillo, palo santo, algarrobo, michay, turquesa, malaquita, lapislázuli, crisocola, mutisia.

E agora está comigo no Brasil, levando – e vivendo – histórias.

 

Imagem: http://aguiarbuenosaires.com

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