O número alvo

 

 

Acordou em uma noite quente com os olhos esticados e caminhou pelo corredor escuro até a cozinha. Na geladeira havia um calendário com animais desenhados colados com ímã, no armário tateou os copos e pegou uma xícara que encheu com o café que não estava mais quente. Tomou e molhou sua testa calva com a água que permaneceu em suas mãos após lavar a xícara. Ribeiro estava com quarenta e dois anos e o sonho com a matilha havia inspirado uma rodada inteira do ponteiro maior do relógio de parede, sentado com um caderno velho e uma caneta de tinta azul, mapeava o resultado dos últimos seis meses que estavam colados em um rolo imenso. Neles, cálculos que somavam os primeiros resultados divididos com os terceiros, inúmeros rabiscos de subtração e um possível acerto de quatro algarismos. Esse número anotou em um pedaço de guardanapo, quatro números, levantou e foi até a geladeira, os olhos passaram pelas descrições do ímã.

 

A camisa amarela marcada com mancha de café que descia da gola até a manga direita, ele atravessou a sala de carpete vinho e com desenhos egípcios em cinco passos. A estante de madeira escura estava abarrotada de livros sem organização e os espaços vazios eram ocupados por jornais velhos e mofados. A luz da lâmpada batia diretamente nos livros e clareou a sala. Ribeiro arrastou os chinelos pausadamente até chegar ao quarto, não acendeu a luz e deitou na cama. Os cães farejavam aquele número dezoito em forma de círculo, não pensava em mais nada além da visão do seu sonho, suava. Com o cigarro nos lábios, tateou o criado-mudo até perceber que o isqueiro estava no bolso direito de sua camisa. Suas mãos magras se iluminaram com a luz do isqueiro, a fumaça circundava os cinco cachorros correndo pela rua atrás de bolas que pareciam estrelas explodindo como fogos de artifício, adormeceu imaginando acertar os números no jogo.

 

A janela do quarto, que dava para rua estreita, tremeu com o barulho de um caminhão e Ribeiro ouviu os latidos dos cães e seus olhos esticaram. A camisa e seus poucos fios de cabelos brancos estavam molhados de suor. Descalço, correu pelo tapete vinho até a porta da sala, ao abrir contou cinco cachorros parados, babavam. O maior, com os pelos grandes marrons e cinza, foi o primeiro a correr até a cozinha e farejar incansavelmente todos os cantos dos três cômodos da casa de Ribeiro. Enquanto um pequeno de rabo curto e preto continuava na porta da sala, concentrado e quieto. Os outros três correram para o quarto, subiram na cama, latiram de um lado para o outro e Ribeiro sem expressão no rosto curto. O caminhão acelerava na esquina, esquentava o motor como estivesse a partir em fuga. O focinho do cachorro de pelos grandes era enorme e escuro, uma aparência maligna. A cada ranger do motor, o menor preto torcia o pescoço e mirava o portão pequeno e amarelo.

 

Ribeiro sentou junto do batente da porta, sorriu e olhou para o pequeno cão, mas não falava. O maior correu na direção do quarto e os outros três latiram incansavelmente. As luzes das casas vizinhas acenderam e alguns saíram para a rua quando ouviram os latidos. Um jovem barbudo e bêbado, antes de dobrar a esquina, parou e berrou mais alto enquanto o caminhão acelerava esfumaçando toda a estreita rua. Ribeiro balançou os braços para o alto em uma confusão de gestos. A mulher, que abriu o portão da frente ao lado de uma jovem que vestia pijama de bolinhas brancas, andou apressada com os braços cruzados na direção da casa de Ribeiro. Os cães latiam mais alto como uma briga turva e a criança que estava no colo do homem que olhava pela janela de um sobrado chorava e curvava a cabeça. O velho morador da casa azul da esquina chegou curioso até a porta de Ribeiro. O caminhão de caçamba baixa e vazia era vermelho e suas rodas de alumínio cintilavam com a luz do poste.

 

Os ponteiros giraram e os vizinhos se amontoaram em frente ao portão azul de Ribeiro, quando um clarão saiu pela janela da pequena casa e os cães correram para fora empurrando uma bola que brilhava. Semelhante a uma bola de sinuca polida que circulava o número dezoito. E queimava, queimava como uma estrela cadente e iluminava a casa de Ribeiro. A criança sorriu e os cachorros rolaram a bola com os focinhos até a caçamba do caminhão. Ribeiro parado, a senhora de cabelos longos batia palmas em uma excitação alegre. O motorista do caminhão desceu e pegou a bola com as duas mãos, que vestiam luva. E foi nesta ordem que os cães pularam no caminhão, primeiro o cachorro maior, depois os três que eram quase idênticos e por último o quieto e magro cachorro preto. As pessoas comentavam incrédulas no que havia acontecido, falavam uma com as outras mirando o caminhão acelerar, dobrar a esquina e a luminosidade da bola polida desaparecer.

 

No dia seguinte Ribeiro trancou a porta, janelas e juntou todos os resultados dos meses anteriores que estavam colados em um imenso rolo. Anotou com a caneta azul em sua caderneta mais do que quatro possibilidades de resultado do jogo. Olhou para o relógio, sorriu abafado com o rosto colado nos braços sobre a parede. Abriu a maleta de couro marrom que guardava em cima do armário e pegou todas as notas. Foi até o local do jogo, sua expressão ficou séria e disse que descobriu o segredo do número alvo. O homem calmo e de cabelos negros anotou as quatro sequencias que terminavam com o número dezoito. Ribeiro caminhou tranquilamente e a rua de sua casa estava deserta. Fumou dois cigarros até as dezoito horas, o horário do resultado. Os ponteiros marcavam a esperada hora e Ribeiro esticou os olhos para o papel amarelo em que estava escrito, em todos os finais das sete sequências, o número cinco.

 

*Alessandro Araujo é escritor, autor do livro “Pro Santo & outras perdições” (Editora Multifoco, 2012), que você pode conhecer e adquirir clicando aqui.

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